À procura do espírito natalino

Ao ler as minhas colunas anteriores, nos quais respectivamente profetizo o futuro negro de Jornada em Hollywood e faço uma panorâmica das recentes brigas de egos que envolveram as duas gerações de produtores e atores das séries (você leu as colunas, não?), a impressão que deve ficar é a de que ou eu sou a pessoa mais pessimista e mal-humorada para falar sobre o assunto ou eu realmente não gosto de Jornada nas Estrelas. Mas na realidade não é nada disso: posso ser cínico e um porre de vez em quando, mas não sou uma pessoa pessimista com relação à vida, meus amores e desamores (quem me conhece pessoalmente até me acha otimista demais). E sim, apesar de não me considerar um trekkie, eu gosto de Jornada nas Estrelas e de muito enlatado que é enfiado garganta abaixo da gente nesse mundo consumista (de “Buffy” até Pepsi Light). Na verdade, sempre achei o franchise preferido da Paramount e de nove entre dez nerds norte-americanos um entretenimento de primeira (mesmo que isso esteja cada vez mais raro hoje em dia, nessa era de “Ricks” e “Mini-Ricks”), não importando qual série for o prato do dia. Vamos admitir: todo mundo adora falar mal de Voyager (Robert Beltran e Ron Moore que o digam), mas até essa série, apesar de ser a menos dramática e a mais “light“, tem seus bons episódios e atributos. E não estou falando só da Jeri Ryan. Se você duvida que ainda resta alguma qualidade em Voyager, assista ao último episódio de “Gene Roddenberry’s Andromeda“, uma série que, apesar do charme “canastrônico” de Kevin Sorbo e do talento do ex-roterista de Deep Space Nine Robert Hewitt Wolfe, é capaz de assustar até os deuses do Olimpo. Não é a toa que Hércules matou Zeus em um episódio de Xena que o USA exibiu semana passada (o adeus de Sorbo ao personagem) –vai ver ele não queria que o pai mitológico visse em que fria ele ia se meter como capitão de uma nave estelar de terceira categoria.

Perdido em meio a esse mundo de mediocridade, quando então comecei a matutar em busca do tema para esta terceira coluna que agora você está lendo (você ainda está aí, não?), queria explorar algo para cima, falar bem de alguma coisa, explorar um aspecto positivo de Jornada e de seus donos, seja Berman, Braga ou qualquer B que me viesse a cabeça. Ei, é Natal! Época de solidariedade, bons pensamentos e gastar dinheiro com a família, a namorada e mais importante: com DVDs!

Mas por mais que eu rascunhasse o tema na minha cabeça, nenhum espiríto do Natal passado (ou, no nosso caso, futuro) me visitou e mostrou o lado bom e positivo do século 24, a luz no fim do túnel para o franchise que eu tanto procurava. O que eu posso dizer? Das recentes brigas e baixarias de Kate “Janeway” Mulgrew e Robert “Chakotay” Beltran na imprensa (e até em rede nacional –o Ratinho deve estar morrendo de inveja), aos rumores furados de Lolita Fatjo, passando pelas críticas ferrenhas de Ron Moore a Voyager e Série 5 e chegando finalmente às expectativas de um 2001 sem nova série ou novo filme (continue lendo), logo senti um balde de água fria –pensando bem, talvez eu esteja mesmo pessimista com relação a Jornada!

Mas vamos ver se esse pessimismo é apenas um sexto sentido resultante desse mar de fofocas e intrigas que se tornaram as novidades trekkies das últimas semanas ou se ele é baseado mesmo em algo concreto.

A pior notícia para começarmos o ano novo e a comemoração dos 35 anos de Jornada é que a essa altura do campeonato é praticamente impossível que tanto a nova série como o novo filme cheguem aos EUA em 2001. O que quer dizer que a pobre Sherry Lansing e seus subordinados no estúdio vão ter de passar pela primeira vez um aniversário de Jornada sem um grande evento para presentear aos fãs, ou melhor dizendo, para vender muito merchandise, publicidade e ingressos.

