ESPECIAL 60 ANOS | A crise no streaming, o fim da terceira era de Star Trek e um olhar para o futuro

O final dos anos 2010 e início dos anos 2020 foram marcados pela primeira fase da guerra dos streamings. Todo mundo e mais alguém em Hollywood tentou deixar sua pegada no que parecia uma nova corrida do ouro.

O veio havia sido descoberto pela Netflix, em 2007, o que a colocava muito à frente da concorrência, ao lado do Amazon Unbox (originalmente lançado em 2006 para venda de filmes online, partindo da gigantesca base de clientes da gigante global de varejo), que eventualmente se transformaria no Prime Video.

O Hulu veio logo depois deles, em 2008, e seria eventualmente comprado pela Disney. O CBS All Access seria lançado no mercado americano em 2014 e ressurgiria como o expandido Paramount+ em março de 2021. O Disney+ e o Apple TV (originalmente também com um + no nome) foram lançados em novembro de 2019. O Peacock, da NBC, disponível só no mercado americano, surgiria em 2020, mesmo ano de lançamento do HBO Max, da Warner.

Chegamos ao final da segunda década do século 21 num ambiente em que quase todo estúdio e toda rede de televisão nos Estados Unidos tinha seu próprio serviço de streaming. E todos estavam crescendo, tentando se tornar competitivos contra os gigantes, Netflix e Prime Video. Naturalmente, isso vinha com um custo, traduzido na quantidade monstruosa de conteúdo que estava sendo produzida para instigar e manter esse crescimento. Foi essa a onda, movida a cheques em branco (os antigos entenderão, a expressão indica “gastos desenfreados”), que construiu a terceira era televisiva de Star Trek.

Cenário concorrido dos streamings nos EUA em 2022. (Crédito: Variety)

Começou com poucos riscos, com Discovery, que foi quase totalmente bancada pelo contrato de exibição internacional firmado pela CBS com a Netflix. Mas logo entraria num frenesi explosivo no que Alex Kurtzman, produtor executivo encarregado de cuidar das produções televisivas da franquia, chamaria de uma expansão do universo Star Trek. A série de curtas Short Treks foi criada para preencher o vácuo entre temporadas de Discovery, e Picard veio em 2019, em parte financiada pelo Prime Video. O plano do CBS All Access, depois Paramount+, era ter “Star Trek o ano todo”, com novos episódios lançados semanalmente de forma a manter os assinantes o tempo todo na plataforma, sem períodos de cancelamento temporário (com tantos streamings no mercado, as pessoas começaram a ativar e desativar assinaturas periodicamente, baseadas no lançamento de seus programas de interesse).

Para trazer novos fãs e renovar a audiência, o estúdio também decidiu apostar em animações: Lower Decks, que chegou em agosto de 2020, criada por Mike McMahan, roteirista de sucesso com o hit Rick and Morty, e a ambiciosa Prodigy, em outubro de 2021, criada pelos irmãos Hageman, os mesmos do sucesso Caçadores de Trolls (Trollhunters). O plano original para a série envolvia exibição no canal Nickelodeon, com distribuição no streaming pelo Paramount+ – todos do mesmo grupo ViacomCBS –, numa tentativa de rejuvenescer os fãs e reforçar as assinaturas do serviço online. No fim das contas, embora o Nickelodeon assine a coprodução, os episódios foram só ao Paramount+.

Mike McMahan se consagrou em Rick and Morty antes de criar Lower Decks. (Crédito: Cartoon Network)

Os irmãos Dan e Kevin Hageman trabalharam com Guillermo del Toro em Caçadores de Trolls antes de conceber Prodigy. (Crédito: Netflix)

A despeito disso, o entusiasmo com a expansão do universo Star Trek era total, e a CBS, em agosto de 2021, estenderia o contrato de Kurtzman (e sua produtora Secret Hideout) até 2026 – numa época em que se tornou comum assinar esses acordos de exclusividade com produtores, dedicados então a se tornar os motores criativos de crescimento dos streamings. Nem a pandemia, e todas as dificuldades que ela trouxe, conseguiram retardar de forma significativa os lançamentos. Com as vacinas, e protocolos complicados de produção, as filmagens seguiram em frente.

E, então, em 2022, a ficha caiu e a realidade realmente bateu à porta.

