PIC 1×08: Broken Pieces

Episódio reúne fragmentos da trama, dos próprios personagens e faz várias revelações

Sinopse

Aia, o Mundo do Luto, num sistema de oito sóis, 14 anos atrás. Onze mulheres vestidas de manto escuro e capuz, como sacerdotisas, se reúnem em torno de um objeto alienígena circular e luminoso. Entre essas mulheres, a comodoro Oh, Narissa e Ramdha. A comodoro Oh circula entre as mulheres, falando as seguintes palavras: “Nossas ancestrais vieram a este sistema procurando entender o enigma das Estrelas Óctuplas. Elas acharam um repositório de memórias preservadas contando o destino sinistro da civilização que pereceu aqui, muito tempo atrás. Ainda não sabemos o nome da raça poderosa que deixou este objeto, esta Advertência nos alertando do horror e da aniquilação que veio dos céus. Quando nossas ancestrais sobreviveram à Advertência, nós, o Zhat Vash, nascemos. Centenas de anos se passaram e nós trabalhamos nas sombras para impedir a segunda vinda dos Destruidores. É a este trabalho pavoroso que vocês devem dar continuidade agora. A experiência que terão enlouquecerá algumas de vocês. Mas as que sobreviverem sairão fortalecidas. Testemunhem a devastação que deve ser evitada. Sobrevivam à Advertência, se puderem.”

Em seguida, as mulheres tocam o objeto com as mãos e têm visões aterrorizantes, envolvendo sintéticos, destruição e morte. Quase todas se matam logo após as visões, com disparos de disruptor e pedradas na própria cabeça; uma delas arranca a pele do próprio rosto. Ramdha, tia de Narissa, enlouquece e arranca os cabelos. A única que permanece em pé é Narissa, que pergunta à comodoro Oh como podem evitar tudo isso. Oh diz que vão começar pelo planeta que os humanos chamam de Marte.

No Artefato, no tempo presente, Narissa conversa com a tia Ramdha, agora uma xB e ainda inconsciente desde que tentou matar Soji. Narissa diz que foi loucura da tia adotar a ela e Narek após a morte de seus pais, assim como foi loucura submeter-se à Advertência. Porém, quando enlouqueceu, foi com estilo, destruindo um cubo borg só com seu desespero. Narissa diz que a Coletividade Borg escolheu a nave errada do Tal Shiar para assimilar, que os borgs deveriam ter assimiliado a nave dela, pois ela daria uma borg melhor do que a tia. Informa que Narek descobriu onde fica o ninho dos sintéticos e que ela já despachou naves para lá. Ela também irá até o planeta dos sintéticos assim que desativar o cubo borg, que ela chama de “circo de horrores”. Em seguida, pelo comunicador, pergunta aos guardas se encontraram Elnor, e eles respondem que sim, ele está no gabinete de Hugh.

Os guardas romulanos chegam até Elnor e jogam uma granada de energia luminosa que o desorienta. Ele luta contra os três guardas, mas é imobilizado por eles. Sete de Nove chega e mata os romulanos com disparos de feiser. Pergunta a Elnor onde está Hugh e o que está acontecendo naquele cubo. Aliviado por vê-la, Elnor a abraça.

Na La Sirena, Picard apresenta Soji a Rios, que fica desorientado. Picard pede a Rios para marcar curso para a Estação Espacial 12 e conseguir um canal seguro para o comando da Frota Estelar. Rios finalmente sai de seu estado de desorientação e diz que vai marcar o curso para a Estação Espacial 12, mas depois disso abandonará a  missão. Soji fica confusa, pois Picard lhe disse que a levaria ao seu planeta natal. Picard diz que vai levar, mas a natureza do inimigo exige que ele peça ajuda. Ele diz que vai levá-la aos seus aposentos, mas Raffi se opõe, dizendo que Picard já trouxe uma “espiã romulana assassina” a bordo, Agnes. Raffi diz que Agnes deve ter matado Maddox.

Na enfermaria, Agnes ainda está desacordada. O médico holográfico explica a Picard que Agnes injetou em si mesma um composto de hidrogênio para desestabilizar o rastreador de veridium presente em seu organismo. Raffi diz que, assim que Agnes fez isso, a La Sirena se livrou da nave romulana que a perseguia. O médico acrescenta que os ferimentos de Maddox não eram letais. Ele relata que Agnes o desativou e depois desligou o suporte de vida de Maddox. Picard recusa-se a acreditar, mas Raffi lembra que ela o alertou sobre a presença de Agnes na nave sem uma verificação de segurança, e agora ele não pode pedir que confiem em Soji também.