Devido a uma greve iminente dos atores em Hollywood e aos atrasos de John Logan e Brannon Braga na elaboração de seus respectivos roteiros, já deixou de ser fofoca para ser chacota nos corredores da Paramount e da UPN que Jornada X e a Série 5 só chegam mesmo em 2002 –isso se não chover. Ou seja, quando a greve dos atores acabar, em setembro de 2001, (se durar “apenas” os seis meses prometidos), e tanto o novo filme quanto a nova série finalmente saírem do papel para a frente das câmeras, não é preciso ser matemático para perceber que essas duas produções só chegariam ao público em 2002 (com uma data de janeiro de 2002 para a nova série e maio de 2002 para o novo filme, um passarinho azul me contou).

Do filme, já sabemos que os Romulanos e Data serão o pivô da história (dessa vez, o abelhudo Patrick Stewart chiou, mas não conseguiu substituir os Romulanos por outra raça, como ele fez com os Son’a em “Insurrection”). Mas os rumores sobre o novo filme param aí, e boatos sobre a escolha de diretor e atores são, até agora, pura história da carochinha (para se ter idéia de como o filme está atrasado, os únicos contratados até o momento são Stewart, Brent Spiner e John Logan –nem um produtor-executivo foi contratado ainda).

Agora, sobre a nova série, caro leitor, eu vou dar um conselho: não acredite em tudo que ouve por aí (ou melhor, acredite –mas desconfie). É verdade que há mais de um ano Berman e Braga propuseram ao estúdio uma premissa em que um vilão do século 29 alteraria a história do século 22, e que a nave espacial Enterprise desse século (vista em um mural na Enterprise de “Jornada nas Estrelas – O Filme”) seria o centro da série. Sim, esse rumor da proposta pré-Clássica era verdadeiro em finais de 1999, assim como era verdadeira a informação de que a premissa não foi bem recebida pelos executivos da Paramount e da UPN –isso tudo foi confirmado por diversos sites na época, e em nenhum momento chegou a ser comentado (ou negado) por Berman (o que já sugere muita coisa).

É possível que “Star Trek – Enterprise Logs” (o nome circulando por aí para a nova série) seja mesmo pré-Clássica? Sim, é. É possível que Berman e Braga tenham alterado a premissa (ou adaptado às necessidades do estúdio) para que ela fosse finalmente aprovada pelos executivos? Sim, isso é muito normal em Hollywood e aconteceu até com a Série Clássica (alguém se lembra de um episódio piloto filmado em 1964, com uma premissa cerebral e com um capitão amargurado e sério chamado Christopher Pike?).

Mas a verdade é que, mesmo depois dos rumores e “dicas” de Ethan “Neelix” Phillips (que como boateiro é um ótimo ator, na minha opinião) e dos ex-empregados da Paramount Lolita Fatjo e Ron Moore apontarem nessa direção, muita gente que eu conheço acima do Equador continua achando a idéia suspeita e os boatos improváveis. Não acho que mesmo os verdadeiros “insiders” saibam ao certo do que a nova série se trata (passado ou futuro? Surgimento ou morte da Federação? Enterprise-Zero ou Enterprise-G?), mas o que dizem por aí é: “se fosse realmente a pré-Clássica, já saberíamos há muito tempo”. Por isso, vou ficar com o pé atrás por enquanto. Talvez você deva fazer o mesmo… aproveite e cruze os dedos.

Aliás, quem disse que coisas ruins não levam a boas coisas? Na falta de um produto para comemorar os 35 anos da série e para tampar o buraco que o atraso do último filme da Nova Geração está deixando, talvez a Paramount traga Kirk e Spock de volta às telonas em 2001 para comemorar como tudo começou, com uma celebração ao “começo de tudo”. Esse “começo”, no caso, é “Jornada nas Estrelas – O Filme”, ou melhor, a edição especial do filme que a lenda viva Robert Wise e sua equipe estão a preparar para um super DVD. Dizem que ao bater os olhos num copião das novas cenas sendo trabalhadas pelo legendário diretor de 86 anos, a “big boss” da Paramount, Sherry Lansing, ficou tão impressionada com a qualidade da nova edição do veterano diretor que propôs que o filme seja lançado nos cinemas norte-americanos no próximo verão (o plano inicial seria de apenas 600 cinemas, mas não fique surpreso se a Paramount der uma de George Lucas e relançar o filme com pompa de blockbuster de temporada).