ILUSÕES PERDIDAS
Não existe crescimento infinito ou dinheiro infinito para produzir cada vez mais produções, cada vez mais caras, para ter cada vez mais assinantes. O mercado inteiro se deu conta disso quando a poderosa Netflix, no primeiro trimestre de 2022, pela primeira vez em sua história, reportou uma retração na sua base de clientes, terminando o período com 200 mil assinantes a menos do que começara. No segundo trimestre, o tombo foi ainda maior, com a perda de quase 1 milhão de clientes. O “teto” foi encontrado bem antes do que estimava o mercado e gerou um “barata-voa” entre os estúdios investidos no crescimento do streaming.

Começava a ficar claro que aquele ritmo desenfreado de produções não era sustentável. E, de novo, Star Trek sentiu o baque. A novíssima Strange New Worlds, que teve sua primeira temporada filmada em 2021, durante a pandemia, e seria lançada em maio de 2022, foi a primeira série da nova era que nasceu já com esse potencial de “marcada para morrer”. Os produtores Akiva Goldsman e Henry Alonso Myers admitiram que aceleraram a introdução de James T. Kirk na primeira temporada (interpretado por Paul Wesley) – numa série que em tese estaria focada nas aventuras de seu predecessor na Enterprise, capitão Christopher Pike – com medo de não terem outra oportunidade.

Filmagens da segunda temporada de Strange New Worlds, com Paul Wesley como um jovem Kirk e a equipe “mascarada” (em razão da pandemia). (Crédito: CBS)

Picard, que originalmente tinha contrato com Patrick Stewart para ter três temporadas, terminou por aí mesmo, com o último episódio indo ao ar em abril de 2023, ainda que o ator lançasse uma campanha para mais um filme com o elenco de A Nova Geração após a conclusão da série. A ideia não ganhou tração, bem como uma proposta de Terry Matalas para continuar a explorar o início do século 25 com uma nova série focada na tripulação da capitão Sete de Nove a bordo da Enterprise-G, conceito que ganhou o nome de Legacy e teve o entusiasmo dos fãs, mas não dos executivos do Paramount+, agora com o escorpião no bolso, cuidadosos com gastos desenfreados, após o tombo da Netflix e a certeza de que a guerra dos streamings terminaria com muito mais perdedores que vencedores.

Outra moda que ganhou tração na época foi o cancelamento de produções já concluídas. Quem puxou a fila foi a Warner, que chegou a engavetar filmes e séries concluídos sem nem mesmo lançá-los, numa forma de tentar conter prejuízos. Star Trek não foi imune a esse movimento também, e a primeira vítima foi Prodigy, que teve duas temporadas contratadas logo de saída (procedimento padrão para animações), mas, pouco antes da finalização da segunda, o Paramount+ decidiu cancelar a série, tendo exibido somente a primeira temporada.

Foi, na verdade, um cancelamento “soft”, em que o serviço de streaming da Paramount desistia da série, mas a CBS, estúdio responsável pela produção, buscaria outra casa para o programa, viabilizando o lançamento da segunda temporada, em fase final de pós-produção. Após alguma negociação, a animação foi parar na Netflix – mas sem todo aquele brilho nos olhos que a empresa teve quando Discovery chegou a suas mãos, alguns anos antes. A primeira metade da primeira temporada foi exibida entre outubro de 2021 e fevereiro de 2022, pelo Paramount+, com episódios semanais, e a segunda metade foi ao ar entre outubro e dezembro de 2022. O cancelamento foi anunciado em 23 de junho de 2023. Após uma intensa campanha dos fãs para que a série fosse salva, um acordo com a Netflix foi anunciado em 11 de outubro daquele ano. A primeira temporada “reestrearia” em 25 de dezembro e a segunda finalmente veria a luz do dia em 1º de julho de 2024.

