Episódios de hoje…
“This Side of Paradise” (“Este Lado do Paraíso”; TOS 1×24, 1967)
Onde assistir: DVD/Blu-ray
“Symbiosis” (“Simbiose”; TNG 1×22, 1988)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Game” (“O Jogo”; TNG 5×6, 1991)
Onde assistir: PlutoTV*
“Damage” (“Relatório de Danos”; ENT 3×19, 2004)
Onde assistir: Paramount+
“The Forgotten” (“Os Esquecidos”; ENT 3×20, 2004)
Onde assistir: Paramount+
“Stardust City Rag” (“O Ragtime de Stardust City”; PIC 1×5, 2020)
Onde assistir: Paramount+/Prime Video
“The Last Generation” (“A Última Geração”; PIC 3×20, 2023)
Onde assistir: Paramount+/Prime Video
* Somente dublado
A propensão do ser humano ao vício não é à toa. Nosso cérebro está sempre atrás de uma recompensa rápida, uma dose de dopamina que leva ao céu e, depois, pode levar ao inferno também. Até no futuro idealizado de Star Trek por vezes foi necessário lidar com a dependência, e a abordagem do tema foi se sofisticando ao longo do tempo.
Em “This Side of Paradise” (“Este Lado do Paraíso”; TOS 1×24, 1967), o contexto dos anos 1960 transborda, especialmente assistindo seis décadas depois. Os tripulantes da Enterprise vão parar em uma colônia que, para todos os efeitos, deveria estar deserta. Acreditava-se que todos estariam mortos por efeito de radiação. Mas esse planeta tinha um tipo de planta que soltava esporos alucinógenos (um jato bem na sua cara mesmo) e também era responsável por manter os colonos a salvo da contaminação. Sob o efeito desse entorpecente, até o sisudo Spock fica mais do que sorridente, sobe em árvore e brinca de ver formas nas nuvens. A “viagem” parece ótima, mas as pessoas que inalam o esporo também passam a se esquecer da vida, dos próprios objetivos e de suas obrigações, até de sua missão na Frota Estelar.

Spock “viajando” pendurado num galho em “This Side of Paradise”.
O episódio demonstra bem essa a dualidade em relação à experimentação com alucinógenos, prática que estava em alta entre os jovens nos anos 60. Spock chega a concluir que seu tempo sob efeito do esporo foi o único em que se sentiu realmente feliz. Mas o líder da colônia, uma vez tornado “careta” de novo, expressa vergonha e arrependimento pelos três anos que passou ali no planeta sem fazer praticamente nada de produtivo, talvez refletindo a preocupação dos adultos com essa fase “paz e amor” pela qual a juventude estava passando. O que os aguardaria do outro lado?
O caso se resolve com uma demonstração clara do que a Enterprise significa para o capitão Kirk. Quando, sob o efeito do alucinógeno, ele pensa em deixar a nave para viver no planeta paradisíaco, Kirk sente uma emoção tão forte que é liberado do efeito entorpecente na hora. Dá aquela ideia de que com força de vontade é possível se livrar do controle de uma droga num piscar de olhos.
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Quando chegamos aos anos 1980, o enfoque muda bastante. Em “Symbiosis” (“Simbiose”; TNG 1×22, 1988), mais do que o efeito alienante da droga, as dores da síndrome de abstinência são colocadas no centro do problema.
O capitão Picard recebe um pedido de socorro de uma nave de carga. A tripulação da Enterprise tenta ajudar, mas acha estranha a falta de concentração do pessoal do cargueiro, que parece não saber direito como seguir comandos simples. A solução então é transportá-los para a Enterprise antes que a nave se desfaça na atmosfera, mas, para a surpresa de todos, eles enviam a carga primeiro e depois os tripulantes. O que teria essa mercadoria de tão especial que eles prefeririam morrer a perdê-la?