Resta saber se o meticuloso Wise vai topar a empreitada, já que o projeto se tornou bem maior e mais apaixonante para o velhinho do que ele mesmo esperava. O volume de trabalho tem atrasado a edição final do filme, que deveria ser concluída em janeiro, mas teve sua data adiada indefinidamente.

Informações que recebi de alguns contatos que tenho na Foundation Imaging, a empresa que está cuidando dos novos efeitos especiais, dão conta de que o novo filme será uma edição muito especial, mas não tão especial quanto gostariam alguns fãs. Quando o projeto foi iniciado, os envolvidos tinham o objetivo de trazer algumas cenas que estavam no roteiro original, mas que acabaram não entrando no filme por deficiência de efeitos especiais ou tempo para refilmar algumas tomadas. Infelizmente, algumas dessas cenas não puderam ser recuperadas. A seqüência de Kirk e Spock sendo atacados pelas sondas metálicas e o elo mental Vulcano de Spock no chamado Memory Wall não serão incluídas no DVD, ao contrário do que diziam os boatos anteriores. Além de ter sido confirmada na Foundation, dois membros da equipe de Wise confirmaram a ausência das tomadas no fórum do site TrekWeb.

Elas foram excluídas por duas razões: não foram encontrados nos arquivos da Paramount os negativos das cenas completas, nem o áudio de todos os diálogos filmados em 1978, o que faz com que apenas os efeitos especiais não dêem sentido à cena. O outro motivo é que para restaurar completamente a seqüência, mesmo com todos os recursos de CGI (imagens geradas por computador) disponíveis, o projeto simplesmente sairia caro demais. Tudo que sobrou das tomadas poderá ser visto como um dos extras no DVD.

Mesmo com essa perda, não dá para achar que a nova versão não valha a pena. Parece que um pouco do marasmo que é o passeio da Enterprise por dentro do V’ger será substituído por empolgação. O ataque de V’Ger à Enterprise é a cena mais ambiciosa recriada em CGI. Agora a Enteprise faz diversas manobras e ações evasivas (com Decker dando as ordens à navegadora), fazendo com que a cena se pareça mais com as batalhas espaciais dos outros filmes de Jornada.

A música também terá atenção especial na nova versão. O diretor Robert Wise, com a ajuda do músico Jerry Goldmsith, conseguiu achar gravações da trilha sonora para diversas das novas cenas –música que nunca foi ouvida antes (nem no CD especial do filme), fazendo com que diversas cenas que antes não tinha música agora tenham.

E quem se preocupa com a fidelidade ao trabalho original, também pode ficar mais tranqüilo. Trabalhando como consultor no projeto está John Dryskta, o criador dos efeitos especiais de V’Ger no filme original, assim como Douglas Trumbull. Eles estão supervisionando todas as criações da Foundation para que elas não se diferenciem muito do seu trabalho. Eles foram convocados para participar do projeto pelo próprio Robert Wise, que achou que algumas cenas estavam ficando “muito modernas”.

A maior parte dessas informações ainda não foi divulgada, e deve pintar nos sites americanos de Jornada ao longo da semana. Outras fotos (além da que mostra a “nova” Enterprise e o planeta Vulcano) também devem aparecer nos próximos dias, aumentando ainda mais a ansiedade pela versão mais recente da primeira incursão do franchise no cinema.

Quem sabe? Coisas estranhas têm acontecido. E do jeito que o franchise vai indo, talvez Kirk e Spock riam por último, afinal…

Artigo originalmente publicado no conteúdo clássico do Trek Brasilis em 2000.

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