Diz a lenda que, em 1997, Reed Hastings havia esquecido de devolver a fita VHS do filme Apollo 13 na videolocadora Blockbuster e teve de pagar uma multa de 40 dólares pelo atraso. Zangado consigo mesmo, ele pensou numa forma de locar os filmes sem que houvesse atrasos e multas. Mal sabia ele que aquela ideia era o germe de uma revolução na forma de distribuir e consumir entretenimento.
Hastings, em parceria com Marc Randolph, fundou essa inovadora locadora, a Netflix, em 29 de agosto de 1997, na cidade de Scotts Valley, Califórnia. O nome Netflix é a junção de net (uma referência à internet) e flix (gíria americana para filmes). Inicialmente a Netflix seria só isso mesmo, uma videolocadora, mas capaz de oferecer algo que as concorrentes tradicionais não ofereciam na época.

Reed Hastings e Marc Rudolph (Crédito: Reprodução)
A partir de 1999, passou a funcionar assim: você assinava um plano mensal e escolhia no site da empresa os DVDs que queria ver, fazendo a sua “lista de desejos”. Eles estando disponíveis, você recebia o DVD num envelope vermelho, em sua casa, pelos correios. Após assisti-los (no dia e hora de sua preferência), era só devolver os DVDs, sem multa ou contagem de atrasos, usando o mesmo envelope, já pré-pago, despejando-o em qualquer caixa dos correios. Assim que fosse processada a devolução, o cliente receberia novos DVDs no mesmo sistema. Parecia uma mudança trivial, mas o plano de assinatura mensal foi revolucionário, rompendo com o modelo existente de locação de filmes por título e prazo. O cliente podia locar quantos filmes quisesse, por uma tarifa fixa mensal.

Tradicional envelope de DVD da locadora Netflix. (Crédito: Netflix)
Durante muitos anos a Netflix conviveu pacificamente com sua rival, a gigantesca Blockbuster, e até mesmo tentou negociar com ela uma parceria, que acabou rejeitada pela empresa então maior, em 2000.
O que abalou mesmo todas as estruturas foi o avanço das conexões de internet em banda larga, que começaram a chegar na primeira metade dos anos 2000. Em 2007, a Netflix decidiu que já havia capacidade instalada para dar o próximo passo: dispensar os correios e entregar os filmes diretamente aos clientes pela internet, em tempo real, num formato digital. Era a aplicação da então nascente tecnologia do streaming, que permitia aos usuários acessar os filmes direto pelo site da empresa, sem envelopes ou devoluções.
E aí, com essa evolução tecnológica, a Netflix explodiu e iniciou sua caminhada para não só abrir um novo ramo de negócios como se tornar a líder isolada nele. Não era uma moda, mas uma escolha que viria para ficar. A Blockbuster, incapaz de se adaptar ao novo modelo de negócios, declarou falência em 2010.
O sucesso, na primeira década dos anos 2010, saltou aos olhos dos estúdios de cinema e TV, que estavam vendo a Netflix canibalizar o até então vultoso mercado de home video baseado em mídias físicas (VHS, DVD e Blu-ray) usando para isso o licenciamento do conteúdo dos próprios estúdios. A Netflix, por sua vez, sabia que sua liderança poderia virar poeira se todos os produtores de conteúdo desistissem de licenciar seus filmes. Daí veio a necessidade de se tornar, ela mesma, uma geradora de produções originais.

House of Cards, a primeira série original Netflix., (Crédito: Netflix)
A primeira delas foi a série House of Cards, estrelando Kevin Spacey, numa trama envolvente que mostrava os bastidores do poder na capital dos Estados Unidos, Washington. Lançada em 2013, foi um sucesso colossal de público e crítica, vencendo vários prêmios. Em mais uma modelo disruptivo, a Netflix lançava todos os episódios de cada nova temporada de uma vez, inaugurando o fenômeno cultural do binge-watching, pelo qual você pode “maratonar” todos os episódios da temporada sem esperar seu lançamento semanal. Outros sucessos viriam na esteira desse, como Orange Is the New Black (2013), com Kate Mulgrew, e o mega sucesso Stranger Things (2016), entre muitas outras produções que rivalizaram com, e frequentemente superaram, as que então figuravam nos canais de TV aberta e fechada, para não mencionar produções de cinema.