Pôster do lançamento da segunda temporada de Prodigy na Netflix. (Crédito: Netflix)

Isso no mundo inteiro… menos na França, por uma presepada bizarra da CBS, que chegou a comercializar a série inteira (em “segunda janela”, o que consistiria em uma exibição pós-estreia oficial) antes do cancelamento do Paramount+, com uma data de lançamento que precedia a chegada da segunda temporada à Netflix global. Assim, a streamer France.TV, da emissora pública nacional francesa, entregou de graça ao público francês toda a segunda temporada, em março de 2024. Até os Hagemans ficaram surpresos e acharam que se tratava de um vazamento. Mas era mesmo uma trapalhada corporativa, que certamente não fez feliz a já amarga Netflix, responsável por lançar em “primeira janela” em julho – todos os episódios de uma vez, sem muita publicidade. Os números de exibição foram bons, mas não o suficiente para a empresa se animar a contratar uma terceira temporada. Encerrados os contratos, a série deixou a Netflix em 31 de dezembro de 2025, tornando-se acessível somente em mídia física (DVD e Blu-ray), lançada só nos Estados Unidos.

No Brasil, a série seguiria a toada ditada pelo exterior, baseada em contratos globais. A primeira temporada estrearia pelo Paramount+, e a segunda pela Netflix, ambas com versão brasileira do estúdio IDF, ligado ao Grupo Macias. A tradução de Prodigy foi a única a não ficar sob a responsabilidade de Anna Luisa Araujo, em sobrecarga pela avalanche de episódios de Star Trek daquele período, mas o trabalho foi passado a Vicki Araujo, que demonstrou atenção cuidadosa à terminologia trekker, entregando um texto preciso e fiel ao universo da franquia.

Vicki Araujo, a tradutora de Prodigy. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

As vozes foram muito bem escolhidas e transmitem a mesma energia presente nos originais – algo que animações exigem com ainda mais intensidade que o live-action. As atuações de César Emílio (Adivinho), Daniel Figueira (Dal) e Marina Santana (Gwyn) “vestem” muito bem os personagens, capturando não só o timbre adequado, mas o espírito de cada um deles.

César Emílio

Daniel Figueira

Marina Santana

Uma curiosidade é que o episódio piloto duplo, quando estreou no Paramount+, veio como um único segmento; já na Netflix, apareceu em duas partes separadas. E, por uma trapalhada do Paramount+, o Brasil por um breve momento foi o primeiro país do mundo a ter acesso a um dos episódios de Prodigy: aconteceu em 23 de dezembro de 2022, sexta-feira. No dia anterior, o Paramount+ americano havia veiculado “Supernova, Part 1”, a primeira parte do segmento final da temporada. No catálogo brasileiro, por engano, lançaram logo as duas partes, e a segunda ficou disponível por várias horas antes de ser retirada. Quem viu, viu. Mais uma daquelas histórias folclóricas de Star Trek no país.

CINCO É O NOVO SETE
Em janeiro de 2022, ainda embriagado pela ilusão do crescimento infinito, o Paramount+ anunciava antecipadamente a renovação de Discovery para uma quinta temporada. As filmagens desse quinto ano, agora com apenas dez episódios (já demonstrando uma cautela maior), acabaram em novembro de 2022, e no fim do ano os showrunners Michelle Paradise e Alex Kurtzman foram informados de que aquela seria a última temporada. Eles tentaram apelar, indicando haver ainda uma história a ser contada, e quiseram emplacar até mesmo um telefilme para encerrar a trama, mas tudo que a CBS os concedeu foi uma verba extra para gravar um epílogo de 15 minutos a ser anexado no episódio final. O vento definitivamente havia virado.

A notícia se tornou pública em março de 2023 e não chegava a ser uma grande surpresa. Mesmo em seus tempos mais gloriosos, a era do streaming privilegiava mais títulos, e menos episódios e temporadas. Parecia melhor para as plataformas ter cinco séries de dez episódios do que ter uma série com 50 episódios. Star Trek não veria mais os velhos tempos da segunda era televisiva, em que as séries tipicamente atingiam sete temporadas. Cinco agora era o novo sete. Isso se confirmaria com Lower Decks, que teria uma renovação para o quinto ano em março de 2023 e seria cancelada em abril de 2024, também com cinco temporadas.

