ESPECIAL 60 ANOS | Uma nova Star Trek para os velhos e uma velha Star Trek para os novos

O cancelamento de Enterprise, em 2005, teve relação com o desgaste da franquia, após 18 anos ininterruptos com novos episódios, mas também passou por enormes turbulências corporativas. Naquele mesmo ano, a empresa Viacom, conglomerado dono da Paramount, decidiu que dividiria em dois seu império midiático, apartando uma companhia que ficaria conhecida como CBS Corporation, com suas propriedades televisivas (que àquela altura incluíam as redes de TV aberta CBS e UPN), e deixando do outro lado seu estúdio de cinema, Paramount Pictures, ainda sob a Viacom.

O divórcio, concretizado em 2006, naturalmente impactaria Star Trek, que tinha um pé em cada lado da fronteira. As propriedades televisivas ficaram com a CBS, detentora dos direitos originais da franquia, e a Paramount Pictures teria uma licença para produzir obras cinematográficas baseadas na saga.

A quebra do conglomerado entre Viacom e CBS, em 2006, deixou os lados cinematográfico e televisivo de Star Trek em empresas diferentes. (Crédito: Media Play News)

Essas chacoalhadas corporativas normalmente buscam gerar eficiências e cortar gastos, e isso se fez notar com o fim do experimento UPN. O canal aberto da Paramount, que havia sido lançado com Voyager, deixaria de existir até o final de 2006, pouco mais de um ano após o cancelamento de Enterprise. Concluindo que não havia espaço para seis redes no mercado americano, as duas nanicas concorrentes, UPN e WB, se fundiriam em uma só, a CW, ao final daquele ano.

As redes americanas WB e UPN se fundiriam, formando, em 2006, a CW. (Crédito: Variety)

No que diz respeito a Star Trek, duas coisas estavam claras: a queda de audiência paulatina desde o auge com A Nova Geração chegou a um patamar em que uma mudança de rumos era necessária. Havia então em voga a noção de “fadiga da franquia”, um questionamento sobre quantos ovos de ouro você pode tirar da galinha antes que ela comece a ter problemas de saúde. Por outro lado, seria loucura simplesmente abandonar uma propriedade de 40 anos que havia sido um motor ininterrupto dos estúdios de cinema e TV da Paramount pelas duas décadas anteriores. Decidiu-se que era preciso de algum modo revitalizar o interesse e buscar uma nova geração – não de personagens, mas de fãs.

NINGUÉM ESTÁ FICANDO MAIS NOVO
Desde a década de 1960, a disputa pela atenção do público só cresceu, tanto nos Estados Unidos, berço de Star Trek, como no Brasil. Quando a série estreou nos dois países, a opção dos telespectadores era entre uns poucos canais de TV aberta, contados nos dedos. Nos anos 2000, além das grandes redes, havia centenas de canais por assinatura, o pujante mercado do home video que explodiu com os DVDs e o advento da internet, oferecendo tantas alternativas de entretenimento que as grandes audiências de outrora praticamente sumiram do cardápio, salvo em eventos colossais, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Essa erosão foi vista no fandom trekker americano, mas mais ainda no brasileiro. As produções dos anos 1980 e 1990 nunca atingiram por aqui o nível de popularidade e reconhecimento do seriado original. Nos anos 2000, a primeira geração de fãs, formada pela Excelsior, pela Tupi e pela Bandeirantes, já estava adentrando a meia-idade, e a segunda leva, formada pela Manchete e pela Record, já era composta por jovens adultos. E a terceira leva? Com a segmentação da TV, as exibições nos canais fechados principalmente pregaram para os convertidos, ansiosos por ver as temporadas ainda não exibidas no Brasil. E mais: com o avanço acelerado da informática, o acesso aos conteúdos via downloads ilegais se tornou disseminado, sabotando ainda mais as possibilidades mercadológicas da exibição tradicional. Quem dentre os fãs do início dos anos 2000 jamais viu um episódio baixado que atire a primeira pedra — e o ativismo nessa época se concentrou mais no esforço de criar legendas digitais para os filmes, dando acessibilidade plena aos entusiastas. Muitos colaboraram nessa empreitada, e um dos núcleos que mais se destacaram foi o do grupo Legendas Jornada nas Estrelas, coordenado pelo fã Marcelo Daniel, do Rio de Janeiro.