O megahit Stranger Things. (Crédito: Netflix)
Num espaço de menos de 20 anos, a Netflix foi de uma videolocadora de DVDs pelo correio a uma das empresas mais influentes da história do entretenimento, com presença em 190 países e centenas de milhões de assinantes ao redor do mundo. A Netflix liderou uma transição digital que redefiniu o que passaria a ser a nova forma de assistir a um filme ou série.
A história que começou com uma insatisfação em pagar a multa de atraso de devolução tornou-se um aprendizado sobre adaptação: a capacidade de enxergar numa frustração do cotidiano o início de uma revolução.
A empresa chegaria ao Brasil em 2011 e caiu rapidamente no gosto popular, tornando-se um dos mercados mais importantes globalmente.
E STAR TREK COM ISSO?
A CBS Studios, então detentora dos direitos sobre Jornada nas Estrelas, foi uma das empresas que perceberam que, cedo ou tarde, precisariam surfar essa onda com seu próprio serviço de streaming, em vez de deixar a Netflix fazer isso sozinha. A empresa do tudum, por sua vez, já sabia que Star Trek tinha um enorme potencial de público. Em seus licenciamentos das séries e filmes antigos da saga, notou que os fãs tinham o hábito de ver e rever os mesmos episódios de novo e de novo (fenômeno que vem desde os anos 1960, certo?) e que a franquia teria enorme poder de fidelização para clientes que assinassem mensalmente o serviço.
Em 2 de novembro de 2015, a CBS tornou público seu plano: lançar a primeira nova série de Star Trek desde o cancelamento de Enterprise em janeiro de 2017 (respeitando uma janela negociada no divórcio entre ela e a Viacom de que a Paramount Pictures poderia desenvolver três filmes antes que a CBS trouxesse a franquia de volta à TV; com Sem Fronteiras agendado para 2016, o retorno à televisão ficaria para o ano seguinte).
O anúncio nada trouxe sobre os detalhes criativos, afinal nada havia sequer sido pensado. Havia apenas a informação de que a série teria como produtor executivo Alex Kurtzman, homem de confiança no estúdio após o revival bem-sucedido de Hawaii 5-0 e o sucesso na roteirização dos dois filmes de Star Trek dirigidos por J.J. Abrams. E a revelação mais importante: a nova produção seria a primeira a ser feita especialmente para o vindouro serviço de streaming da empresa, o CBS All Access.

Logo para identificar produções originais do CBS All Access em 2017. (Crédito: CBS)
De início, a CBS pensou em lançá-lo apenas no mercado americano, comercializando em 2016 os direitos de primeira exibição internacional da nova série à Netflix – por uma pequena fortuna, é claro. Com isso, a detentora da franquia poderia fazer esse experimento de lançar seu próprio serviço no mercado americano a um custo muito baixo, já que o licenciamento praticamente pagaria pela caríssima nova série.
Com isso, Star Trek voltaria a ser uma grande atração do catálogo da Netflix – levando com exclusividade o novo programa em 188 países (incluindo o Brasil) e, de quebra, fechando um longo contrato de licenciamento por todas as cobiçadas produções antigas de televisão (as que a CBS poderia negociar) que perduraria por dez anos, entre 2016 e 2026, para 190 países (aí incluindo Estados Unidos e Canadá).
Enquanto Kurtzman precisava descobrir que maravilhosa série seria essa a relançar Star Trek na televisão, a Netflix tinha um trabalho a realizar por essas bandas: uniformizar a disponibilidade de todo o catálogo para exibição no Brasil incluindo dublagens às atrações que jamais haviam recebido uma versão brasileira antes. Nessa leva estavam a sétima temporada de A Nova Geração (exibida originalmente com legendas no Universal Channel, em 2006), as quatro temporadas de Enterprise (exibidas legendadas pelo canal AXN entre 2002 e 2006) e a Série Animada, cuja dublagem original pela Álamo feita nos anos 1970 já havia sido irremediavelmente perdida.
VERSÃO BRASILEIRA, QUEM?
A tradicionalíssima VTI-Rio havia sido fechada por Victor Berbara em 2008, junto com o encerramento da distribuidora Network, e os novos trabalhos com Star Trek, encomendados pela Netflix, teriam de ser repassados a outra empresa. O ente contratado para prestar o serviço foi o Grupo Macias, que combinou bons preços a uma versatilidade grande para produzir tanto versões em português quanto espanhol, pensando no mercado latino-americano.
Em 3 de maio de 2016, o Trek Brasilis divulgou com exclusividade, em um furo de reportagem, que essas dublagens estavam em andamento no Rio Art, estúdio carioca ligado ao Grupo Macias, de São Paulo, começando pela Série Animada. Naquela ocasião, já especulávamos que a cliente fosse a Netflix, pelo tamanho da empreitada, mas a confirmação só viria em julho daquele ano.
As gravações ocorreram entre maio e outubro de 2016, em rápida sucessão, e as tradutoras das séries foram Anna Luísa Araújo e Cristina Segnin (A Nova Geração e Enterprise) e Cristina Nastasi e Anna Luísa Araújo (Série Animada). A Netflix também adquiriu os direitos para exibição do episódio piloto “The Cage” (que até então não tinha dublagem, exceto dos trechos usados no duplo “The Menagerie”) e de alguns especiais.