Começou como a quinta temporada, e após as filmagens virou a final. (Crédito: StarTrek.com)

O mesmo fenômeno se repetiria com Strange New Worlds, série que ganhou sinal verde ainda em 2020, depois do furor causado pela aparição do capitão Christopher Pike, Spock, a Número Um e a Enterprise na segunda temporada de Discovery. Com sua primeira temporada filmada durante a pandemia e lançamento em 2022, ela se estenderia por cinco temporadas. Na verdade, o Paramount+ queria puxar o plugue da tomada ao final da quarta, que iria ao ar em julho de 2026, mas acabou convencido pelos produtores de que era necessário encaminhar os personagens em seus destinos, como preparação para o que seria visto na Série Clássica, localizada logo depois na cronologia. Assim, ela ganhou uma quinta temporada econômica, com apenas seis episódios, para exibição em 2027. Cinco era o novo sete.

A dublagem da série, a exemplo das demais desse período, ficou com o estúdio IDF do Grupo Macias, em São Paulo, e representa o que de melhor se fez a partir do momento em que se adotou o esquema com três diretores, começando pela terceira temporada de Discovery. A tradução mais uma vez foi de Anna Luisa Araujo, e o trio central, Pike, Spock e Una, recebeu as vozes de Alexandre Marconato, Felipe Zilse e Marcia Regina (Una), formando uma espinha dorsal impecável. A eles se juntam Carol Valença como Erica Ortegas e Patty Souza como La’An, em trabalho que, no conjunto, pode ser chamado sem exagero de irrepreensível.

Alexandre Marconato

Felipe Zilse (Spock) com Diego Lima (Ash Tyler, Elnor) e Patt Souza (La’An) na STXP 26. (Crédito: Miguel Pini)

Um destaque particular merece ser registrado: Maria Cláudia Cardoso, no papel da capitão Marie Batel, protagoniza ao lado de Marconato ao final da terceira temporada um dos momentos mais emocionantes e memoráveis da dublagem brasileira dos últimos anos – prova de que a qualidade técnica e a entrega interpretativa, quando alinhadas, produzem algo genuinamente especial.

Maria Cláudia Cardoso

Uma curiosidade que merece destaque é a dubladora Carol Valença, com sua voz presente em personagens regulares de três séries da franquia: Agnes Jurati (Picard), T’Ana (Lower Decks) e Erica Ortegas (Strange New Worlds).

A VOLTA DO FANDOM PRESENCIAL
O fim da pandemia marcou o retorno dos eventos de fãs. No Rio de Janeiro, o grupo Carioca Trekker, fundado em 8 de fevereiro de 2020 – praticamente na véspera da pandemia – por Marcelo Daniel e Naelton Araújo, entre outros, finalmente poderia cumprir com regularidade seu propósito de reunir os apaixonados por Star Trek na Cidade Maravilhosa. Além dos encontros online – uma necessidade na pandemia que se tornaria uma opção mais adiante –, o grupo passou também a realizar reuniões presenciais, frequentemente realizadas no charmoso Planetário do Rio, unindo dois universos, o ficcional criado por Roddenberry e o real, representado pela aventura da ciência astronômica.

Em São Paulo, a NovaFrota retomou seus eventos, mas com um escopo mais modesto. A StarCon Titan, realizada em 26 de agosto de 2023, não contou com a presença de convidados internacionais e teve adesão modesta do público, cerca de 180 pessoas, passando longe de preencher o Teatro Eva Wilma, na Zona Leste da capital, com capacidade para 700 pessoas.

Fernando Afonso comanda o palco da StarCon Titan, em agosto de 2023. (Crédito: NovaFrota)

Uma foto dos participantes do evento; cerca de 180 pessoas compareceram, na maior convenção do grupo desde o retorno pós-pandemia. (Crédito: NovaFrota)

Apesar de prometer novo evento para 2024, não aconteceu. Com expectativas reajustadas, o fã-clube só voltaria a promover uma StarCon, em modalidade Pocket e batizada em homenagem à nave auxiliar Galileo, em 25 de janeiro de 2025, para cerca de 80 pessoas, num auditório do Hotel São Paulo Tatuapé by Meliá.

Em 25 de junho daquele ano, Luiz Navarro e Fernando Afonso concederam uma entrevista ao canal De Pai para Filho, em que falam sobre essa mudança de direção. Os dois disseram que seria impossível àquela altura trazer convidados internacionais para convenções de Star Trek no Brasil e admitiram que haviam começado a trajetória da NovaFrota com o que descreveram como “a concepção errada”. O foco agora seria em eventos menores, como os que seriam realizados pelo grupo em 2026 para celebrar os 60 anos da saga: duas edições da Pocket StarCon, uma dedicada a Kirk e outra a Spock, realizadas em 24 de janeiro e em 11 de abril, ambas realizadas na Faculdade CTA, no bairro do Ipiranga, para cerca de 70 pessoas. (Uma terceira, que seria focada em McCoy, acabou cancelada.)