Havia, contudo, uma profecia jamais cumprida na história do entretenimento: a de que algum avanço tecnológico doméstico eventualmente acabaria com os cinemas. Imaginaram que fosse acontecer com o advento da televisão, depois com a expansão dos canais e a oferta ampla de filmes, depois com o home video, a pirataria digital… mas o cinema sempre resistiu. Se havia uma potencial porta de entrada para cultivar novos fãs, algo que de fato nunca havia saído de moda, eram as salas de exibição. Mas para isso seria necessário ter uma nova versão de Star Trek, capaz de interessar a molecada sem cobrar dela o conhecimento dos quarenta anos anteriores. Foi aí que a Paramount Pictures decidiu voltar ao começo de tudo – mas sem necessariamente manter amarras com o passado.

O PRÓXIMO STEVEN SPIELBERG
Jovem, criador de séries de grande sucesso como Felicity, Alias e Lost, disputado pelos estúdios e recém-trazido de volta ao cinema para dirigir e corroteirizar Missão Impossível III (revitalizando uma das duas grandes propriedades que a Paramount herdou da Desilu), que faturou US$ 398,5 milhões nas bilheterias globais em 2006, J.J. Abrams parecia ser a pessoa ideal para renovar Star Trek (a outra grande propriedade que a Paramount herdou da Desilu).

J.J. Abrams em 2007. (Crédito: Britannica)

Jeffrey Jacob Abrams era tido como menino-prodígio e começou na indústria aos 16 anos ao vender uma premissa que seria a base para o filme Milionário por um Instante (1990). Em 1991, escreveu e coproduziu Segunda Chance, com Harrison Ford, e em 1992, escreveu e produziu a ficção científica Eternamente Jovem, com Mel Gibson.

Após encerrar seu contrato com a Disney, ele foi disputado a tapa pelos estúdios, e quem saiu por cima em 2006 foi a Paramount, já tendo-o em vista para trabalhar em um novo filme de Star Trek. “Achamos que J.J. é o próximo Steven Spielberg”, disse o chefe do estúdio Brad Grey, quando do fechamento do contrato. “Ele é uma dose tripla: grande escritor, produtor e, agora, um diretor de cinema de primeira classe.”

Foi com esse prestígio que ele chegou para pilotar o retorno da franquia aos cinemas, por meio de sua produtora Bad Robot, como produtor e diretor. A ideia que ele teve, em parceria com os roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman, foi levar a saga de volta ao começo, mostrando como Kirk e Spock se conheceram, ainda na Academia da Frota Estelar. Era uma história jamais contada, mas o estúdio naturalmente ficou apreensivo com (mais) uma prequela e a reescalação do elenco clássico em versões mais jovens. Os cineastas, por seu lado, não queriam ficar presos à continuidade estabelecida pelas séries anteriores (tida justamente como um fardo que nem eles, nem o público poderiam carregar antes de chegar à sala de exibição para ver o filme) e decidiram fazer um “reboot leve” – era uma nova linha do tempo, mas emergida de algo ocorrido na continuidade tradicional. Para fazer essa ponte, Leonard Nimoy voltaria para viver o Spock original.

Com uma escolha acertada de elenco (Chris Pine como Kirk, Zachary Quinto como Spock, Karl Urban como McCoy, Zöe Saldana como Uhura, Simon Pegg como Scott, John Cho como Sulu e Anton Yelchin como Chekov) e um roteiro muito interessante, o filme teria pleno sucesso, criando um universo novo para os personagens, hoje denominado universo Kelvin. O plano original da Paramount Pictures era ter o filme lançado em dezembro de 2008, mas, acreditando no potencial da produção, decidiu reagendá-lo para maio de 2009 – em pleno verão americano, quando estreiam os principais blockbusters da temporada.

