No Brasil, Doug Jones conta como é ser Saru 16 horas por dia

Ele é o primeiro kelpiano da Frota Estelar, e está no Brasil para ser a atração principal da StarCon, convenção internacional de Jornada nas Estrelas que será realizada pela NovaFrota neste sábado (2/02) em São Paulo (saiba mais e compre seu ingresso aqui). Doug Jones, o Saru de Star Trek: Discovery, conversou com jornalistas na tarde de quinta-feira (31/01) numa conferência de imprensa no hotel em que está hospedado, na capital paulista.

Muito expressivo, durante cerca de 1h30 o ator norte-americano mostrou toda a sua simpatia, sendo bem divertido e amável durante o bate-papo. Doug falou sobre a carreira, composta de personagens dos mais estranhos sempre com bastante maquiagem, sua proximidade com o famoso diretor Guillermo del Toro, e como é passar 16 horas por dia sendo o alienígena mais querido de Discovery.

Fotos da coletiva de imprensa: César Lima/TB

O Trek Brasilis quis saber de Doug Jones se ele vê um subtexto em Discovery que faz paralelos com a agenda política internacional, disfarçada de ficção científica, uma característica em Jornada nas Estrelas. “Eu não sou uma pessoa direcionada à política”, disse o ator, “sou um aventureiro espacial. Star Trek tem uma longa história em colocar discussões de assuntos controversos do momento em sua ficção. Se você quiser traçar um paralelo da vida real com a trama que mostramos em Discovery, com certeza você pode. Mas o que eu amo em Jornada é que muita coisa que parece ser um problema hoje já foi superado na época em que se passa nosso show (século 23). Nos relacionamos com todos sem se importar se são de outra cor, espécie, orientação sexual. Isso foi superado no futuro, não é mais problema, e eu amo que seja assim. E eu também amo que estamos seguindo com a tradição de Jornada implantada por Gene Roddenberry para a série, a de viver num ambiente em que podemos ser todos diferentes e nos respeitarmos totalmente, buscando os mesmos resultados juntos.”

Doug comentou sobre o processo de escrita da série. “Nossa sala de roteiristas é cheia de fãs de Star Trek que cresceram com ela, como todos nós fizemos. E temos também cientistas e especialistas diversos nos ajudando nos roteiros. A ciência é meticulosamente checada, e todos os scripts procuram respeitar o cânone o máximo possível. Eu sou um ignorante, eu apenas recebo o que escrevem para mim (risos), e muitas palavras que não conheço, sejam de ciência ou da história de Star Trek, mas eu vou atrás, eu pesquiso, eu estudo.”

A respeito de “The Brightest Star, episódio de Star Trek: Short Treks focado no passado de Saru, Jones explicou que, como primeiro kelpiano da Frota, teve de ser o professor para os demais atores do segmento. “Nele eu interpretei um Saru mais jovem, adolescente, e tive de ter uma postura mais humilde diante de meu pai, por exemplo. Usei minha própria experiência quando jovem, para isso. Todo mundo que quiser ser kelpiano agora tem que aprender comigo, pois como fui o primeiro da raça a aparecer na série, criei todo um gestual para eles, como se movem, como sentem, essas coisas.”

Divulgação CBS

“Primeiro que temos de nos acostumar com aquelas botas. São como usar salto alto, mas sem o salto lá! É um trabalho de equilíbrio (se levanta e mostra como Saru se movimenta). Coloco os meus braços para trás e os balanço. Foi um desafio para mim. Sou ator há 33 anos, e interpretei um monte de personagens esquisitos sob pesada maquiagem. Tenho de fazer cada um deles diferente do outro. As botas do Saru ajudaram bem nisso, e eu tento transferir aos novos atores que fazem kelpianos como realizar tudo. Mais da nossa raça, e também sobre o nosso predador, que vocês já viram um pouco nos Short Treks, irá aparecer em breve nesta segunda temporada de Discovery.”

