TOS 2×05: The Apple

De boas intenções o paraíso está cheio

Sinopse

Data estelar: 3451.9.

Kirk  lidera uma equipe em uma expedição a um planeta que parece ser um paraíso tropical no sistema Gamma Trianguli VI, entretanto ocorrências desastrosas começam a acontecer, como o surgimento de plantas venenosas, explosões inexplicáveis e mudanças climáticas imprevisíveis, matando os homens da tripulação, um a um. Ao mesmo tempo, a Enterprise, em órbita, começa a sofrer uma estranha perda de potência que Scotty não consegue explicar. Ainda assim, o grupo fica em terra conduzindo as pesquisas de superfície. Eles percebem que estão sendo observados, mas não conseguem identificar por quem.


Pouco tempo depois, Scott informa que a situação na Enterprise vai piorando, deixando Kirk preocupado. O engenheiro afirma ter identificado algum tipo de feixe de energia vindo da superfície em direção à nave, mas não consegue definir exatamente como. Pouco tempo depois, Spock á atingido por espinhos venenosos ao se colocar na frente de Kirk quando uma das plantas tenta atacá-lo.

Kirk decide voltar, mas o transporte não consegue tirar o grupo do planeta, deixando o grupo ilhado. Apesar disso, Spock volta a si e o capitão decide tentar descobrir o que está interferindo com o funcionamento da Enterprise, porém mais duas mortes acontecem, deixando Kirk transtornado.

Nessa hora, Spock percebe que o observador oculto está de volta. Eles criam uma distração e conseguem surpreender o observador, que descobrem se chamar Akuta, o sacerdote de Vaal. Segundo Akuta, Vaal é uma espécie de deus, que controla tudo no planeta e prove os recursos necessários à existência de seu povo. Akuta tem aparelhos implantados que permitem que Vaal se comunique com as pessoas através dele.

A condição da Enterprise se deteriora, sem que Scott possa fazer nada para interromper a perda de energia, o que fará com que a Enterprise caia no planeta em dezesseis horas, tornando ainda mais urgente encontrar o que quer que esteja causando o fenômeno.  Akuta concorda em levar o grupo até Vaal e eles descobrem que este é uma máquina provavelmente alienígena. O mecanismo, que se encontra cercado por algum tipo de campo de força, parece ser a causa dos problemas da Enterprise, sendo capaz de transformar a matéria das oferendas trazidas pelo povo do planeta na energia da qual se alimenta.
Uma vez que a condição não permitia nenhuma ação de momento, o grupo se retira para a aldeia do povo de Vaal. Lá, eles começam a descobrir que eles vivem como marionetes. Eles são protegidos por Vaal, que trata de prover todas as necessidades das pessoas, porém controlando tudo na planeta, desde prevenção de doenças até variáveis ambientais, impedindo, inclusive, o contato físico entre eles.

Enquanto aguardam uma chance para agir, o grupo da Frota Estelar inicia um debate sobre a forma como Vaal controla aquelas pessoas. Com a situação da nave cada vez pior, Kirk está disposto a destruir Vaal, mesmo que isso custe interferir na vida dos habitantes locais.

Pouco tempo depois, um casal nativo assiste Chekov e a ordenança Martha se beijarem e, embora achem estranho, experimentam fazer o mesmo. A experiência não passa desapercebida por Akuta — e, por extensão, por Vaal — que decide que o grupo da Enterprise deve morrer. Vaal fornece o conhecimento aos nativos para executar a tarefa, mas eles falham, embora tenham causado mais uma baixa no grupo avançado.

Scott realiza uma última tentativa de salvar a nave, mas falha. Então, Kirk ordena que ele dispare os fêiseres contra Vaal, que parece enfraquecido. O ataque tem sucesso e Vaal é destruído. Os nativos se mostram totalmente desorientados com a nova situação, mas Kirk os encoraja e coloca a Frota Estelar à disposição para ajudá-los. Após a conclusão dos reparos, o grupo deixa o planeta e a Enterprise segue seu caminho.

Comentários

Desde seu início, Jornada nas Estrelas sempre propôs a discussão sobre a relação homem x máquina, trazendo para o seu público episódios que tentaram discutir a mecanização do ser humano na sociedade. Passados mais de cinquenta anos e com o tema da inteligência artificial batendo à porta no início do século 21, essa discussão se mostra relevante e necessária.

E a Série Clássica fez isso muito bem em segmentos como “What Are Little Girls Made Of?”, “The Return of the Archons” e “A Taste of Armageddon” e ainda voltaria a fazê-lo ao longo de sua existência. Infelizmente, “The Apple”, cujo argumento lembra vagamente o citado “The Return of the Archons”, não é o caso e acaba se convertendo apenas em um episódio desajeitado — para dizer o mínimo.