JJ e o novo elenco nos sets de Star Trek (2009). (Crédito: Paramount)

Eram outros tempos, e o filme seria lançado no Brasil na mesma data que nos Estados Unidos, 8 de maio, com 275 cópias distribuídas por todos os cantos do país. Àquela altura, já era comum que os longa-metragens fossem aos cinemas não só em versões legendadas, mas também com dublagens. A do filme, com distribuição da própria Paramount Pictures, foi feita pelo estúdio Delart, no Rio de Janeiro, com tradução de André Bighinzoli e direção de dublagem de Guilherme Briggs, trekker famoso e oriundo do Jetcom. O elenco de vozes contou com Marcelo Garcia (Kirk), Briggs (Spock), Marco Ribeiro (McCoy), Cláudio Galvan (Scotty), Priscila Amorim (Uhura), Paulo Vignollo (Sulu), Gustavo Pereira (Chekov), Helio Ribeiro (Pike), Jomeri Pozolli (Spock original) e Hercules Franco (Nero), entre outros.

Marcelo Garcia, a voz do novo Kirk. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

Cláudio Galvan, voz do novo Scotty. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

O estúdio fez uma potente campanha de mídia, que rendeu, entre outras coberturas, uma página inteira do Jornal do Brasil em 8 de maio com entrevistas com Abrams, Pine, Quinto e Saldana, assinada por Carlos Heli de Almeida, no Caderno B.  Na revista Programa do JB, foi publicada uma crítica assinada por Andre Gondirro: “Abrams sabe que os fãs xiitas rangerão os dentes, mas hão de concordar que as mudanças estão no espírito da série. E o público comum terá uma aventura sem o fardo cerebral e enfadonho que sempre o afastou da saga.” 

Foi sucesso no mundo inteiro – claro, mais em seu país de origem. Mas os efeitos em solo brasileiro não podem ser subestimados. Dos US$ 385,7 milhões que o filme rendeu de bilheteria global (o maior sucesso da cinessérie até aquele ponto, para o delírio da Paramount), quase US$ 2 milhões vieram daqui. E muitas empresas decidiram apostar no sucesso.

A Playmates, que nos anos 1990 fabricou toneladas de action figures de Star Trek, decidiu voltar à franquia para o novo filme, e seus bonequinhos chegaram a ser vendidos em lojas brasileiras na época. A rede de lanchonetes Burger King também fez uma parceria com copos e brindes focados na produção, numa promoção que também emplacou em solo brasileiro. E até mesmo iniciativas 100% brasileiras decolaram, como o lançamento do Almanaque Jornada nas Estrelas, pela editora Aleph, de autoria de Salvador Nogueira e Susana Alexandria. Originalmente escrito pela dupla para celebrar os 40 anos de Star Trek, em 2006, acabou engavetado por falta de interesse, até o filme de Abrams instigar a editora a publicá-lo. Foi, de fato, um frenesi trekker aquele maio de 2009. Mas passou rápido.

Salvador Nogueira e Susana Alexandria no lançamento do Almanaque Jornada nas Estrelas, em 2009. (Crédito: Fernando Penteriche)

NA TV, O VELHO EM ROUPA NOVA
Enquanto esperava a Paramount Pictures cultivar uma nova geração de fãs, a CBS Corporation, que no divórcio ficara com o lado televisivo de Star Trek, topou um acordo de cavalheiros em que não entraria de cara com uma nova série da franquia. Mas isso não significava simplesmente abandonar a saga. E, com a potencialização do interesse pelos personagens originais com o reboot de Abrams, a decisão foi a de dar um banho de loja na Série Clássica, àquela altura com um visual anacrônico para uma audiência moderna, remasterizando os episódios e criando novos efeitos visuais com tecnologia digital.

O anúncio foi feito em 31 de agosto de 2006, em celebração aos 40 anos da série, e promoveria a volta da atração ao mercado de syndication americano após um hiato de 16 anos. Os episódios seriam exibidos fora de ordem, um por semana, começando em 16 de setembro daquele ano. O projeto, mantido em segredo até aquele ponto, envolvia escanear os antigos rolos de 35 mm e gerar uma nova master digital em alta definição, preservando a série para um futuro em que o HD digital despontava como novo padrão televisivo. Seria a segunda produção de TV de Star Trek a ganhar versões em alta definição, já que Enterprise havia sido nativamente finalizada no formato, levando em conta a implementação já em andamento das transmissões digitais em HD na televisão americana.

