“Eu estou preocupado com o futuro de Star Trek“, desabafou Érico Borgo ao público da STXP, ao discutir as perspectivas da franquia sob o comando de grandes corporações de tecnologia, referenciando a recente aquisição da Paramount pela Skydance, de David Ellison. Borgo demonstrou temor de que o “universo absolutamente progressista” de Star Trek seja descaracterizado por executivos, citando o risco de a saga ser empurrada para um futuro menos utópico em busca de lucros imediatos.
Co-fundador da CCXP e do Omelete, Borgo foi o convidado central de um painel conduzido por Gustavo Gobbi no evento que celebrou os 60 anos da saga em 2 de maio no Teatro Cásper Líbero, em São Paulo. Ao longo de pouco mais de uma hora de conversa, ele revisitou as seis décadas da franquia espacial e compartilhou reflexões sobre o impacto cultural da saga. Confira o vídeo completo do painel abaixo.
“Você tem que enxergar além do isopor”, afirmou o escritor ao descrever o desafio de apresentar a Série Clássica de Star Trek às novas gerações. Ele mesmo admite que seu interesse real pela obra de Gene Roddenberry não começou na televisão, mas no cinema, com o filme Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa (1986). “Eu me lembro dessa introdução ao universo Star Trek através desse filme… O roteirinho é muito redondo”, comentou, destacando como a simplicidade daquela trama o fisgou ainda na infância, permitindo que ele explorasse o restante da cronologia posteriormente via locadoras.
Sobre a icônica morte e ressurreição de Spock nos cinemas, o empresário revelou uma visão crítica sobre o peso narrativo de grandes perdas. “Eu gosto de uma boa morte… digna, um sacrifício forte”, disse, comparando a decisão dos anos 1980 com as tendências atuais de estúdios que, segundo ele, podem “esvaziar o sacrifício” ao ressuscitar personagens por desespero comercial.
Ao abordar as eras televisivas, Borgo definiu A Nova Geração como sua “série conforto”, mas admitiu a superioridade temática de Deep Space Nine. Para ele, a série de Sisko “abandona a questão da semana” para mergulhar em temas complexos e atuais, como as consequências de pós-guerras, colonização e racismo, descrevendo o início da trajetória do comandante como “meio shakespeareano”.
A preferência pelo capitão Picard em detrimento de Kirk foi justificada pelo temperamento intelectual do personagem. “Eu acho que gosto mais do Picard… ele é um diplomata, tem uma postura diferente”, explicou Borgo, contrastando o estilo mais “centradinho” e introspectivo do personagem de Patrick Stewart com o perfil aventureiro e galanteador do Kirk original.
O comunicador relembrou ainda sua experiência cobrindo a trilogia produzida por J.J. Abrams, chegando a visitar sets de filmagem e a tatuar a Enterprise dessa versão no braço. Apesar do carinho pela experiência pessoal, ele apontou falhas na abordagem moderna: “Falta filosofia ali… tem coisas que para mim são inegociáveis… não dá para transformar em uma ação espacial.”.
Sobre as produções contemporâneas, Borgo elogiou o equilíbrio de Discovery, mas expressou resistência à série Picard. “Eu não quero ver o Picard velho… sofrendo, explodindo no espaço”, afirmou, defendendo que o roteiro deveria ter focado na sabedoria diplomática do almirante em vez de forçá-lo de volta à ação física, algo que ele classificou como um comportamento de “vício em nostalgia”.
Aproveitando o espaço, Borgo explicou seu afastamento da criação de conteúdo diário na internet, alegando não querer ser “parte do problema” da economia da atenção. “Eu estava fazendo exatamente aquilo que detesto nas redes sociais… tentando manipular as pessoas para que elas fiquem algum tempo a mais no meu vídeo”, confessou sobre sua transição profissional.
Atualmente, o empresário dedica-se a um documentário sobre J.R.R. Tolkien, projeto que consome seus últimos dois anos de pesquisa. Ao encerrar o painel, Borgo reafirmou sua conexão emocional com Jornada nas Estrelas, posicionando-se não como autoridade, mas como um espectador apaixonado: “Estou falando na qualidade de um fã como qualquer um aqui”.
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