GRANDES JORNADAS | Seis episódios de Star Trek discutem o terrorismo

Episódios de hoje…
“The High Ground” (“Tudo pela Causa”; TNG 3×12, 1990)
Onde assistir: PlutoTV*
“Ensign Ro” (“Alferes Ro”; TNG 5×3, 1991)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Maquis, Part I” (“Os Maquis, Parte I”, DS9 2×20, 1994)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Maquis, Part II” (“Os Maquis, Parte II”; DS9 2×21, 1994)
Onde assistir: PlutoTV*
“Homefront” (“Paraíso Ameaçado”; DS9 4×11, 1996)
Onde assistir: PlutoTV*
“Paradise Lost” (“Paraíso Perdido”; DS9 4×12, 1996)
Onde assistir: PlutoTV*

* Somente dublado

É possível justificar o emprego de ações violentas em prol de uma causa política ou social? O debate é espinhoso, mas Star Trek já tocou no assunto do terrorismo diversas vezes.

De antemão, dificilmente alguém aceita essa ideia: o uso da violência é, via de regra, condenado. Mas as zonas cinzentas são as que interessam nesses episódios, que nos fizeram olhar além da superfície e entender melhor o que leva grupos de pessoas que se unem em torno de um ideal a passarem para o lado das ações violentas, com todas as consequências graves dessa decisão.

Os corredores acarpetados da Enterprise-D foram palco de um dos mais polêmicos episódios de Star Trek por conta desse tema, a ponto de ele ser banido das transmissões do seriado no Reino Unido. O episódio, “The High Ground” (“Tudo pela Causa”; TNG 3×12, 1990), trata de um planeta dividido politicamente, no qual um dos lados se utiliza de ações violentas contra um governo autoritário e reivindica autonomia para seu território. A dra. Crusher acaba sendo vítima do grupo ao ser sequestrada logo após a explosão de uma bomba pelos terroristas.

Ao questionar Picard sobre a eficácia do terrorismo como meio de mudança política e social, o comandante Data menciona a atuação do Exército Republicano da Irlanda, o IRA, como exemplo “bem-sucedido”, já que, segundo o androide, a Irlanda teria conseguido se reunificar em 2024. Essa frase ousada tirou o episódio da programação no Reino Unido e acabou não se confirmando na realidade: o IRA abandonou a luta armada em 2005, mas as Irlandas seguem divididas em 2026, com a Irlanda do Norte ainda sob a influência do Reino Unido.

E ainda tem quem diga que Star Trek não era tão politizado nas décadas passadas!

O episódio não chega a justificar a violência – e isso nem combinaria com o tom pacifista dos seriados –, mas mostra o desespero do grupo marginalizado, que sofre com a falta de insumos médicos e as condições de vida precárias impostas pelo conflito político. Os longos anos de luta, com ódio acumulado de parte a parte, parecem cegar ambos os lados para as possibilidades de paz e negociação, alternativas muito melhores aos atentados a bomba.

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Outro povo levado ao desespero após décadas de opressão são os bajorianos. Sua primeira aparição em qualquer série de Star Trek foi no episódio “Ensign Ro” (“Alferes Ro”; TNG 5×3, 1991). A personagem-título é uma oficial da Frota, oriunda dos campos de refugiados dos bajorianos. Após décadas de ocupação pelos lagartões cardassianos, Bajor sofre com a falta de recursos e muitos de seus cidadãos estão em acampamentos. Parte deles acaba se voltando aos grupos de resistência e aos atentados terroristas, frustrados como estão com a falta de ajuda externa, inclusive por parte da Federação.

No episódio “Ensign Ro”, a oficial em questão é retirada de uma prisão para auxiliar a Enterprise em uma missão: aparentemente, um grupo terrorista bajoriano teria atacado um posto da Federação, e Ro deveria tentar contato com o líder da célula. No fim, a história acaba se revelando falsa: os cardassianos haviam realizado o ataque para culpar os bajorianos, instrumentalizando a Federação para revelar a posição dos terroristas e eliminá-los. O capitão Picard desvenda o caso e consegue enviar ajuda humanitária ao acampamento dos bajorianos.

Ro segue na tripulação da Enterprise e sua propensão à rebeldia ainda teria desdobramentos, por seu envolvimento com outro grupo rebelde, cuja presença se estenderia pelo “universo” Star Trek em A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager: os Maquis. Usando um nome inspirado na resistência francesa aos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, os Maquis se opõem ao acordo pós-guerra entre a Federação e os cardassianos.