A Enterprise em “Shore Leave”, na versão original e na remasterização com efeitos visuais CGI. (Crédito: CBS)

O sonho de refazer os efeitos visuais da Série Clássica era antigo, e algo do tipo quase decolou em 1998, quando o Sci-Fi Channel americano concebeu a Special Edition, uma série de exibições de 90 minutos dos episódios originais incluindo entrevistas e comentários sobre cada um deles, além de apresentações de William Shatner e Leonard Nimoy. Segundo o produtor Bill Margol, que trabalhou no projeto, tudo não passou de uma sugestão. “Foi uma ideia sugerida logo no início do projeto como uma possibilidade, mas nós soubemos desde o comecinho que os custos seriam proibitivos”, disse ele, entrevistado pelo Trek Brasilis, em 2000. Com efeito, a aparente loucura de refazer efeitos visuais de uma série inteira só poderia aparecer com uma perspectiva razoável de retorno do investimento, o que viria só da combinação das vendas dos episódios em syndication com o poder do mercado de home video, então prestes a ser incrementado pela chegada dos formatos em alta definição.

Os episódios remasterizados foram exibidos entre 16 de setembro de 2006 e 9 de agosto de 2008 – nos Estados Unidos. Quanto ao Brasil, houve uma emissora que tentou surfar essa onda, em 2012, mas sem muito resultado. A RedeTV! comprou e exibiu os episódios com os novos efeitos visuais, mas nas madrugadas de sábado para domingo, à 0h30. O experimento durou apenas pela exibição da primeira temporada. Àquela altura, esses mesmos episódios já estavam disponíveis em formatos de home video, o que tornou a exibição na TV supérflua, para dizer o mínimo. 

STAR TREK NA GUERRA DOS FORMATOS
O mundo do entretenimento estava de olho, em 2006, para ver quem seria a herdeira do DVD, coroado então rei do home video, com a transição da televisão para a alta definição. Havia dois competidores: um era o HD-DVD, apoiado pela empresa japonesa Toshiba e pela Microsoft, que envolvia discos similares aos DVDs, e lidos pelo mesmo laser vermelho deles, mas com capacidade de armazendo maior, até 32 gigabytes. O argumento é de que essa tecnologia já era bem conhecida e permitiria uma transição suave entre os formatos, incluindo retrocompatibilidade (ou seja, o mesmo aparelho leria HD-DVD e DVD).

A guerra dos formatos durou pouco, entre 2007 e 2008, e o Blu-ray foi o vencedor. (Crédito: Wallpaper.com)

Contudo, como diria Elis Regina, o novo sempre vem. A Sony havia desenvolvido uma nova tecnologia de discos de alta capacidade baseada em laser azul, que em tese permitiria maior compressão dos dados, e o implementou em uma de suas principais plataformas, o console de videogame PlayStation 3, lançado no final de 2006 e rapidamente elevado a campeão de vendas. Esses discos, formato denominado Blu-ray, tinham capacidade superior ao HD-DVD, comportando até 50 gigabytes.

Uma guerra ferrenha foi travada, e a Toshiba recrutou Star Trek para lutar em suas fileiras. Uma quantia considerável (que ajudou a bancar o projeto de remasterização) foi injetada na CBS para tornar a Série Clássica um conteúdo exclusivo a ser lançado em HD-DVD. Com efeito, um boxset da primeira temporada da versão remasterizada nesse formato foi lançado em novembro de 2007, antes mesmo que alguns desses episódios fossem exibidos em syndication na televisão.

