VOY 2×15: Threshold

Premissa patética quebra tabus e converte Paris e Janeway em lagartixas

Sinopse

Data estelar: 49373.4

Após uma série de simulações no holodeck na tentativa de alcançarem a dobra 10 (uma impossibilidade teórica), Tom Paris e um time da engenharia modificam uma nave auxiliar a fim de enviar o tenente para um voo real nessa velocidade. No dia seguinte, a tripulação observa ansiosa à medida que ele cruza o limiar da velocidade de dobra.

Momentos mais tarde, a nave emerge do subespaço e Paris é transportado para a enfermaria. Inicialmente, ele parece cansado por causa da fantástica experiência, que diz ter sido como “estar em todos lugares ao mesmo tempo”. Enquanto Torres e Janeway discutem o potencial dos dados obtidos durante o curto voo de Tom, um tripulante chamado Jonas bisbilhota a conversa. Depois, envia informações sobre o assunto secretamente para os kazons.

Pouco tempo se passa quando Paris tem um colapso no refeitório. Levado novamente à enfermaria, é examinado pelo Doutor, que registra mudanças em sua bioquímica. Seus órgãos sofrem mutações e suas membranas celulares se deterioram rapidamente. Apesar dos esforços do médico, o oficial não sobrevive. Contudo, horas mais tarde, Tom volta a respirar. Quando examinado novamente, descobrem-se novos órgãos em seu corpo.

Doutor e Paris

Porém, embora esteja vivo novamente, não está fora de perigo. Uma série de mutações aceleradas o levam a transformações radicais que resultam em paranoia e explosões de violência. O Doutor indica um procedimento médico capaz de destruir o material genético em mutação, mas o tratamento é interrompido quando Tom escapa de seu confinamento na enfermaria.

Vagando pelos corredores da nave, ela sequestra a capitã e a leva à nave auxiliar modificada, lançando-se em uma nova jornada em dobra 10. Três dias mais tarde, a Voyager os localiza em um planeta desabitado. Após as mutações, Paris e Janeway transformam-se em anfíbios e se acasalam, produzindo filhotes, os quais o comandante Chakotay decide deixar no habitat. De volta à nave, o Doutor consegue finalmente executar o procedimento, eliminando o DNA mutante dos oficiais, restaurando-os à condição original.

Comentários

Comentar “Threshold” é muito complicado, afinal de contas, ele é considerado por muitos como o pior episódio de Voyager e um dos piores de todas as séries de Jornada nas Estrelas. Trata-se de um episódio pouco convencional, que não fornece muitas explicações para os eventos ocorridos e muito menos uma lealdade às leis naturais básicas.

threshold title card

Como falar das desgraças é fácil, vale a pena começarmos com um ponto positivo. Em primeiro lugar, é com grande satisfação que constatamos que a nave auxiliar Cochrane sobreviveu ao episódio – praticamente um milagre, em se tratando do estranho fenômeno da destruição e multiplicação de naves auxiliares que acontece a bordo da Voyager.

Ironias à parte, o grande destaque da história é o humor, presente mesmo nas situações mais tensas. E, como não poderia ser diferente, o Doutor é o grande responsável por isso. Suas famosas ironias desarmam qualquer um para a cena seguinte. Não é à toa que Kate Mulgrew (Janeway) disse que Robert Picardo engrandece a Voyager.

Pena que o humor involuntário também esteja muito presente. Afinal de contas, temos aqui uma das premissas mais estúpidas de que se tem notícia no franchise.

Paris em Threshold

O problema começou na bagunça tecnológica. Recuperar a famosa “transdobra” e defini-la como a dobra dez foi um equívoco. A transdobra foi implementada experimentalmente na USS Excelsior, no final do século 23, em um projeto que fracassou. Sabemos também que os borgs possuem tecnologia de transdobra. A rigor, transdobra seria a “dobra da dobra” do espaço-tempo. Da forma como foi estabelecida aqui, igualando-se à dobra 10, a tecnologia foi não só banalizada como também transformada em algo totalmente implausível dentro do universo de Jornada. Em outras palavras, nem tente entender por que os borgs não se tornam lagartixas depois de fazer uma viagem desse tipo.

Além de embananar totalmente os conceitos científicos da série, o episódio ainda tocou em um assunto que está no “index” de ideias proibidas em Jornada desde 1987. Quando Gene Roddenberry estava criando A Nova Geração, ele decidiu fazer uma nova escala para a dobra espacial, estabelecendo o valor 10 como limite máximo. A ideia era justamente evitar episódios em que a nave viajasse a velocidades amalucadas, como aconteceu algumas vezes durante a Série Clássica.

Além de romper com esse preceito básico, “Threshold” dá menos credibilidade a todo o invólucro tecnológico que reveste Jornada nas Estrelas. De quebra, ainda descobrimos que a metamorfose de Tom Paris é na verdade a evolução da humanidade. Eu não sei quanto a vocês, mas eu prefiro continuar primitivo. Francamente, pensar na hipótese de que evoluiremos para nos tornarmos anfíbios que vivem para ter filhotes em pântanos chega a ser patético. Nem vale muito a pena se aprofundar nesse tópico, que torna o episódio um dos menos afamados de Voyager.

É claro que alguma coisa precisava dar errado. Se o experimento fosse bem-sucedido, a Voyager voltaria para casa em transdobra e a premissa do seriado iria para o buraco. Mas a solução da mutação foi a pior coisa que eles podiam inventar, porque além de não fazer o menor sentido, também não explica o porquê de a Voyager não ter voltado para casa em transdobra. Afinal de contas, se uma solução para reverter as mutações foi encontrada pelo Doutor, o que impediria a Voyager de seguir curso para a Terra em dobra 10? Ele poderia simplesmente ser mantido ativado e remover o DNA alterado da tripulação após a jornada.

