Um dos momentos mais divertidos no palco da STXP 26, realizada no último dia 2 no Teatro Cásper Líbero, em São Paulo, foi o painel Papo de Dublador, que contou até com a interpretação de uma cena fictícia de Strange New Worlds.
Sob a mediação de Diego Lima, diretor de dublagem de Star Trek: Discovery, os dubladores Patt Souza (voz de La’An Noonien-Singh em Strange New Worlds) e Felipe Zilse (voz de Spock em Discovery e Strange New Worlds) revelaram as engrenagens de uma profissão que equilibra rigor técnico, sigilo contratual e a responsabilidade de democratizar o acesso à cultura popular. Confira a seguir o vídeo do painel completo.
A dublagem brasileira, tradição que já se alonga por quase seis décadas na franquia, foi apresentada não apenas como um serviço técnico, mas como um pilar de acessibilidade. Salvador Nogueira, anfitrião do evento, ressaltou que a versão em português é, para muitos, o primeiro contato com o universo de Gene Roddenberry. Diego Lima corroborou essa visão, destacando que a dublagem viabiliza a compreensão precoce da série, antes mesmo de o espectador dominar o som original ou legendas.
Essa função social ganha coro em pesquisas acadêmicas que definem a voz como uma “impressão digital sonora” e a dublagem como um meio potente de inclusão para pessoas com deficiências visuais, intelectuais ou não alfabetizadas. De acordo com os debatedores, a ofensa para o profissional não reside na preferência pelo áudio original, mas sim na ausência de um produto com tradução e audiodescrição de qualidade.
O MUNDO CEGO DOS ESTÚDIOS
Um dos pontos de maior curiosidade do público foi o cotidiano de gravação, descrito pelos profissionais como um ambiente de alto sigilo e restrições técnicas. Patt Souza e Felipe Zilse desmistificaram a ideia de que o dublador assiste ao episódio completo antes de trabalhar. “A gente só sabe as cenas que a nossa personagem aparece. As outras, eu não vejo”, explicou Souza.
O nível de segredo, regido por rigorosos Acordos de Confidencialidade (NDAs), chega ao extremo de os atores gravarem olhando para telas quase totalmente obscurecidas. Em produções de alto orçamento, é comum que apenas uma “bolinha” mostre a boca do ator original para fins de sincronismo labial (lip sync), enquanto o restante da imagem permanece bloqueado para evitar vazamentos. Zilse relatou que, ao dublar o protagonista de Mandaloriano, muitas vezes não havia sequer a “bolinha”, já que o personagem usava capacete.
Além do sigilo, a rotina exige um “trabalho constante de esquecimento”. Com jornadas que podem envolver até oito produções diferentes por dia, os dubladores afirmam que precisam “resetar” a mente ao sair do estúdio para minimizar o desgaste do trabalho.
O DESAFIO DO HÍBRIDO VULCANO
Felipe Zilse compartilhou os desafios de interpretar uma das figuras mais icônicas da ficção científica: o oficial Spock. Para o ator, a dificuldade reside na natureza linear e lógica do personagem, que exige a supressão de emoções, mas permite lapsos de humanidade em momentos críticos. “O Spock é um dos personagens mais difíceis que já gravei. Ele fala muito rápido e tem uma linguagem muito técnica”, revelou Zilse.
Uma curiosidade técnica levantada no painel foi a versatilidade de Zilse, que teve a oportunidade de dublar não apenas a versão atual de Spock (vivido por Ethan Peck), mas também de emprestar sua voz ao Spock original de Leonard Nimoy em chamadas promocionais que utilizavam arquivos de imagem da Série Clássica.
INTERATIVIDADE O FORRÓ DE LA’AN
O painel atingiu seu ápice de descontração quando Diego Lima propôs uma dinâmica de vozerio com a plateia. O vozerio é a técnica de gravar grupos de pessoas falando simultaneamente para preencher sons de fundo em ambientes como restaurantes ou praças. Centenas de fãs simularam o burburinho de uma nave da Frota Estelar, sob a regência dos profissionais no palco.
Em um momento inédito, Patt Souza e Felipe Zilse interpretaram uma cena improvisada onde seus personagens, La’An e Spock, tentavam decifrar a letra do forró “Xote dos Milagres”, da banda Falamansa. A análise vulcana de Spock sobre os versos — interpretando literalmente frases como “o sangue que corre em mim sai da tua veia” como um risco de choque anafilático — provocou gargalhadas e aplausos, sublinhando o carisma que a dublagem confere aos personagens.
REVERÊNCIA AO LEGADO
O evento foi complementado por recados em vídeo de outros membros do elenco de voz brasileiro. Fábio Moura (Saru), Cecília Lemes (Georgiou), Amazyles de Almeida (Jett Reno), Priscila Franco (Burnham) e Bruna Matta (Tilly) enviaram saudações aos “trekkers”, reforçando o sentimento de comunidade que une os profissionais e os fãs.
Ao final, Diego Lima destacou que a dublagem é bem-sucedida quando se torna invisível, permitindo que a obra original brilhe sem que o espectador perceba o artifício da tradução. Para os presentes no Teatro Cásper Líbero, o painel não apenas humanizou as vozes por trás dos uniformes, mas reafirmou a dublagem como um patrimônio cultural essencial para a longevidade de Star Trek no Brasil.
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