Picard envia seu relatório à almirante Kirsten Clancy, comandante da Frota Estelar, dizendo que, embora ela tenha lhe dito que ele era apenas um velho desesperado, quixotesco, paranoico, provavelmente senil, ele tinha razão. Ele pede um esquadrão para defender os sintéticos do extermínio no sistema Vayt, e Clancy concorda em mandar um esquadrão, que se encontrará com ele na Estação Espacial 12. Ela ordena que ele aguarde lá até a chegada das naves.

Na ponte, Raffi encontra Enoch, o navegador holográfico com sotaque irlandês. Ele diz que Rios marcou curso para a Estação Espacial 12, acionou os hologramas e se trancou em seus aposentos. Enoch diz que Rios ficou abalado após ver “a moça”, que ele pesquisa em seus bancos de dados e identifica como Jana. Raffi o corrige, dizendo que o nome da moça é Soji. Raffi mostra desenhos digitais de oito círculos que os romulanos faziam no cubo, e Enoch diz que parece o desenho de um octonário, um sistema planetário com oito sóis. Diz que há registros de um octonário em antigos mapas romulanos, considerados apócrifos. Nos mapas romulanos atuais o sistema não aparece. Raffi acredita que o Conclave dos Oito não se referia a oito pessoas que planejaram o ataque a Marte, mas ao lugar onde se encontravam.

No Artefato, Narissa encontra os guardas mortos por Sete e Elnor e o cartão dos Patrulheiros de Fenris. Na cela da rainha, Sete aciona o cubo, e ele começa a se regenerar. Narissa ordena seu guarda a se livrar de todos os borgs ainda em estase, e ele sugere lançá-los ao espaço. Enquanto isso, ela vai cuidar dos xBs.

Picard e Soji jantam juntos e conversam sobre Data. Picard diz que Data era corajoso, curioso e gentil, com sabedoria de uma criança, sem mácula de hábitos ou preconceito. Picard diz que o amava, do seu jeito. Soji diz que Data também amava Picard.

Ainda procurando por Rios, Raffi vai até a engenharia e encontra Ian, o engenheiro holográfico, que fala com sotaque escocês. Ian diz que Rios se trancou em seus aposentos provavelmente porque a moça lhe trouxe más lembranças. Raffi pergunta qual a probabilidade de um sistema octonário ocorrer naturalmente, e ele diz que é quase zero. Um sistema com oito sóis certamente foi construído. Raffi conclui que quem construiu esse sistema o fez para chamar a atenção, como um aviso. Raffi acha que está chegando perto da verdade, o que é aterrorizante.

Raffi vai aos seus aposentos e pede vinho para o sintetizador, mas a máquina não obedece. Então o holograma Sr. Hospitalidade é ativado e diz que ela desabilitou álcool do serviço de quarto. Ele diz que Rios precisa conversar com alguém. Raffi pergunta como ele sabe disso e se todos os hologramas estão conectados a Rios. Ele responde que, quando Rios comprou a La Sirena, escolheu a opção de autoscan. Todos os hologramas são Rios, mas ele apagou algumas coisas depois.

Em seus aposentos, alcoolizado, Rios abre um baú com lembranças de seu tempo na USS ibn Majid. Ele retira de uma pequena caixa uma foto com seu antigo capitão, Alonzo Vandermeer, e um desenho dele com uma moça idêntica a Soji. Raffi o chama à porta, mas ele a manda embora.

No Artefato, Sete constata que há milhares de borgs ainda em estase. Elnor sugere que ela os desperte, mas Sete sabe que eles seriam inúteis sem a voz da Coletividade Borg. Entretanto, ela poderia ativar e conectar seus transceptores para criar um tipo de “minicoletividade” no cubo, coordenando seus movimentos para atacar as tropas romulanas. Sete reluta, pois sabe que isso seria assimilá-los de novo. Elnor ingenuamente sugere que ela os liberte depois que vencerem a luta, mas Sete diz que eles não vão querer ser libertados, e talvez ela não queira libertá-los.

