DS9 2×19: Blood Oath

Dax brilha como nunca e klingons da Série Clássica ganham nova roupagem

Sinopse

Data estelar: desconhecida.

Um klingon bêbado, de nome Kor, cria uma tremenda confusão em uma das holosuítes de Quark e acaba sendo detido por Odo. Seu estado é tão ruim que mesmo o seu companheiro, um klingon de nome Koloth, se recusa a tirá-lo de lá. Na manhã seguinte, Jadzia descobre sobre o ocorrido e pede a liberação de Kor, sob sua custódia. Acontece que Curzon Dax foi um grande amigo de Kor, de Koloth e do terceiro recém-chegado, Kang, que anuncia ter encontrado o santuário do infame Albino e que eles irão atacar o lugar em breve.

À medida que explicações são dadas, descobrimos que Curzon Dax foi muito ligado a esses três guerreiros e em particular a Kang, cujo filho foi morto por um inimigo traiçoeiro mais de 80 anos atrás — o tal Albino. Curzon era o padrinho do filho de Kang, que ganhou o nome Dax em homenagem ao trill. Após o assassinato, os quatro juraram vingança contra o Albino.

Jadzia Dax encontra-se em meio a um difícil dilema moral, dividida entre os valores da Federação e a lealdade a esses klingons. Com dificuldade mesmo de convencer os três de que ela é, de fato, Dax, Kang acaba liberando-a do juramento e diz que cada hospedeiro deve ter uma vida própria e não ficar pagando velhas dívidas eternamente.

Jadzia continua inquieta e conversa com Kira sobre o ato de tirar a vida de alguém. A major lhe oferece um conselho similar ao dado por Kang, mas Dax diz que deve isso tanto aos klingons quanto a Curzon. Mas ela tem de convencer os klingons a deixá-la ir com eles primeiro.

Kor não tem maiores objeções e Koloth é convencido, após um duelo de bat’leth. Kang, porém, continua decidido e a proíbe de ir com eles. Em uma última tentativa, Dax usa uma estratégia que Curzon utilizou uma vez contra Kang, na mesa de negociações. Isso funciona novamente: o klingon acaba enfurecido, porém permite a ida da trill na missão. Ben Sisko ainda tenta persuadi-la a não ir, mas ela está decidida e diz que vai arcar com as consequência disso quando (e se) voltar.

Na viagem rumo ao planeta do Albino, em uma ave de rapina klingon, o plano proposto por Kang, de um assalto direto, parece mais uma tentativa de suicídio para Jadzia. Depois, Kang acaba por confessar que combinou com o Albino uma situação em que eles fariam um ataque frontal contra uma força maior que a deles, na base de 10 para 1. Por isso, Kang não queria que ela fosse: ele apenas combinou uma morte heroica, visto que a fortaleza é intransponível e que todos já estavam muito cansados daquela caçada de mais de 80 anos. Dax oferece um plano para fazer com que os fêiseres dos guardas do Albino não funcionem, com o que Kang concorda.

A estratégia da trill surte efeito, uma distração na sala de armamentos da fortaleza e o corte dos seus sensores deixam o albino às cegas e sem fêiseres. Os quatro cortam seu caminho, na base da bat’leth, até a câmara principal do Albino, onde uma batalha mortal se realiza. Koloth morre e Kor fica muito ferido (mas vivo). Em um combate com o Albino, Kang também cai mortalmente ferido e fica a cargo de Jadzia matar ou não o inimigo. Ela hesita, mas o Albino cai, pois Kang, em um esforço final, usa sua faca e agradece Jadzia por ter guardado o último golpe pra ele. Ele diz que aquele era, de fato, um bom dia pra morrer e assim o faz, ao que ela responde que nunca é um bom dia para perder um amigo. Jadzia volta à estação e, no OPS, encara, sem palavras, seus dois oficiais superiores e volta ao trabalho.

Comentários

Sem dúvida, a melhor coisa desde “Whispers“, este épico klingon nos oferece o melhor momento de Jadzia Dax e de Terry Farrell (sendo “Rejoined“, da quarta temporada, ainda um forte rival nesse ponto) em toda a série. Aqui, temos diálogos memoráveis, atuações absolutamente perfeitas de todos os envolvidos (talvez o único elo mais fraco tenha sido Campbell) e uma execução absolutamente fantástica sob a competente batuta de Kolbe. Uma excelente, divertida e contagiante hora de televisão. Saiba o porquê, sem a necessidade de cumprir nenhum juramento de sangue no processo, nos comentários abaixo.

Antes de uma análise propriamente dita, dois pontos razoavelmente delicados devem ser discutidos. O primeiro trata da possibilidade de que os três klingons apresentados na série original (Kor, Koloth e Kang), tivessem laços de amizade tão estreitos como os descritos aqui. De fato, não existe nada canônico que possa substanciar tal relacionamento, mas, levando em conta o elevado “cool factor” (e o associado potencial de publicidade) por termos essas famosas figuras em vez de alguns desconhecidos “klingons da semana”, isso é facilmente perdoável e compreensível. Sem maiores problemas.