Cristina Segnin, Cristina Nastasi, Isabel Grau e Anna Luísa Araújo. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)
As séries foram chegando ao catálogo nacional da Netflix em ondas: Deep Space Nine chegou primeiro, entrando toda de uma vez em 2 de novembro de 2016; a Série Clássica, em 2 de dezembro; a Série Animada em 23 de dezembro; Voyager em 31 de dezembro, e Enterprise e A Nova Geração em 1º de janeiro de 2017.
A direção de dublagem de todos os produtos foi de Nando Lopes, sendo que partes da sétima temporada de A Nova Geração e das quatro temporadas de Enterprise foram codirigidas por Rita Lopes.

Nando Lopes. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

Rita Lopes. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)
A REDUBLAGEM DA SÉRIE ANIMADA
O primeiro material a entrar na linha de produção foi a animação setentista e, mesmo com o zelo dos fãs nas traduções, o trabalho acabou saindo com uma série de desatenções, principalmente com respeito a pronúncias e nomes de personagens. Tem até um “doutor Spock” no sétimo episódio da primeira temporada “The Infinite Vulcan”… Os problemas seriam sanados antes do fim da primeira temporada, e dali em diante o trabalho traz o zelo usual.
O diretor Nando Lopes não conhecia Star Trek e, quando começou a redublar a Série Animada, pediu auxílio e consultoria de Guilherme Briggs – dublador de Spock nos filmes de J.J. Abrams e trekker antigo, ex-integrante do Jetcom. Briggs, por razões profissionais, não pôde assessorar Nando, mas indicou o dublador e trekker Yuri Calandrino.
Yuri contou o seguinte: “Quem fez a ‘ponte’ foi o Briggs, Aí o Briggs me botou na jogada. Então, depois do desenho, tudo ele (Nando) falava comigo. Ele tirava foto e me mandava: Quem é esse? Como é que fala isso? Como é que pronuncia isso? Quem dublou esse? Me dá uma ideia? Quem eu boto para substituir? Ele não fazia nada sem falar comigo. Ele tinha uma preocupação. Ele tinha um carinho.”