No Château holográfico de Picard, Raffi se reúne com os cinco hologramas de Rios e vai juntando as informações que cada um sabe sobre o passado do capitão e por que ele ficou tão abalado quando viu Soji. Ian e Enoch reconhecem Soji como Jana. O Sr. Hospitalidade acha que tem a ver com o capitão Vandermeer, da ibn Majid. Emmet informa que Vandermeer se suicidou. Quando Raffi tenta pesquisar sobre a ibn Majid, os hologramas dizem que os arquivos são secretos. Eles parecem saber o motivo, mas não conseguem acessar a informação.

Na enfermaria, Agnes recobra a consciência e vê Picard. Ela pergunta se o rastreador foi neutralizado e Picard confirma que sim. Ele diz que estão a caminho da Estação Espacial 12 e, chegando lá, ela irá se entregar às autoridades pelo assassinato de Bruce Maddox. Ela explica por que matou seu mentor e amante. Diz que “precisava”, revelando que a comodoro Oh tinha feito um elo mental com ela, para implantar veneno em sua mente, bem como um bloqueio que a impedia de tocar no assunto. Ela diz que não acreditava em inferno até ver o que Oh lhe mostrou, e agora ela pensa em suicídio todos os dias. Diz que as visões são de coisas que aconteceram há milhares de séculos e que agora eles estavam num limiar: tinham de destruir toda a possibilidade de vida sintética, ou o inferno voltaria. Quando Picard pergunta que limiar é esse, Soji entra e diz que o limiar aé a vinda da Seb-Cheneb, a Destruidora. Ou seja, ela.

Rios está adormecido em seus aposentos quando Raffi entra e sintetiza uma xícara de café. Ela pergunta sobre o capitão Vandermeer. Rios diz que fingia que o capitão era seu pai, mas nunca imaginou que ele fosse um frio assassino. Explica que, enquanto patrulhava o Setor Vayt, a ibn Majid localizou uma pequena nave de origem desconhecida e alertou a Frota Estelar sobre o primeiro contato. Eles vieram a bordo – o embaixador, Linda Flor, e sua jovem assistente, Jana. Eles se cumprimentaram e sentaram-se para comer. Horas depois, Vandermeer matou os dois com seu feiser. Rios diz que Vandermeer tinha recebido uma “diretriz bandeira preta” da Segurança da Frota Estelar e, se Vandermeer desobedecesse, a Frota destruiria a ibn Majid e toda a sua tripulação. Rios confrontou o capitão, que então se matou com um disparo de feiser. Rios encobriu tudo, conforme as ordens recebidas por Vandermeer. Teletransportou os corpos para o espaço, deletou os diários do teletransporte e disse à Frota que Vandermeer tinha se suicidado sem motivo. Seis meses depois, Rios saiu da Frota Estelar, diagnosticado com disforia pós-traumática. Rios mostra a Raffi um desenho que Linda Flor fez de Rios e Jana, que é idêntica a Soji. Raffi conclui que elas eram sintéticas.

Ao mesmo tempo que Rios e Raffi conversam, Agnes fala com Soji, perguntando coisas simples, como se ela dorme, come, bebe e chora. Observa três pintas no rosto da androide e diz que isso é arte. Noonian Soong se considerava um artista, mas não colocou pintas em Data. Soji é uma obra de arte tecnológica, mas Soji quer saber se ela a considera uma pessoa, de igual para igual. Ela sabe que a comodoro Oh deu ordens para Agnes matá-la também, mas ela não lhe dará nenhuma oportunidade para isso. Agnes diz que, agora que conhece Soji, jamais obederia a essa ordem.

A bordo no Artefato, Narissa começa a matar todos os xBs com disparos de disruptores. Vendo os milhares de borgs ainda em estase, ela pergunta a Tarent se ele tem medo deles, e ele responde que seria um tolo se não tivesse. Mas Narisse diz que algo muito pior vai acontecer se ela fracassar em sua missão. Na cela da rainha, Sete e Elnor detectam a perda dos sinais de vida dos borgs. Sete se conecta aos sistemas do cubo borg, criando a minicoletividade. Em resposta, Narissa ordena que os drones sejam ejetados para o espaço.