Embalagem da primeira temporada da Série Clássica em HD-DVD. (Crédito: Amazon)

Contudo, a qualidade técnica superior do Blu-ray, aliada às vendas do PlayStation 3, daria fim à guerra, e a Toshiba abandonaria o HD-DVD em fevereiro de 2008, abrindo caminho para os lançamentos de Star Trek no formato vencedor de mídia física. Pegando carona no burburinho criado pelo filme de J.J. Abrams, os boxes das três temporadas da Série Clássica foram lançados em Blu-ray (incluindo tanto os efeitos originais quanto os novos, em CGI, algo que só o formato da Sony viabilizava) nos Estados Unidos em abril, setembro e dezembro de 2009.

Como na regionalização dos Blu-rays Brasil e Estados Unidos ficavam na mesma região, os discos americanos já foram masterizados com legendas (mas não dublagem) em português, o que facilitou seu lançamento em Blu-ray no Brasil – até hoje a única série de Star Trek lançada em mídia física em alta definição no país. Eles chegaram por aqui também em 2009, assim como suas versões em DVD (essas com dublagem), que foram as que mais venderam.

Embalagens brasileiras da Série Clássica em Blu-ray, lançada pela CBS Home Entertainment. (Crédito: Blog do Jotacê)

A despeito da vitória da Sony e do Blu-ray, nunca houve uma adesão total ao formato – muitos consumidores estavam satisfeitos com a praticidade e os preços dos DVDs. E o mercado de home video baseado em mídia física iniciaria um lento declínio. A CBS partiria para a remasterização em alta definição de A Nova Geração entre 2012 e 2015, mas as vendas, mesmo no pujante mercado americano, não justificaram o investimento, deixando para trás Deep Space Nine e Voyager, que teriam de esperar outra janela de oportunidade para ganharem suas versões HD.

ALÉM DA ESCURIDÃO
O sucesso do filme de 2009 fez a Paramount Pictures sentir o gosto do sucesso, e o estúdio de imediato encomendou uma sequência. Mas J.J., com status de próximo Spielberg, queria também desenvolver projetos próprios e pediu autorização para que seu próximo filme fosse um projeto intimista e inspirado em suas próprias origens, Super 8, antes de retornar à grandiosidade do mundo trekker. O longa é lançado em 2011, e então Abrams volta novamente suas atenções para Star Trek, com uma dúvida shakespeareana: To Khan or not to Khan?

A abertura do leque com a nova linha do tempo permitiria aos cineastas brincar com quaisquer das peças do quebra-cabeças de Jornada nas Estrelas a seu próprio gosto, e eles decidiram que seria uma boa ideia fazer uma reinvenção de Khan Noonien Singh, o mais célebre vilão da franquia, eternizado no segundo filme com o elenco clássico.

Abrams, contudo, gostava de segredo total, e decidiu ludibriar o público alegando que Khan não estava no filme, e o vilão seria John Harrison, interpretado pelo ator britânico Benedict Cumberbatch. Na verdade, Harrison era Khan. O elenco básico da primeira aventura estaria todo de volta, inclusive Leonard Nimoy, para uma rápida aparição surpresa – sua última dança como Spock.

Benedict Cumberbatch causa Khanfusões em Além da Escuridão. (Crédito: Paramount)

O orçamento foi igualmente vitaminado, saltando de US$ 150 milhões no primeiro filme para US$ 190 milhões. Os gastos extras foram compensados na bilheteria global, com um faturamento de US$ 487,4 milhões (até hoje o recordista na cinessérie). Desses US$ 5,2 milhões vieram das salas de cinema brasileiras – o grande sucesso de Além da Escuridão foi ter conseguido um forte desempenho internacional, o que sempre foi inusual para filmes de Star Trek. A estreia por aqui se deu em 14 de junho de 2013, cerca de um mês depois do lançamento americano, em 15 de maio (em IMAX, com as salas regulares entrando no dia seguinte). Mas a Paramount estava totalmente ciente da frustração dos fãs de ter de esperar um mês para ver o filme e, por isso, preparou pré-estreias limitadas por aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 17 de maio, e ainda uma pré-estreia em IMAX no dia 25 de maio.

A turma da FFESP reunida em São Paulo na pré-estreia de Além da Escuridão. (Crédito: FFESP)

A dublagem foi novamente feita pela Delart, com tradução de André Bighinzoli e direção de Guilherme Briggs, mantendo as mesmas vozes do filme anterior, com os acréscimos de Ronaldo Júlio (John Harrison/Khan), Luiz Carlos Persy (almirante Marcus) e Adriana Torres (Carol Marcus), entre outros.

