O último dia de gravações de Jornada nas Estrelas nos Estados Unidos foi 9 de janeiro de 1969. Em março daquele ano, antes mesmo que a rede NBC exibisse o derradeiro episódio da série, “Turnabout Intruder”, a Paramount já fazia publicidade da venda da série em syndication – em que os episódios eram comercializados e veiculados não em rede, mas por emissoras locais de TV. Com efeito, o estúdio tinha um acordo com a distribuidora Kaiser Broadcasting desde a primeira temporada, que já naquele momento avaliava que o programa poderia ter nova vida nesse regime de distribuição.
Contudo, ninguém poderia esperar o que aconteceria. Mesmo tendo apenas três temporadas e 79 episódios (um pouco aquém do desejado para syndication), o programa “fracassado” e rejeitado pela NBC viu uma explosão de interesse, a ponto de, em 1972, a agência de notícias Associated Press descrevê-lo como “a série que não morre”, naquele ponto sendo exibida em mais de cem cidades americanas e em 60 outros países – dentre os quais, claro, o Brasil. No começo daquele ano, ocorreria em Nova York a primeira convenção de fãs totalmente dedicada a Star Trek, que contou com público superior a 3 mil pessoas.

Logo da Filmation em 1983, na época de seus maiores sucessos.
Grande erro da NBC (classificado pela revista TV Guide em 2011 como um dos maiores da história da televisão americana) que a rede tentou por anos retificar trazendo o programa de volta com novos episódios. Contudo, o custo de reconstruir todos os cenários e recomeçar tudo do zero era proibitivo. A solução encontrada foi recriar o programa em animação. Gene Roddenberry foi trazido para supervisionar a produção, a ser realizada pelo estúdio Filmation, de Lou Scheimer e Norm Prescott, então já responsável por algumas séries animadas de sucesso no ramo dos super-heróis, mas cujo maior hit ainda estaria à frente, na década de 1980, com as animações He-Man e She-Ra. A roteirista D.C. Fontana, egressa da série original, seria a produtora associada, responsável pela escolha e forma final dos roteiros.

O grande sucesso da Filmation, a animação baseada nos action-figures da Mattel.
O plano era fazer não uma nova versão de Star Trek, mas sim a mesma série que havia sido cancelada em 1969. Mudava apenas o formato, com a animação e os episódios mais curtos de 22 minutos, mas a ambição era recriar o espírito e o tom do programa original – Gene Roddenberry não aceitaria de outra maneira. Tanto que a série leva exatamente o mesmo nome: Star Trek. (O epíteto Série Animada, bem como Série Clássica para a versão original, são criações posteriores, quando Jornada nas Estrelas se eleva definitivamente à categoria de franquia de entretenimento.)
A NBC decidiria por incluir a animação em sua programação infantil, aos sábados pela manhã. Dezesseis episódios foram produzidos na primeira temporada (1973-1974) e mais seis complementariam a série em uma segunda (1974). O contraste entre a sofisticação dos roteiros e a audiência mais jovem, contudo, impediram um grande sucesso de público, o que levou ao encerramento prematuro. Já a crítica percebeu a qualidade dos roteiros, a despeito da animação pouco sofisticada, e o programa chegou a receber um Emmy de melhor programa infantil em 1975 – primeira vez que Star Trek era honrado com a principal premiação da televisão americana.
A CHEGADA AO BRASIL E A ÁLAMO

Michael Stoll, fundador da Álamo
A responsabilidade de distribuir em solo nacional o novo programa recaiu sobre a Brás-Continental, a mesma empresa que trouxe a Série Clássica ao Brasil em 1967 (com estreia pela TV Excelsior, em 1968). Para a dublagem, a distribuidora escolheu o então novíssimo estúdio Álamo, fundado em 1973 pelo britânico Michael Stoll, ex-técnico de som da Companhia Cinematográfica Vera Cruz – grande estúdio de cinema brasileiro com sede em São Bernardo do Campo (SP) que operou entre 1949 e 1954 e foi responsável por muitos sucessos nacionais da época, entre eles os primeiros filmes do astro Amácio Mazzaropi, antes de falir. Marco do cinema nacional, foi homenageada em 2026 pela escola de samba paulista Vai-Vai.

Mazzaropi em Tristeza do Jeca (1961).

Missão Impossível foi dublada pela Álamo a partir da quinta temporada.
Stoll decerto seguiria em seu empreendimento o padrão de excelência da Vera Cruz, e a Álamo dublaria grandes sucessos da televisão e do cinema distribuídos pela Brás-Continental, como Missão Impossível (a série original, a partir da quinta temporada), The Muppet Show e filmes do comediante Jerry Lewis. A versão animada de Star Trek chegou ao estúdio de dublagem em meio a esse bolo, que só cresceria com o tempo. Mais adiante, a Álamo dublaria produtos de outras distribuidoras, como os sucessos Bob Esponja, Dragon Ball Z, Os Anjinhos, Anos Incríveis etc. Ela se tornou, com o tempo, uma das maiores empresas de dublagem do país – e a primeira da América Latina a gravar filmes com som Dolby Stereo, em 1995.