Na La Sirena, a tripulação se reúne em torno da mesa. Agnes diz que parou de matar pessoas e vai se entregar na Estação Espacial 12. Diz que foi a única vez que realmente fez parte de uma equipe e pede desculpas. Rios sintetiza sorvete de menta e batata frita e oferece a Soji, dizendo que ela adora essas coisas – ele sabe disso por sua experiência com Jana. Raffi explica o que descobriu. Há 200 ou 300 mil anos, juntaram oito sóis, penduraram um planeta no meio e, nesse planeta, deixaram uma mensagem. Agnes complementa, dizendo que os romulanos chamam essa mensagem de Advertência. O aviso diz “não façam o que fizemos. Criamos formas de vida sintéticas e elas evoluíram. E deu tudo errado”. Picard acrescenta que, aparentemente, esse povo antigo acreditava haver um limiar para a evolução sintética, uma linha divisória. Rios compara ao motor de dobra: quando se cruza essa linha, alguém aparece – alguém muito mau, completa Agnes. Picard comenta que os romulanos levaram a Advertência muito a sério. Criaram um grupo, o Zhat Vash, dedicado a descobrir e exterminar toda forma de vida sintética. Assim, quando há 30 ou 40 anos, diz Raffi, o Dr. Noonian Soong começou a produzir vida sintética, igual ao ser humano – superior, em alguns aspectos –, os romulanos enviaram uma espiã, meio vulcana, meio romulana chamada Oh, para se infiltrar na Frota Estelar. Ela foi subindo de posto até se tornar chefe de segurança. E o tempo todo ela só tem um objetivo: acabar com as pesquisas da Federação e a criação de formas de vida sintéticas. Para conseguir isso, ela decide provocar uma situação tão assustadora, que a única resposta da Federação seria a proibição eterna dos sintéticos. Agnes diz que os romulanos estavam por trás do ataque a Marte. Só que o trabalho da comodoro Oh não tinha terminado. Há nove anos, a nave ibn Majid fez o primeiro contato com dois emissários de um mundo desconhecido. Rios diz que um se chamava Linda Flor, e a outra era … Jana, completa Soji. Jana e Flor, prossegue Raffi, vieram do mesmo planeta em que Maddox se escondeu após a proibição dos sintéticos, determinado a continuar seu trabalho. E o Zhat Vash, diz Picard, procura esse mundo desde então. Soji diz que descobriram o planeta por causa dela e, contrariada, se levanta e dá um soco na mesa, derrubado o sorvete e a batata frita.

Soji se retira e vai para a ponte, onde liga os motores, fechando o acesso com um campo de força e desativando a tripulação holográfica. Ela quer levar a La Sirena ao seu planeta natal. Localizou um nodo da rede borg de conduítes transdobra e a La Sirena pode chegar lá em nove horas, em velocidade máxima. Soji diz que não sabe como sabe disso. Deve ter aprendido no cubo borg quando se ocupava sendo a Dra. Soji Asha. Ela diz que passou a saber de muitas coisas quando ouviu sobre a proibição dos sintéticos, a Advertência e a morte de seus irmãos sintéticos na ibn Majid.

Rios começa a cantar uma canção de ninar em espanhol, o que desativa o campo de força. Ele vai até a ponte e diz a Soji que não gosta que os outros brinquem com seus brinquedos. Mas Picard intervém, dizendo que Soji já fez do jeito de Maddox, já fez do jeito dele, e agora deviam deixá-la agir do jeito dela, esperando que haja tempo de alertar os sintéticos. Picard senta-se e ativa uma tela holográfica, mas admite que não sabe operar o equipamento. Rios pergunta a Soji se ela queria simplesmente voar pelo conduíte, sem usar um campo de integridade estrutural, nem um campo chroniton, se queria se jogar lá, sem se importar com a distorção gravimétrica. Então diz que a La Sirena é dele, e Soji pede, por favor, que ele a leve para casa, em nome de Jana.

No Artefato, Narissa é informada de que todos os borgs foram ejetados, que em uma hora vão eliminar os xBs restantes e que a frota está preparada para viajar até o planeta dos sintéticos. Mas Narisse é emboscada por um grupo de xBs, que derrubam Tarent e conseguem contê-la. Entretanto, aparentemente ela é teletransportada, enquanto as naves romulanas entram em dobra. Falando pela minicoletividade, Sete diz que o cubo é deles de novo. Elnor, temeroso, pergunta se ela vai assimilá-lo, mas o cubo responde que Annika ainda tem trabalho a fazer, e Sete se desconecta do cubo.