Yuri Calandrino. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)
Embora Briggs não tenha podido ajudar com a consultoria, ele dublou Spock na produção, reprisando o papel dos filmes. Da mesma maneira, os demais dubladores dos filmes do universo Kelvin foram trazidos para ter um gostinho de fazer os mesmos personagens no universo primário. “O cliente decidiu manter um elenco de dubladores que estaria mais fresco na mente das pessoas de hoje em dia e por isso entrou o time de vozes dos novos filmes de J.J. Abrams, o que foi muito bem aceito pelos fãs. Ficou um trabalho muito bonito e feito com carinho por todos nós”, contou Briggs.
E uma curiosidade: o elenco de vozes brasileiras é muito mais numeroso que o original da Série Animada, em que os atores James Doohan, Majel Barrett e Nichelle Nichols faziam praticamente todos os personagens não fixos, excetuando-se Sarek (Mark Lenard), Harry Mudd (Roger C. Carmel) e Cyrano Jones (Stanley Adams)
STAR TREK (JORNADA NAS ESTRELAS)
Versão brasileira: Grupo Macias/Rio Art
Direção: Fernando Lopes
Apresentação: Marcio Dondi
Tradução: Cristina Nastasi e Anna Luísa Araújo
Kirk: Marcelo Garcia
Spock: Guilherme Briggs
McCoy: Marco Ribeiro
Uhura: Priscila Amorim
Scott: Claudio Galvan
Sulu: Paulo Vignolo
Arex: Jorge Lucas
Chapel: Sylvia Salusti
M’Ress: Sabrina Miragaia
Erikson: Yuri Calandrino
Sarek: Mauro Ramos
Amanda: Miriam Ficher
Spock criança: Wirley Contaifer
Guardião da Eternidade: Carlos Gesteira
Kyle: Renato Rosenberg
Koloth: Jorge Vasconcellos
Cyrano Jones: Eduardo Borghetti
Thelin: Sérgio Stern
Grey: Rita Lopes
Aleek Omm: Hélio Ribeiro
Curandeiro vulcano: Antonio Padua Moreira
Nuvem Cósmica: Aline Ghezzi
Theela: Andrea Murucci
A JAULA, PELA PRIMEIRA VEZ
Parece incrível, mas o episódio piloto de Star Trek, “The Cage”, nunca havia recebido uma dublagem brasileira em sua duração completa até 2016. Apenas os trechos usados no episódio duplo “The Menagerie” haviam recebido dublagens da AIC e da VTI. Em seus lançamentos nacionais em VHS, pela CIC Video, e em DVD, pela Paramount Home Entertainment e CBS Home Entertainment (versão remasterizada), o episódio constava sem dublagem.

Jeffrey Hunter e Leonard Nimoy em “The Cage”. (Crédito: CBS)
“THE CAGE” (“A JAULA”)
Versões brasileiras: AIC-SP / VTI-Rio / Rio Art
Pike: Dráusio de Oliveira / Dário de Castro / Phillippe Maia
Boyce: Carlos Leão / Pietro Mário / Alfredo Martins
Número Um: Maria Inês Nodial / Miriam Ficher / Izabel Lira
Vina: Elza Martins / Marisa Leal / Andrea Murucci
Colt: Aurea Maria / Ilka Pinheiro / Luisa Panomanes
Tyler: ? / Guilherme Briggs / Yuri Calandrino
Líder talosiano: João de Ângelo / Maralisi Tartarini / Pádua Moreira
Ao assistir às três versões, é possível perceber semelhanças e diferenças. A dublagem AIC é muito mais formal e radiofônica, com uma interpretação mais forte, com um texto que é bem traduzido, mas anacrônico no que diz respeito a termos técnicos e adaptações. A da VTI traz uma interpretação mais coloquial, com uma tradução que se mescla em inspirações do original e do texto da AIC. Essa redublagem é muito boa. Já a dublagem da Rio Art tem uma interpretação ainda mais coloquial, cheia de reações sonoras e inflexões, com um texto mais coloquial que os anteriores. Igualmente, um trabalho muito bom.
Destacamos um trecho da ótima conversa entre Pike e Boyce no episódio, onde o médico pergunta: a ponto de aceitar meu conselho e tirar uma licença?
As respostas dadas por Pike nas três versões:
AIC: Ao ponto de me demitir.
VTI: A ponto de considerar resignar.
Grupo Macias: A ponto de considerar dar baixa.
Sobre a escalação de vozes pela Rio Art, segundo Yuri Calandrino, foi um trabalho do Nando Lopes. “Para mim foi uma surpresa. Eu já vinha dando umas ‘dicas’, uma espécie de assessoria, com algumas terminologias. A gente já vinha fazendo alguns documentários e a Série Animada já estava em andamento. Ele me passou um horário para dublar. Qual foi a minha surpresa? Cheguei lá era o ‘The Cage’, o piloto. Falei: Caramba vão dublar o episódio piloto? Esse episódio nunca foi dublado. Ele respondeu, pois é, nunca foi. Você vai fazer o Tyler, você tem 21 loops. Você conhece o episódio melhor do que eu. Conheço, claro, é o ‘primeirão’. Fiquei todo emocionado como trekker. Fiquei muito emocionado”, contou Calandrino. “Para mim foi o maior barato, poder falar: ‘curso traçado”, ‘dobra espacial”, ‘não sei o que do espaço’, ‘sim, capitão’, coisas que navegador fala. Falar com o Spock: ‘Sr. Spock, os comandos não respondem.’ Cara, foi o maior barato. Muito legal e saí feliz da vida. Foi uma dublagem inédita do primeiro episódio da Série Clássica, ou seja, o grande pioneiro da jogada toda.”
O SÉTIMO ANO DE A NOVA GERAÇÃO
Com a avalanche de contratações feitas pela Netflix com prazo exíguo, coube a Nando Lopes dirigir também esses episódios finais da série, exibidos originalmente na TV fechada brasileira legendados, em 2006. Para dar conta da demanda, que incluída também quatro temporadas de Enterprise de uma vez só, Lopes trouxe Rita Lopes para ser codiretora da dublagem.
Em entrevista ao Trek Brasilis, em 2021, ela explicou seu papel. “Eu na verdade ajudei o Nando Lopes, ele foi convocado a princípio para fazer, só que era um volume muito grande de trabalho. Lembro que eram mais de 98 episódios [em Enterprise], era muita coisa. Ele me chamou pra ajudar. O Nando é muito parecido comigo. A gente é 220. Quer fazer logo e resolver da melhor forma possível. A gente prioriza a dublagem clássica e dá oportunidade para os mais jovens na profissão, mas cada um no seu lugar.”
Houve um heroico esforço para manter as vozes que se consagraram ao longo de cinco temporadas com a dublagem da VTI: Márcio Simões (Picard), José Augusto Sendim (Riker); José Santa Cruz (Worf), Christiane Louise (Deanna) e Jorge Lucas (Data) voltaram aos seus papéis. Foram substituídos Juraciara Diacovo (por Rita Lopes, como Beverly); Jorge Junior (por Marcos Souza, como La Forge); e Nizo Neto (por Yan Gesteira, como Wesley).
Dentre os personagens recorrentes, Célia Guimarães foi substituída por Mariangela Cantú (Lwaxana); em mais uma troca no personagem, Mário Tupinambá assumiu a voz de Q; Leonel Abrantes deu lugar a Duda Espinoza (O’Brien); e Rita Lopes foi trocada por Rebeca Joia (Ro Laren).