Foto de grupo dos participantes da StarCon Pocket Kirk, em janeiro de 2026. (Crédito: NovaFrota)

As principais atenções do fã-clube hoje são a publicação do histórico fanzine Diário de Bordo, editado por Navarro com Susana Alexandria, e a produção de vídeos para o canal do grupo no YouTube. Além disso, o grupo prestou apoio a iniciativas de terceiros voltadas para o público trekker, como na proposta vinda de George Takei para a convenção UCCONX – uma tentativa realizada em 2022 de criar uma grande concorrente da CCXP que acabou envolvida em uma série de polêmicas. George Takei, no fim, não veio (como aliás, aconteceu com várias outras atrações anunciadas, lembrando um pouco o fiasco da antiga Alien Megacon). Em vez disso, concedeu uma entrevista por teleconferência, que já foi reprisada diversas vezes em encontros do clube.

Outro empreendimento duvidoso apoiado pela NovaFrota foi uma campanha de financiamento coletivo promovida em 2025 para financiar uma série documental sobre o fandom de Star Trek no Brasil. O projeto chegou a prometer trazer Kate Mulgrew, a capitão Janeway, para um encontro com os fãs brasileiros. O dinheiro sumiu, e nem a série documental se materializou. Por fim, o fã-clube colaborou com a realização de um bate-papo durante o espetáculo Star Trek In Concert, promovido pela orquestra SP Pop’s Symphonic, no teatro B32, no Itaim, em São Paulo, em 4 de junho de 2026. Na ocasião, Navarro e Afonso anunciaram um rebranding do fã-clube, que a partir daquela data passou a se chamar Frota Brasil.

A orquestra SP Pop’s Symphony no Star Trek In Concert, em junho de 2026, no teatro B32, em São Paulo. (Crédito: Murilo Silva)

Agora as atenções do grupo se voltam para Las Vegas – Navarro e Afonso estarão presentes na grande convenção americana em celebração aos 60 anos de Star Trek e prometem realizar um novo evento no segundo semestre para contar a seus seguidores tudo que viram por lá. O fã-clube também pagará a viagem para um de seus afiliados – Susana Alexandria, ganhadora de um concurso de trivia promovido na Pocket StarCon Spock, será a felizarda.

Espalhados pelo Brasil, outros fã-clubes seguem em atividade, realizando também encontros de menor porte. Destacam-se, além dos já citados, os Star Trekkers, em São Paulo, e a Base Estelar Campinas, que mesclam atividades virtuais e presenciais.

Contudo, as grandes atrações voltadas a Star Trek aqui no Brasil, pós pandemia, ficaram mesmo por conta dos investimentos do Paramount+ na promoção de suas novas séries na gigante CCXP. Em dezembro de 2023, o streaming trouxe ao evento a showrunner Michelle Paradise e a atriz Sonequa Martin-Green para promover a quinta e última temporada de Discovery, que estrearia em abril do ano seguinte. As duas participaram de painéis nos palcos Thunder e Omelete, tiraram fotos no stand do Paramount+ e concederam entrevistas exclusivas, uma delas ao Trek Brasilis.

Sonequa Martin-Green e Michelle Paradise no palco Thunder da CCXP 23. (Crédito: Cleiby Trevisan)

Gustavo Gobbi, do Trek Brasilis, entrevista a dupla em visita ao Brasil. (Crédito: Babi Ferreira)

Fãs se aglomeram no stand do Paramount+ e imploram para tirar fotos com Sonequa Martin-Green. (Crédito: Gustavo Gobbi)

Em 2024, Star Trek passou em branco na CCXP, mas para dezembro de 2025 o Paramount+ mais uma vez voltaria à carga, com a vinda do prestigiado ator Paul Giamatti, um dos astros da então nova série da saga, Starfleet Academy, que estrearia em 15 de janeiro. Era uma das últimas cartadas de Kurtzman para tentar revitalizar a franquia e atrair o público jovem.