Enquanto a La Sirena viaja em velocidade de dobra, Picard se lembra dos turnos noturnos quando era alferes na nave Reliant, pensando ser o único acordado naquele vazio. Só agora se dá conta de como gostava daquilo. Ele diz a Rios que conheceu Vandermeer, que foi oficial de uma colega sua da Academia, Marta Batanides. Pergunta a Rios se Vandermeer sabia que Jana e Flor eram sintéticas. Rios acredita que sim, e por isso Vandermeer achou que não se sentiria culpado por isso. Picard diz que Vandermeer era bom. Rios concorda e diz que detesta pensar que ele morreu achando ter sido traído pela Frota Estelar e que a Frota traiu a si mesma. Picard diz que a Frota traiu a si mesma quando baniu os sintéticos. O Zhat Vash preparou a armadilha, e a Frota caiu, ao optar por reagir com medo. Rios, entretanto, está apreensivo: Soji levou cinco minutos para hackear a sua nave, e agora estavam rumando para um planeta cheio de sintéticos como ela. Raffi disse que os romulanos chamaram Soji de Destruidora. E se estivessem certos? Picard concorda que eles talvez estejam certos sobre o que aconteceu no passado, mas o futuro cabe à Federação e à Frota escrever, e elas têm ferramentas poderosas para escrevê-lo: transparência, otimismo e o espírito de curiosidade, enquanto o Zhat Vash só tem secredo e medo – e segredo e medo são os destruidores. Soji chega e informa que chegaram ao conduíte borg. Rios entra com a nave no conduíte e é seguido por outra nave.

 Comentários

O episódio “Broken Pieces”, como diz o título, é a reunião de fragmentos que, juntos, trazem respostas e passam a fazer sentido. Quase todas as pontas soltas deixadas em episódios anteriores são amarradas – e os próprios personagens “juntam seus cacos” também. Na metáfora do showrunner de Picard, Michael Chabon, o episódio é como uma cola que reúne os cacos de um copo que caiu no chão e se quebrou. Sabemos agora a origem do Zhat Vash, o passado do capitão Rios, o motivo da presença de Agnes Jurati. Não é uma conclusão, mas uma preparação para o episódio duplo final.

O título é citado literalmente por Raffi, na reunião com os cinco hologramas de Rios. Cada um dos hologramas é um fragmento dele, e Raffi os reúne para tentar entender por que Rios ficou tão abalado quando viu Soji. A própria Raffi “juntou seus cacos” – não fumou nem bebeu e está sóbria para unir os fragmentos de uma história que a persegue há anos, desde o ataque a Marte, e que a fez se afastar da família. Ela descobre que o “Conclave dos Oito” se refere a um sistema de oito sóis, e que esses sóis só podem ter sido levados para lá artificialmente.

A própria tripulação da La Sirena, antes fragmentada, se reúne pela primeira vez em torno de uma mesa, com cada um dos participantes trazendo as informações que conseguiu obter. De certa forma, isso remete às inúmeras reuniões entre o capitão Picard e a tripulação da Enterprise, na série A Nova Geração. A cena pode, à primeira vista, parecer mera exposição de coisas que o espectador já sabe. Porém, cada personagem ali tinha apenas uma peça do quebra-cabeça, que só foi montado durante a reunião – os fragmentos se juntam ali para ajudar a decifrar o quadro dos mistérios apresentados ao longo dos capítulos anteriores.

A cena também tem uma função simbólica – mostrar Picard como a “cola” que juntou os fragmentos de cada um dos personagens. Picard é o responsável por unir todas essas pessoas que estavam perdidas, mas se encontraram graças a ele. Sem sua missão de salvar Soji, nenhum deles estaria ali – Raffi enfim desvendando o mistério da conspiração; Rios se livrando do peso de uma mentira que o assombrava há anos; Agnes feliz, realizando o sonho de conhecer a sintética perfeita; Soji descobrindo sua identidade e rumando para seu planeta natal. Todos, de alguma forma, unem seus próprios fragmentos graças a Picard, que também está feliz, se sentindo vivo e útil, sendo fiel aos seus princípios, trazendo experiência, sabedoria e otimismo aos tripulantes. Agnes, aliás, diz que é a primeira vez que faz parte de uma tripulação de verdade e se desculpa por ter estragado tudo. No entanto, as informações de Agnes são cruciais para montar o quebra-cabeça dos mistérios. Assim, mesmo que tenha vindo a bordo como espiã, ela colaborou para a missão. Além disso, ela tem a seu favor a atenuante de ter matado Maddox sob a influência do elo mental de Oh.