Foto promocional do elenco de A Nova Geração na sétima temporada. (Crédito: CBS)
Uma curiosidade em relação a Rita Lopes é que ela já havia dublado, além da Ro Laren (na quinta temporada de A Nova Geração), a Seska, em Voyager, da primeira à terceira temporadas.
Sob a batuta de Nando Lopes e Rita Lopes, as vozes foram mantidas tanto quanto possível, mas nada se poderia fazer com o impacto de 15 anos no envelhecimento dos dubladores entre um trabalho e outro. Para alguns deles, a diferença é imperceptível; para outros, o teste do tempo foi mais severo.
O texto é mais coloquial e melhor adaptado que o da VTI, ainda mais próximo do original em inglês.
Outra melhoria sensível é que o elenco de vozes do Grupo Macias é muito maior que o da VTI. Na VTI, cada dublador entrava nove vezes na temporada com personagens diferentes, enquanto que no, Grupo Macias, apenas duas vezes, impedindo uma repetição excessiva de vozes.
Uma curiosidade adicional é a presença na dublagem de vozes que dublavam personagens principais na VTI, agora dublando astros convidados: Ronaldo Júlio, Mauro Horta, Júlio Chaves, Guilene Conde e Mario Jorge.
FÉ NO CORAÇÃO E PÉ NA TÁBUA
Enterprise ocupa um lugar singular na história da franquia no país, especialmente no que diz respeito à sua versão dublada. Foi a única a chegar ao Brasil primeiro com legendas. E talvez tivesse ficado desse jeito, não fosse o acordo entre CBS e Netflix em 2016, e o esmero da empresa do tudum com a apresentação de seus conteúdos.

O elenco de Enterprise. (Crédito: CBS)
Quando a dublagem finalmente chegou, via streaming, foi recebida com grande entusiasmo pela comunidade trekker brasileira. O elenco principal contou com as vozes de Dário de Castro (Archer), Philippe Maia (Tucker), Aline Ghezzi (Hoshi Sato) e Duda Espinoza (Malcolm Reed), dentre outros.