Paul Giamatti promove Starfleet Academy na CCXP 25. (Crédito: Paramount+)

O FIM DA TERCEIRA ERA
Depois do grande terremoto do streaming de 2022, passou a ser uma tarefa muito mais difícil ganhar luz verde para uma nova produção de Star Trek. Três das primeiras ideias que o produtor executivo cultivava desde o início da expansão das produções, lá pelos idos de 2018, só conseguiram sair do papel sofrendo muitas adaptações e permutações. A ideia de uma minissérie em três capítulos sobre Khan, escrita por Nicholas Meyer, acabou se transformando em uma (muito mais barata) minissérie em audiodrama, lançada só em 2025. O esforço para criar uma série baseada na misteriosa Seção 31, divisão de operações secretas da Federação, estrelada por Michelle Yeoh como a impiedosa imperatriz Georgiou, personagem introduzida na primeira temporada de Discovery, depois de quase entrar em produção e ser atropelada pela pandemia, acabou convertida em um telefilme, motivado basicamente pelo poder estelar de Yeoh, depois que ela ganhou um Oscar de Melhor Atriz por seu papel em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022). O filme Star Trek: Seção 31 foi lançado em janeiro de 2025 e foi muito mal recebido pelo público e pela crítica, naquela que talvez tenha sido a única unanimidade dentre as produções trekkers de Kurtzman – ninguém gostou.

O fillme que ninguém queria com a atriz que todo mundo gostava. (Crédito: Paramount+)

Por fim, a ideia de fazer uma série baseada na Academia da Frota Estelar era algo em que o produtor pensava havia muito tempo. Ele finalmente teve seu desejo atendido em março de 2023, quando o Paramount+ deu luz verde para a produção. As filmagens da primeira temporada se deram entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025, após a construção daquele que seria o maior cenário contínuo já construído para uma série de Star Trek, representando o átrio principal da USS Athena, construído nos Pinewood Studios, em Toronto. Antes mesmo que qualquer episódio fosse exibido, a CBS encomendou uma segunda temporada, filmada entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026. No Brasil, a dublagem mais uma vez ficaria a cargo da IDF/Grupo Macias, com um trio de vozes que salta aos ouvidos: Marli Bortoletto como Nahla Ake, Élcio Sodré como Nus Braka e Gabriel Noya como Kraag. As demais vozes também realizam um trabalho muito competente, sustentando a dublagem com solidez e coerência. Mas nada ali superaria o som ensurdecedor do mundo corporativo.

Marli Bortoletto

Élcio Sodré

Gabriel Noya

Em 2024, a ViacomCBS (então rebatizada novamente como Paramount Global) finalmente encontrava seu comprador: a Skydance Media, produtora de David Ellison que já havia cofinanciado alguns filmes da Paramount Pictures, dentre eles dois da cinessérie de Star Trek capitaneada por J.J. Abrams. Ellison tinha bolsos enormes, sendo filho de Larry Ellison, o dono da gigante de tecnologia Oracle. O acordo foi fechado e aprovado pelas autoridades em agosto de 2025, numa compra de US$ 8 bilhões. A partir dali, uma nova gestão assumiria todos os ramos da companhia, nublando o futuro, não só para Star Trek, mas também para outras propriedades intelectuais do estúdio. Ainda mais porque David Ellison havia então feito apenas o primeiro de seus agressivos movimentos nesse xadrez corporativo. O segundo, mais ousado e extravagante, viria em seguida: ele partiria para comprar a Warner, o que se concretizaria em fevereiro de 2026, pela bagatela de US$ 110,9 bilhões. Nessa, a nova Paramount Skydance bateu a oferta da Netflix, que também queria a companhia proprietária de marcas como Looney Tunes, todo o universo DC, Game of Thrones e Harry Potter, só para citar alguns gigantes.