Divulgação CBS

Perguntado como é o processo de transformação em Saru, Doug detalhou. “As peças demoraram meses para serem feitas num estúdio de Los Angeles, e foram mandadas para Toronto (Canadá), que é onde filmamos Discovery. É cerca de 1h30, todos os dias, o tempo para serem aplicadas em mim. O que é literalmente nada, se tratando de maquiagem com próteses. Mas eu as uso por 15 ou 16 horas quando estamos filmando, ou seja, estou preso em silicone e com luvas o dia todo. Não posso usar meu celular, não posso abrir um zíper, não é moleza. Então, eu procuro na minha mente meu lugar feliz para escapar disso (risos). E olha que ser o Saru é fácil. É máscara e luvas, o resto é coberto pelo uniforme da Frota Estelar.”

Doug em O Labirinto do Fauno. (Divulgação)

“O personagem que demorou mais tempo para eu me preparar na maquiagem foi o Abe Sapien, no primeiro filme do Hellboy (2004). Demorava sete horas por dia para eles colocarem todas as peças em mim, e duas horas para tirar tudo. O que mais gostei de interpretar foi o Fauno de O Labirinto do Fauno (2006), ele era lindo de se ver, um design único. No filme fiz o Homem Pálido também, que foi capa de várias revistas na época, e ganhamos o Oscar de Melhor Maquiagem pela obra. Em A Forma da Água (2017), o homem-anfíbio foi o personagem que mais tempo levou para ser desenvolvido, de todos que fiz. Ele tinha de ser uma criatura bonita, mas também sexy, pois iria atrair o sentimento de uma mulher humana. Eles tiveram de fazer lábios bem atraentes, e uma bunda perfeita para se pegar (risos). Ficou um homem-peixe bem sensual. Pena que no final do dia tive de tirar aquela bunda e devolver…”

“Guillermo del Toro é meu diretor preferido de se trabalhar. Ele mudou minha vida, é um profissional que ainda acredita na velha escola de se fazer as coisas, e ele ama filmes com monstros às antigas, apelando para a computação gráfica o mínimo possível. Se a criatura é muito grande, ou muito pequena, ele pode até usar o CGI, mas se tem o tamanho de um homem, ele prefere usar um ator com maquiagem, e geralmente o utilizado sou eu. Já fizemos sete projetos juntos até o momento, desde 1997. São mais de 20 anos de parceria, e Guillermo é um cara divertido de se ter por perto. É o artista mais genial e brilhante que já tive ao meu lado na vida, o cara é uma enciclopédia de arte. Ele assiste tudo, lê tudo, aprecia esculturas, pinturas… tudo!”

E qual o capitão que Jones prefere, Kirk ou Picard? “Eu amo os dois, como todos amam. Kirk, pelas questões nostálgicas. Ele foi nosso primeiro capitão. Eu nasci em 1960, e eu assisti Star Trek com minha família quando de sua primeira exibição, entre 1966 e 1969. Agora, pelo ator maravilhoso que é, eu adoro Picard, é claro. Patrick Stewart é um ator brilhante, e um cavalheiro. O conheci no ano passado, ele é incrível. Então é isso, amo os dois, cada um por seu motivo.”

“Nesta temporada veremos Ethan Peck como Spock. Ele é um Spock mais jovem, cerca de dez anos antes de o conhecermos em “Where No Man Has Gone Before“, o episódio-piloto da Série Clássica. Estou realmente proibido de falar mais sobre isso, mas aguardem uma grande interpretação de Spock, bem respeitosa ao legado de Leonard Nimoy”, comentou o ator.

Questionado sobre o #MeToo, movimento contra o assédio e a agressão sexual iniciado em Hollywood há algum tempo, Jones disse que era a pior pessoa para falar a respeito, pois é um “homem branco”. “Mas eu fico feliz por haver essa voz contra o assédio, contra o abuso, já era hora disso acontecer. Isso nunca aconteceu comigo, ninguém nunca assediaria isto aqui (risos). É uma relação muito dura quando algum poderoso de estúdio quer se aproveitar de uma jovem bonita, abusando de seu poder. Agora temos pessoas dizendo ‘isto é errado’ e se posicionando contra tudo isso, ainda bem.”

“Quando me convidaram para vir ao Brasil, eu não tinha ainda a dimensão que a StarCon seria toda em volta da minha pessoa. Fiquei muito honrado em saber que criaram esse evento tão especial e eu sou a atração principal. Fui muito bem recebido por todos desde que pisei neste lindo país, e tenho já há meses acompanhado a empolgação dos fãs em minhas redes sociais, sempre tem gente daqui escrevendo lindas palavras em meus posts. Eu vou lá ver e é brasileiro. Sou muito feliz pelo convite e por estar aqui com todos vocês, e com os fãs neste sábado. Eu sou uma pessoa de abraçar e beijar, e percebo que os brasileiros também são assim. E aqui ainda conheci minha voz em português (o dublador Fábio Moura).”