Philippe Maia. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

Aline Ghezzi. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

Duda Espinoza. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)
A escolha de Dário foi especialmente acertada. Ele já havia dublado Scott Bakula antes e combinou perfeitamente com a atitude do capitão Archer.
Em maio de 2020, os principais dubladores da série participaram de um episódio especial do Trek Brasilis ao Vivo, onde revelaram detalhes sobre os bastidores da produção. Dário de Castro recordou que toda a série foi dublada em um espaço de tempo muito curto, cerca de quatro meses, para uma quantidade enorme de episódios.
Rita Lopes, codiretora de dublagem da série, explicou o processo de escalação de vozes: “Foi muito tranquilo na questão de escalação. Eu tenho um sistema que é o seguinte: eu assisto ao programa que eu vou dirigir. Um bom diretor, ele tem que ter uma estrada, ele precisa conhecer o elenco que tem à disposição. Não é só match de voz, é interpretação, até onde o dublador pode chegar. Ai eu imagino o dublador falando no lugar daquela pessoa. Aí fui para casa assistir e pensei em algumas pessoas e o Nando pensou em outras, o Nando que decidia – tirando o Dário (de Castro) que era “boneco” (voz do ator em português). Ai foi maravilhoso. Quando são experientes e talentosos, o trabalho fica mais fácil.”
Para Dario, foi um passeio – mas também uma correria. Ele comentou que dublar o Capitão Archer foi um trabalho relativamente fácil, dada a natureza do personagem: um líder determinado, com falas de caráter previsível e liderança clara, ainda que destacasse a grandeza e o apelo da série entre os fãs. “O lance desta série Enterprise foi que nós fizemos num curto espaço de tempo. Em quatro meses dublamos sei lá quantos episódios. Quando veio a série alguém lembrou que eu já tinha feito ele (Scott Bakula) e o Nando me chamou e a Rita também. Foi mais fácil dublar ele ali que em outros gêneros que ele já fez. Era um capitão com uma fala previsível, dominadora em vários aspectos porque ele tinha a liderança, mas não me trouxe nada de surpreendente a não ser a grandeza da série”, recordou-se.

Dário de Castro. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)
STAR TREK: ENTERPRISE (JORNADA NAS ESTRELAS: ENTERPRISE)
Versão brasileira: Grupo Macias/Rio Art
Direção: Rita Lopes/Fernando Lopes
Apresentação: Oziel Monteiro
Archer: Dário de Castro
Tucker: Philippe Maia
T’Pol: Adriana Torres
Reed: Duda Espinoza
Phlox: Eduardo Borgheti
Hoshi: Aline Ghezzi
Travis: Rodrigo Antas
Forrest: Hélio Ribeiro
Soval: José Augusto Sendim
Silik: Renato Rosenberg
Daniels: Yuri Calandrino
Holograma: Vinicius Barros
Vozes adicionais: José Santana, Carlos Gesteira, Antonio Padua Moreira, Waldyr Sant’anna, Marco Moreira, Ricardo Schnetzer, Alexandre Moreno, Daniel Avila, Daniel Müller, Paulo Bernardo e José Santa Cruz
O LEGADO DE DÁRIO
A dublagem de Enterprise ganhou um contorno de homenagem especial quando Dário de Castro faleceu em 2021, vítima da COVID-19, aos 72 anos. Philippe Maia resumiu com uma frase curta e de grande impacto emocional o sentimento de todos que admiravam o colega: “Ele era meu herói.” O legado de Dário permanece vivo em cada episódio da série, sendo sua voz como o capitão Archer um dos trabalhos mais lembrados e queridos de sua carreira.
O trabalho representa um capítulo importante – e um tanto atípico – da história da franquia no Brasil. Chegou tarde, mas com muita qualidade e carinho. Dublada toda de uma vez, manteve uma consistência de vozes notável. E, para os fãs brasileiros que cresceram acompanhando as aventuras da Frota Estelar em português, foi a oportunidade de finalmente completar a saga e conhecer, na própria língua, a história de como tudo começou.

O catálogo de Star Trek, disponível no mundo inteiro por dez anos pela Netflix. (Crédito: Netflix)
E, claro, todo esse vasto material foi só um aperitivo na Netflix brasileira. Afinal, a CBS estava finalmente produzindo uma nova série de Star Trek, após 12 anos de hiato, e pela primeira vez o programa chegaria por aqui de forma praticamente simultânea aos Estados Unidos e ao resto do mundo. Uma nova era se avizinhava.
Continua…
Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual.
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