Logo da Paramount Skydance estabelecido em 2025. (Crédito: Wikipedia Commons)

O plano de Ellison é ser um dos vencedores na árdua guerra dos streamings, consolidando Paramount+ e HBO Max em uma única plataforma, capaz de bater de frente com as outras três grandes do setor: Netflix, Prime Video e Disney+. O que será de Star Trek no contexto desse conglomerado agigantado, ainda não se sabe. A única sinalização mais ou menos clara é que a terceira era televisiva da franquia parece estar chegando ao fim. Starfleet Academy estreou sob forte bombardeio, envolvendo até mesmo críticas públicas de assessores do presidente Donald Trump, e foi a única das séries live-action produzidas por Kurtzman que fracassou em se colocar no top 10 dos índices de audiência Nielsen de séries de streaming. Mesmo com uma temporada inteira ainda por ser exibida, a CBS anunciou o cancelamento da série e promoveu uma série de leilões de objetos de cena, tanto de Starfleet Academy como de Strange New Worlds, desmontando os cenários e esvaziando os estúdios em Toronto.

Cenário de Starfleet Academy sendo desmontado após o cancelamento. (Crédito: Reprodução)

Além disso, o contrato de desenvolvimento de Kurtzman com a CBS expira em 2026, embora ele ainda tenha temporadas a entregar até 2027 (a quinta de Strange New Worlds e a segunda de Starfleet Academy), e a gestão da Paramount Skydance, embora não tenha apresentado qualquer plano concreto, diz que é uma das prioridades da companhia levar Star Trek de volta aos cinemas, algo que não acontece desde 2016. Apesar de toda a festa em torno dos 60 anos, o clima de fim de feira era indisfarçável. Ainda bem que os trekkers brasileiros teriam pelo menos um resgate importante no aniversário.

STXP
O Trek Brasilis sempre foi um site de notícias, não um organizador de eventos. Mas a frustração foi grande quando, pela segunda vez, a onda de convenções com atores de Star Trek morreu na praia, diante da pandemia, em 2020. Com a volta dos eventos trekkers, havia descrença geral de que fosse possível trazer astros da série para o Brasil, com um dólar mais caro e um público minguante. E era muito frustrante ver os fãs caindo em ciladas, como a “quase vinda” de George Takei e na “tá na cara que não vem” Kate Mulgrew, em proposições trepidantes como aquelas de 2022 e 2025. Mas o que se havia de fazer?

Isso mudou quando o perfil do site no Instagram foi contatado por Carlos Costa, do Cine LT3, pequena sala de cinema de rua no bairro das Perdizes, em São Paulo, sugerindo que o TB organizasse lá uma reunião de fãs. Da proposta modesta desses encontros, batizados de CineTrek, nasceria a ambição de realizar uma grande celebração dos 60 anos de Jornada nas Estrelas em 2026 – a primeira convenção realizada pelo Trek Brasilis, em seus quase 30 anos de existência. Nascia a STXP, com a ambição de restaurar a noção de convenção como oportunidade para ter contato próximo não só com outros fãs, mas com o fazer e viver Star Trek.

Público chegando ao primeiro TB CineTrek, realizado em julho de 2025. (Crédito: Lucia Racz)

A data escolhida foi 2 de maio de 2026, um sábado. O local, o Teatro Cásper Líbero, no histórico Edifício Gazeta, na Avenida Paulista, em São Paulo. A convidada de honra? Robin Curtis, que interpretou a vulcana Saavik em Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock e Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa. Ao pisar em solo brasileiro, ela se tornaria a primeira atriz da saga a visitar o país especialmente para uma convenção de fãs.

Robin Curtis no palco da STXP 26 (Crédito: Miguel Pini)

Plateia acompanha a energética apresentação de Curtis no Teatro Cásper Líbero, em São Paulo, para a STXP 26. (Crédito: Lucia Racz)

Cerca de 350 pessoas se reuniram naquele dia para recebê-la e festejar com ela os 60 anos de Star Trek. Entre autógrafos, fotos, conversas, lojinhas e exposições de arte, os fãs puderam comemorar sua paixão e reafirmar sua convicção de um futuro melhor, fundamento essencial da criação de Gene Roddenberry. Para terminar, Salvador Nogueira e Gustavo Gobbi anunciaram que haveria uma STXP 27. Com os olhos no amanhã, os fãs celebram as seis décadas dessa saga imortal, com a certeza de que a aventura de Jornada nas Estrelas está apenas começando. Que venham os próximos anos.

Continua…

Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual. Colaborou Salvador Nogueira.

Artigo anterior da série especial | Próximo artigo da série especial


Descubra mais sobre Trek Brasilis

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.