A decisão de Picard de contatar a Frota Estelar não foi surpresa para quem prestou atenção ao episódio anterior, Nepenthe: na mesa de jantar de Riker, o ex-primeiro oficial de Picard já tinha lhe sugerido entrar em contato com a Frota, e Picard havia concordado. Foi bom ver a almirante Clancy, que apareceu no segundo episódio, Maps and Legends, ter de admitir que estava errada e o velho Quixote estava certo: os moinhos de vento eram realmente gigantes, e a Frota vai enviar um esquadrão para enfrentá-los.

Um desses gigantes é o Zhat Vash, grupo secreto da Tal Shiar criado há séculos e que é explicado no flashback, na abertura do episódio. O grupo se reúne num planeta secreto, fora dos mapas estelares, que tem oito sóis. Nesse planeta, uma civilização antiquíssima, mas desconhecida, de 200, 300 mil anos antes, deixou um aviso, uma Advertência, sobre o inferno que se abaterá sobre a civilização que permitir a criação de inteligência artificial. Eles acreditavam que existe um limiar na vida sintetica, que, quando ultrapassado, traz consequências terríveis. Esse limiar é a vinda Destruidora, que o Zhat Vash acredita ser Soji. A comodoro Oh (que o episódio revela ser meio romulana, meio vulcana), Narissa e Ramdha fazem parte do Zhat Vash. Ramdha enlouqueceu após ter as visões da Advertência, e sua loucura destruiu o cubo borg que assimilou a nave em que ela estava. Este foi mais um mistério revelado no episódio: como os romulanos capturaram o Artefato.

Nas visões da Advertência, vemos imagens de Data e de uma cibernética que parece ser Airiam, de Discovery. Muitos fãs se perguntaram como uma civilização tão antiga teria conhecimento de sintéticos do futuro. Chabon, respondendo a perguntas de fãs nas redes sociais, disse que as imagens são representações dos medos de quem se submete à Advertência, não cenas do passado. A Advertência seria, de certo modo, um gatilho que desencadeia os temores já existentes nos que entram em contato com ela.

No episódio, ficamos sabendo que Ramdha é tia dos irmãos Narek e Narissa, que os criou após a morte dos pais deles. De acordo com Michael Chabon, ele incluiu, em todos os roteiros, cenas sobre os dois irmãos, sua infância, seus pais, seu relacionamento com Ramdha, segredos da supernova etc. Mas o material era sempre o primeiro a ser cortado, para que o epsiódio ficasse do tamanho que a produção julgava adequado. Era um material muito bom, segundo ele, mas não havia espaço. Teria sido interessante conhecer um pouco mais desses personagens nesta temporada, especialmente Narissa, que acabou aparecendo em tela como uma vilã bastante rasa e unidimensional. Entretanto, quando Narissa é atacada pelos xBs, percebe-se que ela foi teletransportada. Assim, talvez ainda vejamos essa personagem de volta, dando mais tempo para o seu desenvolvimento – assim como Narek, que, aparentemente, é quem segue a La Sirena quando ela entra no conduíte transdobra.

O episódio revela que o Zhat Vash está por trás dos ataques a Marte. Foi ideia da comodoro Oh levar os sintéticos a atacar Marte, pois ela sabia que a resposta da Federação seria banir todos os sintéticos para sempre – o que Picard sempre achou um erro, pois a Federação caiu na armadilha do Zhat Vash, e o medo venceu. E é contra esse medo o discurso de Picard na ponte de comando, quando conversa com Rios: a civilização antiga pode ter tido razão no passado, mas o futuro cabe a eles escrever, com franqueza, otimismo e curiosidade, não com medo e segredo, como o Zhat Vash, pois o medo é o verdadeiro destruidor. Esse discurso – que, pela primeira vez, não é rebatido com “não quero ouvir sermão” e nem com um “cale a boca” – lembrou o Picard de A Nova Geração. Resta saber se ele está certo, ou se os temores de Rios têm fundamento: será que os romulanos não teriam razão em chamar Soji de Destruidora? Afinal, ela hackeou a La Sirena em cinco minutos. É uma das perguntas que os próximos capítulos devem responder.