Segundo esse acordo, houve o desenho de uma fronteira entre as duas partes, e alguns planetas colonizados por cidadãos da Federação passaram a se encontrar em território cardassiano. A ideia do governo era que os colonos fossem realocados para porções do quadrante fora da influência de Cardássia, mas houve forte oposição. Afinal, os cidadãos federados haviam colonizado aqueles planetas décadas atrás: imagine você ser obrigado a sair de sua própria casa dessa forma?

São muitos os episódios sobre os Maquis. Os detalhes do acordo pós-guerra são expostos em “Journey’s End” (“”Fim da Jornada”; TNG 7×20, 1994), mas a primeira aparição dos Maquis como grupo organizado ocorre em Deep Space Nine, no episódio duplo “The Maquis, Part I” e “The Maquis, Part II” (“Os Maquis, Parte I” e “Os Maquis, Parte I”; DS9 2×20 e 2×21, 1994).

Aqui, a história já começa com um atentado: um cargueiro cardassiano explode ao sair da estação Deep Space 9. Uma investigação revela o uso de um explosivo somente encontrado na Federação. Depois, outro crime: o sequestro do militar cardassiano Gul Dukat. Ambas as ações são reivindicadas pelo grupo agora apresentado como Maquis. Composto de membros da Frota Estelar e colonos de planetas na fronteira com o império cardassiano, o grupo acredita que o governo de Cardássia está armando suas próprias colônias contra os federados. Os atentados dos Maquis têm esses carregamentos de armas como alvos, mas suas ações rebeldes se opõem aos valores da Federação. O comandante Sisko, apesar de revoltado com a adesão de colegas da Frota a um grupo terrorista, também se frustra com a complacência do comando da Federação em relação às óbvias transgressões cometidas pelo governo cardassiano: “É fácil ser santo no paraíso”, diz ele, contrapondo a tensão na fronteira à vida confortável da chefia da Frota no belo quartel-general na Terra.

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E é para lá mesmo que nos leva o próximo episódio: “Homefront” (“Paraíso Ameaçado”; DS9 4×11, 1996). Um atentado a bomba em plena Terra mostra que os metamorfos, líderes do Domínio (um império hostil no quadrante Gama), chegaram ao planeta-sede da Federação. Este e o episódio seguinte, “Paradise Lost” (“Paraíso Perdido”; DS9 4×12, 1996), enfocam as consequências do terrorismo em vez de suas causas.

O ataque ao paraíso terrestre, onde não existem fome nem conflitos, coloca a todos em estado de alerta. Como os suspeitos são transmorfos, portanto capazes de se disfarçar de quase qualquer coisa ou pessoa, a Frota Estelar se desdobra para implementar medidas de segurança. A solução mais drástica é a retirada de sangue de qualquer pessoa suspeita ou que precise acessar uma área restrita. Esses exames forçados causam desconforto, e um dos que mais se opõem a esse rastreamento é o próprio pai do capitão Sisko, o chef de restaurante Joseph Sisko.

A situação escala ainda mais após uma perda geral de energia na Terra. A princípio, acredita-se que o problema tenha sido resultado de mais um atentado dos metamorfos. No entanto, fica claro ao longo da investigação que a sabotagem foi ordenada pelo próprio almirante encarregado da resposta ao atentado inicial. Claro, tinha que ser um almirante! O objetivo era dar um golpe de estado, retirando o presidente eleito do poder para instituir uma ditadura e intensificar mais ainda as medidas de segurança.

É curioso que esses dois episódios tenham sido produzidos anos antes dos atentados de 11 de setembro, porque a atmosfera de paranoia e a instituição de medidas questionáveis de segurança anteciparam, em certa medida, o que iríamos ver na realidade a partir de 2001.

Após os ataques aos Estados Unidos, nos quais aviões foram sequestrados e pilotados de encontro às torres gêmeas em Nova York, ao Pentágono, na Virginia, e à Casa Branca, na capital americana (este último foi derrubado pelos próprios passageiros antes de chegar ao seu destino presumido), tornou-se corriqueira a publicação de “níveis de alerta” em cores, de verde a vermelho, para representar o risco de um novo atentado.

A lei chamada de “Patriot Act”, assinada pelo então presidente dos EUA, George W. Bush, passou a permitir com mais facilidade as escutas telefônicas e o compartilhamento de informações de vigilância entre agências do governo, numa série de medidas que acabou reduzindo o direito à privacidade dos cidadãos dos Estados Unidos, com a justificativa de combater o terrorismo.

No episódio de DS9, a escalada autoritária é contida, e a vida na Terra volta ao normal. Já por aqui, sabemos que o mundo nunca mais foi o mesmo depois do 11 de setembro. Claro que não chegamos perto de uma ditadura planetária, mas vimos a ascensão de governos autoritários em todos os continentes, a escalada de conflitos regionais e quase que uma normalização da vigilância dos cidadãos em escala global, com o auxílio da tecnologia.

 

Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.


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