T’Jon e Romas, dependentes da droga “felicium”, em “Symbiosis”.
Dos quatro sobreviventes, dois são do planeta Ornara e dois de Brekka. Os dois mundos vivem em uma espécie de interdependência, daí o nome do episódio. Em Ornara, a população sofreria com uma praga. Em Brekka, existiria o tratamento, chamado “felicium”. A tripulação da Enterprise acaba no meio de uma disputa porque o pagamento pelo carregamento de remédio foi perdido com a explosão da nave. Os compradores de Ornara consideram que já pagaram, mas os vendedores não querem que eles fiquem com a mercadoria, afinal não receberam. Aliás, um dos tripulantes vindos de Ornara é interpretado por Merritt Butrick, o mesmo ator que foi David Marcus, filho do capitão Kirk, nos filmes A Ira de Khan (1982) e À Procura de Spock (1984). Aqui ele se chama T’Jon e tem um aspecto cansado, olheiras e está sempre nervoso. Também temos a participação de Judson Scott, que foi o Joachim de A Ira de Khan, agora como Sobi, de Brekka. A tensão entre os dois é tão alta que eles brigam soltando raios pelas mãos.
A dra. Crusher começa a suspeitar dessa dinâmica entre os planetas e do comportamento dos “doentes” de Ornara. Ao tomar o remédio, os pacientes com a suposta praga se sentem melhor instantaneamente. Já os vendedores do “felicium” não têm nenhuma outra indústria além do refino da droga. Todos os recursos do planeta dependem dos pagamentos vindos de Ornara. A médica constata que, na verdade, a doença é simplesmente uma síndrome de abstinência muito forte.
Esse episódio traz o inesquecível discurso antidrogas da tenente Tasha Yar: “As drogas fazem você se sentir bem”, diz ela ao jovem Wesley Crusher. Quem não sofre de vergonha alheia nessa parte é porque já adotou a supressão de emoções dos vulcanos com sucesso. Claro que depois ela continua com os costumeiros avisos sobre os perigos do vício, bem ao estilo “diga não às drogas” adotado pelo governo de Ronald Reagan nos Estados Unidos nessa época (alguém viu Punky, a Levada da Breca por aqui?).
Os adictos poderiam ter ganho uma verdadeira intervenção feita pela dra. Crusher, que os ajudaria tratando os sintomas para que suportassem a falta da droga até se desintoxicarem. Mas a primeira diretriz impede o capitão Picard de interferir. Contando com a incompetência que eles demonstraram no início, Picard acredita que os habitantes de Ornara não terão condições de manter o recebimento da droga vinda de Brekka com suas naves quebradas e vão acabar saindo do vício, sem antes deixar de sofrer horrores com a abstinência.
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Se os inescrupulosos habitantes de Brekka usavam uma substância, um outro grupo de alienígenas foi mais criativo ao criar algo viciante. Em “The Game” (“O Jogo”; TNG 5×6, 1991), um joguinho eletrônico é o causador da dependência. O comandante Riker é o primeiro a cair vítima da invenção, dada a ele por uma ruiva bonitona enquanto tira férias no planeta-paraíso Risa. O aparelho se encaixa na cabeça do usuário como um tipo de óculos de realidade virtual. O jogo é fácil: é preciso fazer um disco cair num funil com o poder da mente. É só relaxar. Ao fazer o ponto, o jogador tem uma sensação prazerosa instantânea, que o faz jogar mais e mais.

O comandante Riker usa o jogo viciante em “The Game”.
Riker leva o aparelho à Enterprise quando volta de férias e, rapidamente, a nave toda parece povoada por zumbis olhando para o nada enquanto usam o jogo, já reproduzido às dúzias, e gemem com satisfação pelos corredores. Resta ao jovem Wesley Crusher e à sua namorada, alferes Robin, (interpretada por uma jovem Ashley Judd) a tarefa de desvendar o funcionamento do jogo. Além de proporcionar prazer, o jogo revela ter um poder a mais sobre os usuários, que insistem com muita veemência para quem ainda não está usando a invenção entrar na dança também, indicando que haveria um plano armado por trás de tudo isso. Wesley e Data conseguem resistir à armação e o androide monta um dispositivo que anula os efeitos do jogo e liberta a todos instantaneamente, frustrando os planos das ruivas espaciais, que queriam capturar a nave.
A discussão sobre vício aqui é bem mais rasa, enfocando mais a pressão dos pares à qual Wesley e Robin são submetidos – e resistem. Mas como hoje estamos na era da hipnose por celulares, é um pouco chocante ver os tripulantes da Enterprise entretidos como se fossem pessoas de hoje numa sala de espera do dentista assistindo ao Tik Tok.
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Quem brilhou mesmo ao abordar a dependência química foi Enterprise. A série tem uma sequência de episódios a respeito do tema e, surpreendentemente, a oficial vulcana T’Pol é quem sofre com o vício. A racionalidade característica da filosofia vulcana não combina em nada com um comportamento compulsivo, mas é preciso lembrar que esse povo é dotado de emoções fortíssimas que eles aprendem a suprimir.
É exatamente o efeito “libertador” da substância Trellium-D, que prejudica a parte do sistema nervoso vulcano responsável pelo controle das emoções, que a torna tão atraente e perigosa. Na terceira temporada de Enterprise, a nave está numa região do espaço conhecida por conter anomalias. O tal Trellium-D seria capaz de protegê-la das distorções espaciais, mas é difícil obter esse mineral. O capitão Archer finalmente acha um campo de asteroides ricos nessa substância ao detectar uma nave vulcana naquela região. Ao entrar na nave, Archer e sua equipe encontram os tripulantes transformados em zumbis fora de controle. Aos poucos, T’Pol começa a se sentir muito ansiosa, sucumbindo ao mal que atingiu seus ex-colegas. Eles descobrem que o Trellium-D é tóxico para os vulcanos. O médico da Enterprise consegue estabilizar T’Pol e regenerar seu sistema nervoso, mas os efeitos da substância ainda iriam perdurar.