Janeway pensou nas implicações e riscos de tal procedimento, o que todo capitão faria, mas vale lembrar que mutações nunca impediram Kirk ou Picard de agir com audácia. No mínimo, ela poderia ter enviado uma nave auxiliar em piloto-automático para o espaço da Federação, avisando a todos em casa que os tripulantes da Voyager estão vivos e tentando voltar. Isso não comprometeria a concepção da série e daria aos telespectadores algo para se esperar em episódios futuros.

Também é estúpido achar que Janeway e Paris apareceriam em um planeta próximo da Voyager. Em dobra 10, podendo ir a qualquer lugar do Universo inteiro instantaneamente, se eles ficassem na Via Láctea já seria uma tremenda sorte.

Tomando três aspirinas e engolindo tudo que foi dito acima, vamos ver o que sobrou para os personagens em meio a essa trama ridícula. Felizmente, o estrago não foi tão grande por esse aspecto. Janeway teve boas cenas, embora todas elas envolvessem Tom Paris, que claramente foi o foco do roteiro. Sua reação ao pedido do tenente para ser o piloto apesar dos riscos médicos, sua compreensão com relação ao comportamento dele na Enfermaria e a interação entre os dois no final do episódio mostraram habilidades da capitã tanto no plano tático quanto no pessoal.

Também foi legal ver velhas feridas sendo reabertas, algumas das quais foram apresentadas já em “Caretaker”, o piloto da série, e que dizem respeito ao passado mercenário de Paris. Esse tema foi abordado recentemente em “Parturition”, quando Tom e Neelix se entenderam quanto à integridade do piloto. Desde então, o tenente tem se preocupado em mudar sua reputação na Voyager. A viagem experimental em dobra 10 seria um modo de fazê-lo.

Harry, Neelix e Paris

Toda essa carga emocional revelou bastante sobre sua personalidade. Tem sido uma característica primária de Tom Paris ser sarcástico e brincalhão, o que poderia ser interpretado como um escudo que o protege dos outros. Mas, após morrer e retornar, ele começa a baixar essa ‘defesa’, expondo seu lado emocional. Isso pode ser visto na cena em que ele está na enfermaria e a capitã o visita para saber como se sente.

Outro aspecto interessante da história foi a continuidade estabelecida entre este episódio e o anterior, “Alliances”. Pôde-se ver de novo Michael Jonas, o traidor que estabeleceu contato secretamente com Seska. Isso deixa claro que o arco não acabará por aqui. Quanto aos efeitos especiais, pudemos ver um dos primeiros usos de CGI (imagens geradas por computador) na criação das naves da série. A partir do terceiro ano, as maquetes são finalmente substituídas por criações em computador. Também vale destacar a maquiagem aplicada a Robert Duncan McNeill (Paris), que foi digna de indicação ao Emmy Awards (o Oscar da televisão).

Avaliação

Citações

“Wake up, lieutenant!”
(Acorde, tenente!)
Doutor

“Congratulations, mr. Paris. You just made history.”
(Meus parabéns, sr. Paris. Você acaba de fazer história.)
Janeway

“You are too stubborn to die, mr. Paris.”
(É teimoso demais para morrer, sr. Paris.)
Doutor

“Pretty disgusting, huh?”
(Bem nojento, não acha?)
Paris

“I thought about having children, but I must say I never considered having them with you.”
(Pensei em ter filhos, mas devo dizer que nunca considerei tê-los com você.)
Janeway

Trivia

  • No background científico de Jornada, a dobra 10 equivale à velocidade infinita. Quando viajando a essa velocidade, um indivíduo pode ocupar todos os lugares do Universo ao mesmo tempo. É possível que Tom tenha viajado a uma velocidade além da dobra 10. Neste caso ele estaria viajando em uma direção dada por um número complexo (a+bi). Vale lembrar que tudo isso não tem nenhum fundo científico. É só a boa e velha tecnobaboseira.
  • Em uma entrevista recente, Robert Duncan McNeill disse ser este episódio o seu preferido de Voyager, apesar de os fãs considerarem o segmento um dos piores da série. “Eu realmente gosto de ‘Threshold’, aquele em que me transformo em salamandra. A maioria dos fãs odiou. Eu não ligo. Eu realmente gostei.” Pelo menos ele justifica: “Eu vi uma foto outro dia que mostrava o momento em que minha língua cai. Foi tão divertido atuar essa nojenta e maravilhosa transformação. Pelo fato de não trabalhar com próteses o tempo todo, foi realmente muito transformador para mim enquanto ator também. A coisa toda, ter próteses na minha frente e ter de lutar para atravessá-las, permitiu muita liberdade para fazer coisas com Tom Paris que eu não poderia fazer sob circunstâncias normais”.

Ficha Técnica

História de Michael DeLuca
Roteiro de Brannon Braga
Dirigido por Alexander Singer

Exibido em 29 de janeiro de 1996

Título em português: “O Limiar”

Elenco

Kate Mulgrew como Kathryn Janeway
Robert Beltran como Chakotay
Roxann Biggs-Dawson como B’Elanna Torres
Robert Duncan McNeill como Tom Paris
Jennifer Lien como Kes
Ethan Phillips como Neelix
Robert Picardo como Doutor
Tim Russ como Tuvok
Garret Wang como Harry Kim

Elenco convidado

Raphael Sbarge como Michael Jonas
Mirron E. Willis como Rettik
Majel Barrett-Roddenberry como a voz do computador

Enquete

Edição de Stéphanie Cristina
Revisão de Roberta Manaa

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