Esse apocalipse causado por vida artificial é um tema muito parecido com o da segunda temporada de Star Trek: Discovery, em que a galáxia é ameaçada pelo Controle, Inteligência Artificial que extingue a vida na galáxia em todas as linhas de futuro possíveis. Resta aguardar e ver se os desdobramentos, tanto de uma como da outra série, seguirão com essa semelhança. Por enquanto, parece que as soluções encontradas por ambas as séries vão em direções opostas. Enquanto em Discovery a nave que carrega o Controle foge para um futuro distante, em Picard o almirante sugere que o medo seja deixado de lado e se tente uma aproximação com os sintéticos.

O episódio teve também o retorno de Sete de Nove. Foi uma pena não ver Sete interagindo com Hugh – que ela conhecia, pois chega perguntando por ele para Elnor –, ex-borg como ela. Teria sido interessante ver os dois trabalhando juntos na tentativa de reativar os borgs, talvez enfrentando um embate de opiniões (Hugh certamente seria contra a assimilação dos borgs em estase para a minicoletividade). Persistiu, assim, a sensação de que a morte de Hugh foi prematura. Sete aciona o cubo agindo como uma rainha borg, como vimos no filme Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato e no episódio “Dark Frontier”, de Voyager. Foi um momento arrepiante ouvir a coletividade através de Sete: “Somos os borgs!” E também deve ter sido a primeira vez que o fã torceu pela vitória dos borgs em Star Trek. Porém, Sete decide agir voltando à sua condição humana, pois Annika ainda tem trabalho a fazer.

Em meio a tantas respostas que o episódio traz para a trama principal, ainda houve tempo para a emoção, como o diálogo entre Picard e Soji à mesa do jantar. Continuando a construção do personagem Data – que, embora não tenha aparecido mais na série desde o sonho de Picard em “Remembrance”, é personagem sempre presente, por estar no “DNA” de Soji –, ele é o assunto principal da conversa entre os dois. O momento mais emocionante é quando Soji diz que Data amava Picard. Quanto a esse amor ser correspondido, Picard revela um pouco mais sobre si mesmo quando se compara a Data. Ele diz que a capacidade de Data para expressar e processar emoção era limitada – assim como ele próprio sempre teve dificuldade de processar e expressar emoções.

Outro momento emocionante foi ver a amizade entre Rios e Raffi – simbolizada na reciprocidade da xícara de café, que ela prepara para ele do mesmo modo que ele preparou para ela, no episódio The Impossible Box. A cena, porém, teria se beneficiado enormemente de um flashback com a história que Rios conta a ela. O ator faz o possível para carregar o relato de emoção e sofrimento, mas uma cena mostrando o que houve na ibn Majid, um momento crucial no passado de Rios, mesmo que intercalada com o diálogo entre ele e Raffi, teria tido muito mais impacto. Todos os personagens principais tiveram flashbacks (Agnes e Maddox num holovídeo), e Rios merecia ter tido um também, principalmente desse momento decisivo em sua vida. Mas, de novo, a produção fez a escolha mais rápida e mais barata de contar em vez de mostrar. Já tinham feito essa opção para a demissão de Picard da Frota Estelar, que não é mostrada, mas contada num diálogo entre ele e Raffi no episódio The End is the Beginning.

O episódio teve efeitos visuais bem caprichados: a regeneração do cubo borg e os drones ejetados, o sistema com oito sóis, o conduíte de transdobra – sem falar no ótimo trabalho de edição na cena com os cinco hologramas de Rios – e ótima direção de Maja Vrcilo, que já tinha mostrado seu talento em “The Impossible Box”. O movimento constante da câmera às vezes incomoda, mas, no geral, não compromete o resultado.

“Broken Pieces” é, de certa forma, o penúltimo episódio da primeira temporada, já que o último é um episódio só, em duas partes. Na metáfora do showrunner Michael Chabon, este capítulo é como o topo da montanha, que subimos devagar com nosso trenó. No último episódio, vamos deslizar rápido, montanha abaixo. Esperamos que seja uma descida cheia de emoção e diversão, como prometeu Chabon.