(A introdução da amizade de Curzon com esse trio faz extremo sentido, levando em conta a carreira diplomática do trill. De fato, mais tarde, seria confirmado durante a série que Curzon foi um dos principais responsáveis pelo estabelecimento do acordo de Kithomer, de novo, de forma consistente com este episódio.)

 

O segundo trata da difícil conexão entre os klingons da série original de Jornada e os klingons da Nova Geração e além. Aqui, não se trata simplesmente de maquiagem, mas sim da própria caracterização da raça. De alguma forma, e em algum momento, antes do início da Nova Geração (para acomodar o personagem Worf?), os klingons, incialmente vilões caricatos, meio que trocaram de caracterização com os até então nobres romulanos (como vistos em “Balance Of Terror” e “The Enterprise Incident“, ambos da Série Clássica).

Por isso, fica muito difícil tentar estabelecer algum tipo de conexão entre os três klingons deste episódio e suas versões do passado. O mais prático é simplesmente não tentar fazê-lo e aceitar tais personagens como dados e extrapolar sua presente caracterização para o passado. Passando por esses detalhes espinhosos, o resto é tranquilo.

A trama é direta e simples. Mesmo a revelação do acordo de Kang com o Albino chega sem surpresa. O que importa é que a história brotava sempre, em toda cena, dos personagens. É assim que se escreve televisão. Pequenos detalhes do estilo de Fields se fazem presentes no roteiro, como, por exemplo, introduzir brevemente (e antecipadamente) um elemento que será explicado de forma completa mais tarde. O final do episódio é muito interessante, por colocar lado a lado uma “gloriosa batalha épica” e uma sutil mensagem contra a violência — grande trabalho de Fields em geral.

(Um bom ponto também é que o Albino não perdeu a luta por estupidez. Ele percebeu rapidamente o que estava acontecendo e iniciou uma estratégia de emergência bem rápido. Para seu azar, os três klingons e Dax foram MAIS rápidos.)

Proporcionalmente, Koloth foi o mais bem tratado de todos, se levarmos em conta que, em “The Trouble With Tribbles“, ele foi pouco mais que um bufão, servindo de alívio cômico o tempo todo. Sua rigidez, talvez, não se encaixe tão bem em um klingon típico, mas é, até certo ponto, aceitável, apesar de ser, de longe, o menos interessante dos três.

Kor foi o mais divertido (e com o maior valor de entretenimento agregado) dos três. Aparentemente, também aquele com menos atenção para tradições ou ética. Ele não estava muito interessado nos termos exatos do juramento de sangue, ele queria simplesmente se vingar e tomar um porre depois.

Kang foi, de longe, o mais nobre do trio, mesmo levando em conta sua “quase traição”.

Foi (provavelmente) o melhor episódio de Dax em toda série e fez total sentido, principalmente devido aos preciosos elementos de caracterização introduzidos em episódios passados, especialmente em “Playing God“. Talvez o ponto alto da sua interação com os klingons tenha sido a constatação do fato de que, em seu coração, as palavras de honra klingon cabiam com exatidão, o que não era verdade quando elas saíam de sua boca. Projetar tal noção e, ao mesmo tempo, apresentar uma frustração controlada com a situação, por não conseguir ser totalmente convincente em suas palavras como queria e como já havia sido em outra vida, foi um trabalho brilhante de Farrell.

Ao final, ela se mostrou digna de seu juramento, além de qualquer dúvida. Ela teve que convencer Kor que, aos olhos dela, ele foi, é e sempre será um herói. Ela teve que convencer Koloth que possuía a força e a habilidade suficientes para acompanhá-los em sua missão. Já Kang teve de ser convencido de que o desejo de Dax e a necessidade dela de estar envolvida na missão eram realmente fortes e sinceros.

A cena entre Kira e Dax foi o ponto alto do episódio — e talvez a mais intensa cena entre as duas em toda a série –, incluindo o eco da pergunta (a Kira) — “Quantos cardassianos você já matou?”, do episódio “Duet“, da primeira temporada — e o “Quem? Eu?”, de Dax, literalmente clamando por ser levada a um canto e ser ouvida. A amizade entre Jadzia e Ben Sisko, já devidamente estabelecida em “Playing God“, assume aqui um patamar ainda mais elevado, em mais uma potente cena. A cena final, sem palavras, no OPS (com Dax, Kira e Sisko) foi espetacular.

(Na conversa entre Kira e Dax, temos, pela primeira vez, mencionado o “tabu de reassociação” trill, que indica que toda nova vida de um trill associado tem de ser uma NOVA vida. Tal tabu seria tema do episódio “Rejoined“, da quarta temporada.)

A direção de Kolbe foi realmente espetacular, desde a inteligente forma de introduzir Kor, no começo do episódio, até as excelentes cenas de ação ao final (com boa música de McCarthy e coreografias de Madalone e Curry). Mas a cena que desponta como a mais importante do episódio foi a entre Dax e Kira, com uma verdadeira “aula de closes” e uma iluminação particularmente inspirada. Talvez um ponto negativo seja a falta de um close na face de Kang na hora de sua morte (mas que pode ser perdoado, pois tínhamos exatamente Dax, em primeiro plano, lamentando o ocorrido).