Dublagem – Dois representantes da equipe que dubla Discovery para a língua portuguesa estavam na coletiva de imprensa. Fábio Moura, que faz o Saru, e Diego Lima, diretor da dublagem e intérprete brasileiro de Ash Tyler (Shazad Latif). “No meu trabalho fazendo a voz do Doug em português, eu sempre tento ir como mostrado na tela, procuro seguir o máximo do original. Geralmente eu vejo apenas as partes do episódio em que Saru aparece, não tenho uma visão completa do capítulo. Mas o diretor tem”, contou Fábio Moura.

Fábio Moura, o dublador de Doug Jones no Brasil.

“Não é muito fácil adaptar Star Trek. Temos de usar as traduções consagradas pelos trabalhos passados nas séries anteriores, a terminologia correta. Para isso temos alguns consultores. A estrutura do inglês em relação ao português muda muito, e nós tentamos adaptar, sempre respeitando as características de cada ator em tela. Às vezes temos de fazer alguma escolha para a tradução soar mais orgânica, facilitando a compreensão para o espectador brasileiro. para isso, contamos com uma equipe enorme, de tradutores, revisores, e dubladores”, completou Diego Lima.

Doug Jones revelou que costumeiramente dubla a si próprio no original em inglês, para corrigir o som da voz que sai quando ele fala com a máscara de Saru. “As narinas do personagem são quase nas laterais, tiveram de fazer túneis dentro da máscara para que eu pudesse respirar. O som da voz às vezes sai muito anasalado, mas corrigimos isso com eu dublando por cima, depois.”

Coletiva de imprensa: Salvador Nogueira (em pé), Diego Lima, Luiz Navarro, Fábio Moura, Doug Jones e Marcos Kleine.

Evento inédito – Luiz Navarro é o presidente do fã-clube NovaFrota, e comentou sobre a vinda de mais um ator de Star Trek ao Brasil. É o quinto nome a vir para o país pelas mãos do clube (os três primeiros, George Takei, Walter Koenig, e Leonard Nimoy, foram trazidos para convenções quando o clube se chamava Frota Estelar Brasil; em 2018, já como NovaFrota, foi a vez de René Auberjonois). “Quem trouxe esses atores na verdade foram os fãs, que acreditam no trabalho do clube e viabilizam todo o processo, com sua boa vontade, divulgação, amor pela série e todo o apoio que dão para a gente. Nós realizamos os trâmites com nossos contatos em Hollywood, mas é um trabalho em conjunto com os trekkers brasileiros.”

“A diferença desta StarCon para os eventos anteriores é que, pela primeira vez, temos aqui um ator que está atualmente trabalhando numa série de Jornada que está no ar. Isso é algo inédito no Brasil e por si só espetacular, é o equivalente a trazermos Leonard Nimoy a São Paulo durante o segundo ano da Série Clássica, em 1967″, comparou o presidente.

Também integrante da equipe da NovaFrota, o músico Marcos Kleine falou sobre o show da sua Banda PAD, que irá abrir a StarCon neste sábado. “Não quero revelar as surpresas, mas posso adiantar que teremos um versão do tema de Discovery no rock, além de músicas da PAD e os temas clássicos de Jornada numa roupagem toda especial. Mais uma vez estamos empolgados pois faremos um show completo, com todos os integrantes da banda, num evento tão especial e para pessoas tão queridas, os fãs de Star Trek, grupo de que faço parte também.”

Serviço – A StarCon – Os Mundos de Doug Jones será neste sábado, dia 2 de fevereiro, no Teatro Eva Wilma, no Bairro Tatuapé em São Paulo. Para programação completa, instruções de como chegar ao local e venda de ingressos, visite starcon.novafrotabr.com. Lá, o interessado pode ainda adquirir vouchers para foto exclusiva com Doug Jones, e autógrafo do ator.

Doug Jones posa ao lado do Saru brasileiro. Thiago Maldonado (Diário do Capitão) aproveitou o evento para mostrar todo o seu carinho pelo personagem de Discovery.

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