Avaliação

Citações

“He loved you.”
(Ele o amava)
Soji para Picard, sobre Data

 “That’s a hell os a report.”
“Andy you thought I was a desperate old man, quixotic, paranoid, possibly senile.”
“Let’s just leave it at quixotic.”
“And now the windmills have turned out to be giants.”
(Isso é que é relatório.
E você me chamou de velho desesperado, quixotesco, paranoico, talvez senil.
Vamos ficar só com quixotesco.
E agora os moinhos de vento viraram gigantes.)
Almirante Clancy e Picard

 “The past is written, but the future is left for us to write. And we have powerful tools : openness, optimism and the spirit of curiosity. All they have is secrecy and fear. And fear is the great destroyer.”
(O passado está escrito, mas cabe a nós escrever o futuro, e temos ferramentas poderosas: franqueza, otimismo e espírito de curiosidade. Eles só têm segredos e medo. E medo é o grande destruidor.)
Picard para Rios

Trivia

  • Rios ouve “Solitude”, de Billie Holiday e canta a canção de ninar “Arroz com leche”.
  • Picard menciona Marta Batanides, uma colega de classe que aparece no episódio “Tapestry”, de A Nova Geração.
  • O capitão Alonzo Vandermeer, que aparece ao lado de Rios numa foto, é o ator Vincent Teixeira.
  • Os cinco hologramas da nave La Sirene têm nome: os nomes de Emmet (tático), Ian (engenheiro) e Enoch (navegador) aparecem em tela. Segundo Michael Chabon, showrunner da série, os outros dois são Emil (médico) e Sr. Hospitalidade.
  • O sotaque escocês do engenheiro holográfico, Ian, é uma homenagem ao engenheiro Scotty da Série Clássica.
  • O nome do capitão da La Sirena era para ser Chris Diaz, mas, como esse nome já era usado em outra série, Chabon fez uma lista de nomes de origem hispânica com duas sílabas e deu para o ator Santiago Cabrera escolher, e ele escolheu Rios.
  • Enoch, o navegador holográfico, menciona as famosas técnicas de astronavegação medusianas. Os medusianos surgiram no episódio “Is There in Truth No Beauty?”, da terceira temporada da Série Clássica.
  • A cena da reunião com os cinco hologramas levou dois dias inteiros para ser filmada.
  • A inscrição em romulano no cinto de Elnor, sem n’hak kon, significa “agora é o único momento”.
  • Quem criou a língua romulana em Picard foi o linguista americano Trent Pehrson. Ele utilizou fragmentos de romulano e vulcano antigo vistos em Star Trek anteriormente para construir esse novo idioma.
  • A menção de Picard do seu tempo de alferes na USS Reliant refere-se a uma cena deletada de “The Measure of a Man”, de A Nova Geração, restaurada na versão estendida do episódio na edição da série em Blu-ray, em que Picard e o almirante Nakamura relembram como se conheceram.
  • O chá iridiano foi visto no episódio “Eye of the Beholder”, de A Nova Geração.
  • O rastreador ingerido por Agnes é um dispositivo baseado em viridium, a mesma substância que Spock usou para rastrear o capitão Kirk enquanto ele esteve sob a custódia dos klingons, no filme Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida.
  • O nome da nave ibn Majid é uma homenagem ao navegador árabe Ahmad ibn Majid, que teria guiado o explorador português Vasco da Gama no caminho marítimo da África para a Índia, no século 15.
  • A almirante Clancy chama Picard de “quixotesco”. É uma referência ao romance “Dom Quixote” (1605), do espanhol Miguel de Cervantes. Trata-se de uma sátira aos romances de cavalaria medievais. O protagonista, Dom Quixote, perde o juízo de tanto ler esses romances e vira um cavaleiro andante contra as injustiças do mundo, na tentativa de imitar seus heróis preferidos. Numa de suas aventuras, vê moinhos de vento, que julga ser gigantes, e parte para atacá-los com sua lança. O episódio dos moinhos de vento tornou-se a própria metáfora da loucura.

Ficha Técnica

Escrito por Michael Chabon
Dirigido por Maja Vrvilo
Exibido em 12/03/2020

Elenco

Patrick Stewart como Jean-Luc Picard
Alison Pill como Dra. Agnes Jurati
Isa Briones como Soji Asha
Evan Evagora como Elnor
Michelle Hurd como Raffi Musiker
Santiago Cabrera como Cristobal “Chris” Rios

Elenco convidado

Jeri Ryan como Sete de Nove
Peyton List como Narissa
Tamlyn Tomita como comodoro Oh
Rebecca Wisocky como Ramdha
Ann Magnuson como almirante Kirsten Clancy
Derek Webster como centurião Tarent
Jane Hae Kim como mulher Tal Shiar nº 1
Kendra Munger como mulher Tal Shiar nº 2

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