(A cena da derrota inicial de Kang, frente ao Albino, merecia um pouco mais de esforço. Os envolvidos poderiam ter buscado uma melhor solução do que ter Kang espatifando sua bat’leth contra uma estátua.)

As atuações de Shimerman, Auberjonois, Brooks e Visitor (especialmente) foram perfeitas, mas o episódio é, definitivamente (dentre os regulares), de Farrell e ela não decepcionou, nos oferecendo provavelmente o seu melhor trabalho em toda a série.

As cenas iniciais entre Odo e Quark funcionaram de forma maravilhosa, a melhor coisa da dupla desde a “trilogia do Círculo”, que abriu a segunda temporada. As caras que Odo faz neste episódio, “comentando a natureza klingon”, são antológicas.

Quanto às três grandes estrelas do episódio, Campbell decepcionou um pouco, mesmo se esforçando um bocado para não fazer feio lado a lado com Ansara e Colicos (o que acabou o levando a uma atuação um pouco rígida demais). Seu Koloth jamais ganhou vida totalmente, como poderia e deveria. Colicos é simplesmente um prazer de se assistir (é difícil de acreditar que alguém não admire o seu talento!) e sua vivência shakespeareana é tanta que até bula de remédio sai de forma inspirada de sua boca. O que não se dirá de um material tão bom como o apresentado por este roteiro. Ansara foi particularmente memorável, com uma presença e uma voz retumbante, capaz de fazer tremer as paredes de qualquer fortaleza. Bolender foi uma grata surpresa como o Albino e Collins não comprometeu.

O assistente do Albino pode ser visto como um dos “associados de negócios” de Quark em “The Passenger“, da primeira temporada. Se, de fato, o mesmo ator com a mesma maquiagem foi proposital para indicar o mesmo personagem, isso não se sabe. Se foi, apresenta uma nova perspectiva sobre a rede de informações do Albino.

Temos que lamentar que Dax não teve, de fato, que escolher entre matar o Albino ou não.

Aparentemente, as aves de rapina ficaram mais automatizadas: apenas quatro pessoas dão conta tranquilamente de sua operação.

Outro grave problema: por mais que as cenas entre Sisko e Dax, Kira e Dax e o final, do tipo “palavras não são necessárias”, funcionem todas espetacularmente, a falta de uma revisita imediata a esses temas em episódios seguintes faz muita falta (assim como fez falta uma imediata continuação seguindo os eventos ao final do episódio “Necessary Evil“, entre Odo e Kira). Como sempre, devemos descontar esse tipo de problema na conta da série como um todo. Mas que incomoda, incomoda.

(Existe uma breve referência — em uma fala de Dax para Ben Sisko  aos eventos deste episódio em “For The Uniform“, da quinta temporada, também escrito por Fields.)

Blood Oath” coloca três famosos klingons em um contexto épico, em que essa raça é imbatível, juntamente com um símbolo de perenidade e nobreza, personificado pelo simbionte Dax, que completa de forma perfeita o significado de tal missão. O episódio traz finalmente à vida a Jadzia que aprendemos a admirar no restante da série e atinge (graças ao talento de Fields) níveis outros, além do enfocado na jornada épica do primeiro plano da narrativa. Uma excelente hora de televisão.

Avaliação

Citações

When you take someone’s life, you lose a part of your own as well.
(Quando você tira a vida de alguém, perde parte da sua também.)
Kira

It’s brutal, it’s violent, it’s bloody. But to the Klingons it’s entertainment.”
(É brutal, é violento, é sangrento. Mas para os klingons é entretenimento..)
Quark

Trivia

  •  Participação de John Colicos, como Kor. Participação de William Campbell, como Koloth. Participação de Michael Ansara, como Kang.
  • Aparentemente, Kor encontrou Curzon Dax pela primeira vez em torno de 2289, o que coloca o encontro deles entre os filmes V e VI de Jornada.
  • Curzon Dax foi o padrinho de Dax (assim chamado em sua honra), filho de Kang. Curzon Dax foi um GRANDE diplomata (condecorado diversas vezes), considerado por Kang como o primeiro diplomata a realmente entender a “alma klingon”.

Ficha Técnica

História de Andrea Moore Alton
Roteiro de Peter Allan Fields
Dirigido por Winrich Kolbe

Exibido em 28 de março de 1994

Título em português: “Juramento de Sangue”.

Elenco

Avery Brooks como Benjamin Lafayette Sisko
René Auberjonois como Odo
Nana Visitor como Kira Nerys
Colm Meaney como Miles Edward O’Brien
Siddig El Fadil como Julian Subatoi Bashir
Armin Shimerman como Quark
Terry Farrell como Jadzia Dax
Cirroc Lofton como Jake Sisko

Elenco convidado

John Colicos como Kor
Michael Ansara como Kang
William Campbell como Koloth
Bill Bolender como o Albino
Christopher Collins como assistente do Albino

Balde do Odo

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Edição de Muryllo Von Grol
Revisão de Nívea Doria

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