Dessa vez, o roteiro não pretende substituir o homem pela máquina, mas inverte seus papéis, mostrando uma sociedade cujo único objetivo é justamente servir a uma máquina. Essa proposta pode parecer interessante, do ponto de vista de ideia para contar uma história, mas aqui ela foi, no mínimo, mal executada, criando um segmento repetitivo, não só na história que pretende contar, mas também em sua execução e, por isso, mesmo cansativo.

É fácil perceber pelo título do episódio, pela constante referência ao planeta visitado e pela piada final envolvendo as orelhas de Spock que o roteiro tenta, de alguma forma, criar uma alegoria com o tema bíblico da expulsão do paraíso, mas tal analogia não funciona, por vários motivos.

Primeiro, a dificuldade técnica de estabelecer Gamma Trianguli VI como esse paraíso, por mais que haja o esforço para preencher o cenário com plantas, árvores, flores e tudo o que fosse possível. Ainda assim, não há como disfarçar a artificialidade do se vê em tela, deixando a audiência com nada mais do que uma sensação de coisas demais em um espaço apertado. Se, por um lado, seria desafiador gravar um episódio como esses em externas devido à dificuldade de controlar as condições climáticas, essa escolha sacrificou a credibilidade da proposta.

Segundo, desde a chegada da equipe da Enterprise ao planeta em questão nada de importante realmente acontece, restando apenas o sacrifício de nada menos que quatro red shirts, que são transportados apenas para morrer, cada um da forma mais estúpida e vazia o possível, sem que isso tenha real importância para a história.

Por outro lado, retiradas essas mortes estúpidas sobra muito pouco desse roteiro, que é incapaz de produzir algum interesse real, tanto no que acontece em terra como nos eventos a bordo da Enterprise, onde também se usa uma repetida fórmula para criar alguma dificuldade que faça a nave parecer estar em perigo e incapaz de dar suporte à equipe de Terra, algo que também já foi mais bem utilizado na série algumas vezes.

Chegamos a Vaal, a máquina que controla a população do planeta. Dotado de imenso poder (a ponto de poder subjugar a Enterprise enquanto controla os eventos na superfície do planeta), ele parece existir sem nenhum propósito. Passamos por todo o episódio e chegamos ao seu final sem saber quem o construiu, por que motivo, com qual propósito. Se, no episódio que mais se assemelha a este, “The Returno off The Archons”, Landru existe com a premissa de ser uma espécie de guardião, aqui isso não fica claro. Vaal apenas existe e as pessoas existem para alimentá-lo, o que se mostra uma dinâmica muito pobre enquanto narrativa.

E nem vamos chegar ao ponto de discutir aspectos como a eficiência de Vaal, que consegue, a partir de alguns vegetais frescos, criar energia para dar conta de todas as tarefas das quais a máquina é capaz, bem como por que Vaal simplesmente não deixou que a equipe da Enterprise fosse embora, talvez a impedindo de voltar posteriormente, se fosse necessário.  Podemos adicionar à coleção de problemas as piadas que aqui não funcionam como pretendido, a forma infantiloide como o enredo retrata o interesse amoroso de Chekok e da ordenança Martha Landon durante uma missão e muito mais.

Em favor do episódio, com boa vontade, podemos reconhecer uma tentativa — ao mesmo tempo óbvia e superficial — de discussão das ações pelo prisma da Primeira Diretriz.  Ao longo do segmento, Spock aponta essa questão a Kirk, mas tal ação é feita de forma muito pontual, resultando em pouco suporte para tornar tais momentos realmente importantes.

Talvez algo possa ser tirado da discussão entre Spock e McCoy sobre a forma como Vaal controla os habitantes do planeta e como isso afeta seu desenvolvimento, mas o debate filosófico entre os dois não consegue alcançar amplitude suficiente para dar alguma sustentação ao segmento. Afinal, teria mesmo Kirk o direito de interferir na forma como aquela sociedade funcionava? Afinal, apesar da servidão, o os seguidores de Vaal era bem tratados, não conheciam a fome, a doença, o ódio, a inveja, até que nossos heróis colonizadores chegam para impor sua própria verdade, seu julgamento do que é certo ou errado, impondo a essa população o seu estilo de vida e seu progresso tecnológico.

Se juntarmos os cacos, ligando a ostensiva menção ao planeta visitado como um paraíso, o formato de serpente do que podemos ver de Vaal e o momento final, em que Spock tenta sutilmente comparar Kirk ao diabo, sem muito sucesso, podemos perceber um pouco do que esse episódio teria pretendido discutir. Algo que, no final, não passa de uma piada tão fraca quanto o restante do segmento, que, em momento algum, se debruça de forma eficiente sobre as temáticas que parece querer propor.