Dragonball Z, um dos sucessos mais recentes dublados pela Álamo.
O reinado da Álamo teria fim apenas em 2011, quase quarenta anos após sua fundação, sufocada pela dificuldade de competir com a cada vez mais acirrada concorrência de empresas menores. Na época, seu presidente era Alan Mark Stoll, filho do fundador, que determinou que a companhia concluísse todos os trabalhos e gravações já contratados antes de encerrar as atividades.

Antiga sede da Álamo em São Paulo.
DA AIC À ÁLAMO

Garcia Netto
A dublagem da Série Animada pela Álamo se deu no segundo semestre de 1974 e aproveitou muito do que havia sido criado pela AIC, em termos de tradução e escolha de elenco. A direção de dublagem ficou a cargo de Garcia Netto (Charles Bronson nos filmes Desejo de Matar III e IV), que dublou Spock naquela ocasião e também fez a narração de abertura dos episódios. O novo dublador do vulcano mais querido da galáxia foi muito bem no papel, o que o levaria a voltar ao personagem futuramente.
O resto do elenco foi essencialmente o mesmo da terceira temporada da série live-action, com apenas mais duas trocas, além de Spock: o engenheiro Scott (aqui com Marcos Miranda no lugar de Carlos Campanille) e a enfermeira Chapel (Rosa Maria, em substituição a Judy Teixeira). Os demais eram o time já conhecido: Astrogildo Filho (Kirk), João Angelo (McCoy), Helena Samara (Uhura) e Eleu Salvador (Sulu). Ausência sentida é Pavel Chekov, que não figurou entre os personagens da Série Animada.

Marcos Miranda

Rosa Maria
Quanto à tradução, apurou-se que a Álamo na época utilizava tradutores freelancers, prática usada até hoje nos estúdios de dublagem. Mas, para o caso de Star Trek, que já era uma marca famosa, exigia um cuidado maior e consistência na terminologia técnica, a série toda ficou a cargo de uma única tradutora. Os que trabalharam na dublagem lembram apenas seu primeiro nome: Giovanna. A tradução, de fato, manteve alguns dos termos e expressões criados na dublagem da série original feita pela AIC – a que a tradutora poderia consultar com certa facilidade, já que os episódios seguiam em reprise na época pela TV Tupi. O texto de abertura, por exemplo, permaneceu exatamente igual ao criado na AIC. Algumas expressões e termos também permaneceram: diário de bordo, data estelar, feisers, klingons, etc. Alguns termos remontam às primeiras dublagens da AIC, que usam torção, em vez da posteriormente consagrada expressão dobra espacial.

Estúdio da Álamo, em São Paulo.
EXIBIÇÃO E DESAPARECIMENTO
A Série Animada seria exibida originalmente pela Rede Globo no Show das Cinco, a partir de 2 de abril de 1975, e mais tarde na Globo Cor Especial, a partir de 24 de fevereiro de 1977. A partir do dia 22 de junho daquele ano, ela passou a ser exibida na TV Record, em São Paulo, e esteve na programação da TVS do Rio de Janeiro até junho de 1978 na Sessão Desenho.

Jornal do Brasil traz animação Jornada nas Estrelas na programação da Globo no Show das Cinco, em 1975 (esq.) e no Globo Cor Especial, em 1977 (centro), além de na Sessão Desenho, da TVS, em 1978 (dir.).
A partir de 1980, o desenho animado desapareceria das telinhas brasileiras – como aconteceria na maior parte do mundo, tornando-se algo como o “patinho feio de Jornada nas Estrelas”. O desprezo seria tão grande que até Gene Roddenberry, o criador de Star Trek, teria pedido à Paramount em 1989 que não considerasse aqueles 22 episódios como parte do cânone (a história oficial) da franquia, o que o estúdio atendeu, revertendo essa decisão somente em 2006, quando, por ocasião dos 40 anos da franquia, a série foi relançada em DVD, reativando o interesse por ela no mundo todo.

Box de DVDs da Série Animada lançado no Brasil em 2006, com os episódios apenas legendados.
A dublagem da Álamo, por sua vez, também é tida como irremediavelmente perdida. Há rumores de que colecionadores têm episódios completos gravados, mas nas redes só se encontram trechos. Quando do lançamento em DVD, em 2006, a série chegou ao Brasil apenas legendada. Seria preciso uma revolução global na forma de ver televisão, dez anos depois, para que o programa voltasse a ganhar vozes brasileiras. Mas essa é uma história para outro momento…
Continua…
STAR TREK (JORNADA NAS ESTRELAS)
Versão brasileira: Álamo
Direção: Garcia Netto
Apresentação: Garcia Netto
Kirk: Astrogildo Filho
Spock: Garcia Netto
McCoy: João de Angelo
Uhura: Helena Samara
Scott: Marcos Miranda
Sulu: Eleu Salvador
Chapel: Rosa Maria
Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual.
Artigo anterior da série especial | Próximo artigo da série especial
Descubra mais sobre Trek Brasilis
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