A subcomandante T’Pol se injeta com Trellium-D em “Damage”.
Esse prólogo todo ocorre em “Impulse” (“Impulso”; ENT 3×5, 2003), mas os principais episódios a mostrar a relação de T’Pol com sua dependência química são “Damage” (“Relatório de Danos”; ENT 3×19, 2004) e “The Forgotten” (“Os Esquecidos”; ENT 3×20, 2004). No primeiro, fica revelado que T’Pol tem acessado o estoque de Trellium-D trazido a bordo da Enterprise. Ela coloca uma pedra contendo esse mineral em um aparelho que a liquefaz para se injetar com ela. A similaridade do procedimento utilizado com o aquecimento de pedras de crack ou até de heroína para transformar o composto em um líquido injetável deixa a cena mais impressionante. Ainda nesse episódio, ela confessa ao médico da nave, dr. Phlox, o que vem fazendo, e ele passa a tentar ajudá-la a se livrar do vício, controlando os sintomas de abstinência.
Mas no episódio seguinte, “The Forgotten”, a realidade do tratamento contra a dependência química fica mais clara para T’Pol. Ela se incomoda ao perceber que, mesmo quase sem traços da substância em seu corpo após a desintoxicação, ela é obrigada a continuar lidando com as emoções que a droga permitiu que ela sentisse. A constatação de que as consequências de um vício são perenes é muito dura, e muito real. Lidar com a recuperação de uma dependência é um trabalho para a vida toda.

O dr. Phlox analisa os resultados do tratamento de T’Pol em “The Forgotten”.
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As repercussões da dependência nos relacionamentos com amigos e familiares podem ser as mais devastadoras. Em Picard, conhecemos logo no início da primeira temporada a personagem Raffi, atormentada pelas consequências tanto do vício em uma planta chamada “snakeleaf” quanto da busca obsessiva pela verdade por trás de um ataque terrorista realizado por androides em Marte, que ela acredita ter sido resultado de uma conspiração. No episódio “Stardust City Rag” (“O Ragtime de Stardust City”; PIC 1×5, 2020), Raffi, já em recuperação, tenta retomar o contato com seu filho adulto, Gabriel, cuja esposa espera um bebê. Mas ele rejeita essa aproximação com veemência, lembrando-a de que foi uma mãe muito ausente e cortando a conversa abruptamente.

Raffi chora após conversar com seu filho em “Startdust City Rag”.
Raffi fica transtornada após o encontro. A cena é devastadora e revela o abismo que se abriu entre ela e a família. De volta à nave La Sirena, vemos no episódio seguinte, “The Impossible Box” (“A Caixa Impossível”; PIC 1×6, 2020), que ela teve uma recaída e está andando pela nave cambaleante com uma garrafa nas mãos. Com Raffi, lembramos que o caminho para a recuperação não é uma linha reta. As recaídas acontecem e as tentações estão por toda parte, especialmente quando ela não consegue lidar com as próprias frustrações.

Worf abraça Raffi após saber das boas notícias em “The Last Generation”.
Aos poucos, sua relação com Worf, construída ao longo da terceira temporada da série, vai trazendo mais equilíbrio emocional. Afinal, o Worf da maturidade é bem mais afeito à meditação do que aos programas de holodeck para praticar pancadaria, e transmite essa confiança e serenidade para Raffi. A sua redenção vem quando sua família a procura, no último episódio da série, ao descobrirem pelo noticiário que ela não era tão doida quanto parecia. O convite para enfim conhecer sua netinha em “The Last Generation” (“A Última Geração”; PIC 3×10, 2023) fecha o arco de Raffi com esperança na retomada do apoio afetivo de que ela tanto precisa antes de embarcar para novas aventuras, agora como primeira oficial da nova Enterprise-G.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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