A renomada crítica Ana Maria Bahiana, em seu blog no portal UOL, escreveu o seguinte sobre o filme: “Tudo isso me volta à cabeça quando revejo mais uma etapa dessa jornada nas estrelas. Com seu reboot de 2009 J.J. Abrams se deu permissão de repensar toda a mitologia, usando o velho e bom artifício da ‘linha do tempo alternativa’. Agora, em sua segunda incursão, ele finalmente morde com vontade sua licença poética, revisitando, de uma tacada só, um vilão antológico da mitologia, vários elementos dos filmes dos anos 1980 e episódios de TV (inclusive o mito das camisas vermelhas) e o primeiro comandante da Enterprise, Christopher Pike (Bruce Greenwood).”

A despeito das críticas em geral positivas e do bom desempenho na bilheteria nacional, a comoção fora do cinema foi menor. Não houve por aqui bonequinhos ou brindes do Burger King. Só uma visita de médico feita por velhos amigos que não víamos há quatro anos. Eles vieram e logo foram embora. E aí J.J. Abrams decidiu ir fazer Star Wars.

Os amigos do grupo Estação Genesis, de Belém, são destaque do jornal O Liberal, em 2013. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

SEM FRONTEIRAS
Mesmo prestigiado, Abrams nunca escondeu que seu verdadeiro amor espacial nunca foi por Star Trek, e sim por Star Wars, a saga criada por George Lucas. Quando a Disney, tendo adquirido a Lucasfilm, acenou a ele com a possibilidade de dirigir o longa-metragem que abriria uma nova trilogia, ambientada décadas após os filmes originais, foi demais para ele resistir. Claro que a chefia na Paramount não ficou contente, mas J.J. prometeu que continuaria dando atenção a Star Trek e produziria mais uma continuação para o estúdio. Só que aí ele colocou o roteirista Roberto Orci, que nunca havia dirigido um filme na vida, para ser o diretor.

A mexida não agradou, assim como o roteiro que Orci gostaria de filmar, avaliado pelos executivos como excessivamente orientado aos fãs. Mas o estúdio estava determinado a ter um filme em 2016 para celebrar os 50 anos de Jornada nas Estrelas, e uma nova dupla de roteiristas, Simon Pegg (sim, o ator do Scotty) e Doug Jung, foi escalada para escrever a história, que seria filmada a toque de caixa por Justin Lin, diretor prestigiado por seu sucesso com a franquia Velozes e Furiosos, além de ter dirigido os ótimos episódios pilotos das séries Magnum P.I. e The Endgame

Sofia Boutella se destaca como Jayla em Sem Fronteiras. (Crédito: Paramount)

Apesar de ter o coração no lugar certo, o filme teve o marketing no lugar errado. O estúdio não teve qualquer convicção de que o longa poderia ser um vencedor e foi tímido em sua promoção, a despeito da celebração de 50 anos da franquia (comemorado com aquele sabor de aniversário de filho com pais separados, já que o lado televisivo e o cinematográfico mal se falavam, divididos entre duas companhias diferentes). Com um orçamento de US$ 185 milhões (praticamente o mesmo de Além da Escuridão), ele faturou globalmente US$ 343,5 milhões, dos quais US$ 4,5 milhões no Brasil. A praxe em Hollywood é que um filme precisa faturar pelo menos duas vezes seu custo para se pagar, e Star Trek Sem Fronteiras ficou aquém desse limiar.

O filme foi lançado em 22 de julho de 2006 nos Estados Unidos, e em 1º de setembro no Brasil, quando a crítica de cinema Isabela Boscov, em seu blog, escreveu o seguinte: “Com roteiro co-escrito pelo inglês Simon Pegg, o sempre impagável oficial mecânico Scotty, Sem Fronteiras flui bem e é saboroso. Os diálogos são uma delícia, e a habilidade de Justin Lin para equilibrar as participações do elenco é incontestável. Pegg e Karl Urban (o dr. McCoy) continuam sendo meus favoritos, mas Sofia Boutella, a marroquina que fazia Gazelle, a assassina com próteses de lâminas em Kingsman: Serviço Secreto, é um achado como Jaylah, a garota extraviada no planeta distante em que a Enterprise vai realizar uma malfadada missão de resgate. Como sempre, aliás, a certa altura a Enterprise fica aos pedaços, e a cena da sua destruição é uma beleza.”