Um breve mérito em um episódio cheio de problemas é o fato de a ordenança demonstrar capacidade de se defender sozinha quando necessário, algo digno de mérito para uma série criada no final dos anos sessenta, quando as mulheres ainda eram vistas em outras produções como meros detalhes estéticos. Uma pena que isso esteja perdido em um episódio tão problemático.

Nesse cenário, nada se salva, nem mesmo as atuações dos personagens principais, que, mesmo com todo seu carisma, não conseguem fazer muito para salvar essa maçã pouco saudável. Kirk irreconhecivelmente hesitante, McCoy mal aproveitado, Scott se esforçando, sem muito sucesso, para passar alguma credibilidade durante a encrenca a bordo sucesso e Spock numa atuação distante dos melhores dias de Nimoy.  E com um destaque não muito positivo para o personagem de Walter Koenig.

Curiosamente, Akuta, vivido por Keith Andes, até que consegue ser sair relativamente bem. A cena em que ele cai no choro após apanhar de Kirk consegue causar comoção, principalmente pelo porte físico do ator, que consegue transmitir a ingenuidade que o personagem precisa mostrar.

Enfim, “The Apple” propõe demais e não realizar quase nada. O tema (ou temas) que poderia(m) ser tratado(s) aqui é (são) levados de forma ingênua e superficial e, no fim do episódio, ficamos apenas com a sensação de tempo perdido.

Temas recorrentes são comuns a quem acompanha a série, mas o excesso aqui agrupado em período tão curto e de forma pouco imaginativa cobra seu preço. Uma produção — ainda que esforçada, mas que não alcança êxito — cheia de situações forçadas em uma trama mal elaborada e mal conduzida, fazem um estrago enorme na tentativa desse enredo de criar algo que funcione minimamente como entretenimento, fazendo “The Apple” um episódio descartável.

Avaliação

Citações

“Doctor McCoy’s potion is acting like all his potions — turning my stomach. Other than that, I am quite well.”
(“A poção do Doutor McCoy está agindo como todas as poções: revirando meu estomago. Fora isso, eu estou bem.”)
Spock

“There are certain absolutes, Mister Spock, and one of them is the right of humanoids to a free and unchained environment. The right to have conditions which permit growth.”
(“Há certos determinantes absolutos, senhor Spock, e um deles é o direito dos humanoides a um ambiente livre e não acorrentado. O direito a ter condições que permitam o crescimento.”)
McCoy

“Discard the warp drive nacelles if you have to and crack out of there with the main section but get that ship out of there.”
(“Solte as naceles de dobra, se precisar, e arranque fora a seção principal, mas tire a minha nave daqui.”)
Kirk

Trivia

  • Esse episódio marca o início da maldição dos red shirts, com suas quatro mortes ridículas
  • O roteiro original deste episódio mencionava a separação de disco de emergência. No entanto, devido ao orçamento, o efeito foi apenas mencionado, mas não visto, algo que só seria realizado no episódio piloto de TNG, “Encounter at Farpoint”.
  • David Soul, que fez o papel de Mekora, viria a se tornar um dos protagonistas da série Starsky e Hutch, conhecida no Brasil como Starsky & Hutch – Justiça em Dobro, exibida pela ABC entre 30 de abril de 1975 e 15 de maio de 1979 e no Brasil nos anos 70 pela rede Bandeirantes.
  • Soul também participou da série de TV Here Come the Brides (1968-1970), conhecida no Brasil como E as Noivas Chegaram, baseada no filme Sete Noivas para Sete Irmãos, no qual contracenou com Mark Lenard.

Ficha Técnica

História de Max Ehrlich
Roteiro de Max Ehrlich e Gene L. Coon
Dirigido por Joseph Pevney

Exibido em 13  de outubro de de 1967

Título em português: “Fruto Proibido” (AIC-SP), “Fruto Proibido” (VTI-Rio)

Elenco

William Shatner como James Tiberius Kirk
Leonard Nimoy como  Spock
DeForest Kelley  como Leonard H. McCoy
James Doohan  como Montgomery Scott
Walter Koenig como Pavel Chekov
Celeste Yarnall como Martha Landon

Elenco convidado

Keith Andes como Akuta
David Soul como Makora
Shari Nims como Sayana
Jay Jones como Mallory
Jerry Daniels como Marple
John Winston como Kyle
Mal Friedman como Hendorff

Revisitando

Enquete

Edição de Carlos H B Santos
Revisão de Nívea Doria

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