Os elogios não a eximem de concluir que o filme acabou sendo menor que os anteriores. “Krall é um desses vilões ‘da semana’, e o tema que ele coloca em pauta é tão contra-intuitivo que demora-se a entender sua queixa (Krall é uma espécie de terrorista do Isis sideral; ele reclama que a Federação, com seus ideais de paz impostos por meio de patrulha, é uma entidade colonialista que pretende extinguir seu modo de vida violento).”

Idris Elba, tomando um Krall em Sem Fronteiras. (Crédito: Paramount)

A dublagem mais uma vez foi feita pela Delart para o cinema, com tradução de André Bighinzoli e direção de Guilherme Briggs, mantendo as mesmas vozes dos filmes anteriores, com as vozes adicionais de Marco Antonio Costa (Krall), Iara Riça (Jaylah), Lina Rossana (Paris) e Angelica Borges (Kalara), entre outros.

O resultado frustrante de Sem Fronteiras acabou freando o ímpeto da Paramount Pictures em lançar novos filmes de Star Trek. Ela chegou a ensaiar várias tentativas pela década seguinte, com e sem o envolvimento de J.J. Abrams, mas nada ganhou sinal verde. E quanto aos fãs?

Um filme a cada três ou quatro anos não é o suficiente para manter uma comunidade engajada. Nos Estados Unidos, onde há massa crítica, as convenções continuaram a todo vapor e cresceram para se tornar um colossal evento anual em Las Vegas, e interessantes movimentos surgiram ao redor de fanfilms, projetos que chegaram a recriar cenários dos antigos seriados de forma fiel e reencenar novas aventuras, como as produções amadoras Star Trek: New Voyages (depois rebatizada Phase II) e Star Trek Continues.

No Brasil, tivemos bem menos. O fim do fã-clube Frota Estelar eliminou do calendário grandes encontros de fãs, e os grupos que remanesceram se limitaram a eventos de menor porte, reunindo quando muito 50 pessoas. Em São Paulo, a FFESP, de Wilton Mendonça, se manteve ativa durante esse período e deu origem a um grupo dissidente em 2014, o fã-clube Star Trekkers, sob a liderança de César Augusto Cezaroni e Fernando Augusto Dias Afonso. No interior do estado, a Base Estelar Campinas também se manteve ativa. Os amigos da Estação Genesis, no Pará, seguiram se encontrando.

No papel de veículo de imprensa dedicado a Star Trek, o Trek Brasilis permaneceu ativo durante todo o período, divulgando cada novidade sobre a franquia. E, claro, a cada lançamento de filme, a própria Paramount procurava organizar pré-estreias para fãs, como aconteceu mais uma vez com Star Trek Sem Fronteiras, que foi exibido numa sala IMAX do Shopping Bourbon, em São Paulo, em 30 de julho de 2016. Mas eram blipes num calendário largamente esvaziado.

César Augusto Cezaroni (ao centro e ao fundo, em azul) e colegas do Star Trekkers na pré-estreia de Sem Fronteiras, em 2016. (Crédito: Fernando Penteriche)

Luiz Felipe do Vale Tavares, Leandro Magalhães, Fernando Penteriche e Ralph Pinheiro, do Trek Brasilis, na pré-estreia de Sem Fronteiras, em 2016. (Crédito: Fernando Penteriche)

Após cinco décadas, o clima era de ressaca. Mas eis que uma nova revolução tecnológica, sucessora direta do home video e filha da internet, viria a chacoalhar as estruturas da franquia, reenergizando o fandom e a produção da franquia. A palavra-chave: Netflix.

Continua…

Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual. Colaborou Salvador Nogueira.

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