Fase II: A série que nunca existiu

Em meados dos anos 1970, a Paramount queria voltar a produzir Jornada nas Estrelas. Em 1977, o estúdio acabou decidindo criar uma nova rede de televisão e levar Jornada consigo. Nascia a Fase II, uma nova série com o elenco clássico, mostrando a segunda missão de Kirk a bordo da Enterprise. No final, o projeto acabou abortado, mas deixou muita história para trás.

Em maio de 1975, sete meses após o cancelamento da Série Animada de Jornada nas Estrelas, Gene Roddenberry começou a escrever um roteiro para um filme de cinema de Jornada. O título seria “The God Thing”, e a data de início das filmagens seria 15 de julho de 1976 (depois alterado para janeiro de 1977). O orçamento seria de US$ 5 milhões. Era a Paramount preparando o retorno de um dos programas mais cultuados de todos os tempos, e tudo o que o estúdio precisava era de uma história.

E aí estava o problema. Em “The God Thing”, a tripulação original da Enterprise (e a única tripulação de Jornada na época) retornaria de sua missão de cinco anos, seria promovida, e assumiria outros postos na Frota Estelar. Porém, quando uma força misteriosa ameaça a Terra, Kirk reuniria sua antiga tripulação (inclusive Spock, que havia largado a Frota e estava em Vulcano), e partiria para o espaço a fim de confrontar a misteriosa ameaça e salvar o planeta. Ah, esqueci de um detalhe: a tal força poderia ser simplesmente Deus. A Paramount não gostou dessa “coisa de Deus” (“The God Thing”) no roteiro e, surpresa, em agosto de 1975 Jornada nas Estrelas voltaria ao limbo.

Roddenberry não desistiu, e com a ajuda de seu assistente Jon Povill, outro roteiro foi criado. Dessa vez seria sobre uma linha de tempo alternativa, criada quando Scotty introduziu uma avançada tecnologia na Terra de 1937. O resultado é um futuro em que humanos são escravos de um computador central, e a Federação e Frota Estelar nunca existiram. A Enterprise deve voltar no tempo, encontrar Scotty e reparar o que ele fez. Ao final, a Enterprise é ajudada por uma “entidade de plasma”, que na verdade é um ser humano vindo do futuro desta linha do tempo. Novamente o roteiro não foi aceito, mas a Paramount e Roddenberry continuavam atrás de uma boa história. Para isso Gene recrutou os escritores John D.F. Black, Robert Silverberg e até Harlan Ellison, “brigado” com Gene desde que seu roteiro para o episódio da Série Clássica “The City on the Edge of Forever” foi reescrito.

Enquanto a procura continuava, o mundo de Jornada recebeu boas notícias: O primeiro ônibus espacial (space shuttle) construído que nunca foi destinado para o espaço, e sim para testes na atmosfera. Seu nome seria Constitution, mas, após milhares de cartas de fãs de Jornada endereçadas à NASA e à Casa Branca, em 17 de setembro de 1976, quando o ônibus foi apresentado, o nome era outro: Enterprise.
Ao mesmo tempo em que Jornada voltava à mídia graças ao Enterprise, a Paramount confirmava a produção do primeiro longa-metragem da série, “Planeta de Titãs”, orçado em US$ 7,5 milhões e com Philip Kaufman escolhido para ser o diretor. Os esboços estavam por conta de Ralph McQuarrie, que tornaria-se famoso ao criar naves para outro filme passado no Espaço: “Star Wars”. McQuarrie criou uma nova Enterprise, com traços que lembram o star-destroyer de Darth Vader.

Com o filme começando a adquirir vida, a Paramount não conseguiu um acordo para William Shatner voltar a interpretar James Kirk. As primeiras versões do roteiro de “Planeta de Titãs” passaram a contar com a ausência de Kirk. Com a dificuldade apresentada, a Paramount aceitou a proposta de Shatner e o capitão finalmente passou a fazer parte do projeto.

A trama de “Planeta dos Titãs”: a Federação e os Klingons estão em disputa por um misterioso planeta que pode ser o lar dos Titãs, uma raça que todos acreditam ser apenas uma lenda. Durante o conflito Klingon/Federação, o planeta é sugado por uma “fenda espacial”. A Enterprise vai atrás do planeta, e emerge na órbita da Terra, porém na pré-história. A tripulação acaba dando uma de “monolito negro de 2001”, mudando a história da Terra graças à sua interação com os humanóides pré-históricos que lá estavam (cadê a primeira diretriz?). No final é revelado que a tripulação da Enterprise são na realidade os “Titãs”, aqueles que aceleraram a evolução na Terra.

Em abril de 1977, a Paramount recusou o roteiro. O diretor Kaufman reuniu-se com os roteiristas e reescreveu a trama, que foi novamente recusada em 8 de maio de 1977, enterrando de vez o projeto de filme de cinema de Jornada. Neste ponto, a orçamento estava em US$ 10 milhões e pré-produção já havia começado. A Paramount negou-se a dar maiores explicações, mas sabe-se que a estréia de “Star Wars” desmotivou os executivos de estúdio. Enquanto Jornada baseava-se em uma série que aos poucos foi conquistando seu espaço, “Star Wars” havia chegado do nada e mudado tudo. Era difícil competir. Logo, com a pré-produção pronta porém sem uma bom roteiro, para não ter prejuízo, a Paramount decidiu cancelar o projeto.

Mas o estúdio sabia o que tinha em mãos: uma série conhecida e amada por muitos, de valor comercial muito grande. Jornada poderia não estrear na telona, mas voltar para a telinha.

A série que nunca houve

O anúncio oficial foi feito em 10 de Junho de 1977. A Paramount chamou a imprensa e comunicou: iria lançar a quarta rede de televisão americana de âmbito nacional (as três redes até então eram a NBC, CBS e ABC) e a âncora de sua programação seria uma nova série de Jornada nas Estrelas, de nome “Jornada nas Estrelas – Fase II” (“Star Trek – Phase II”).

O episódio-piloto de duas horas de duração seria exibido em fevereiro de 1978, e os episódios seriam semanais. A reação de Hollywood foi de curiosidade, já que um estúdio ter sua própria rede de televisão fazia sentido, mas tentar encarar as três grandes NBC, CBS e ABC era loucura.

Gene Roddenberry estava radiante. Após cinco anos de promessas e decepções, Jornada voltaria! O produtor seria Robert H. Goodwin, que no início foi um pouco relutante em aceitar o cargo, já que não estava familiarizado com o mundo de Jornada. Por outro lado, Matt Jefferies, o diretor de arte da Série Clássica, estava de volta.

Ainda não havia nenhum roteiro para o episódio-piloto, mas Gene não abria mão de utilizar elementos de “The God Thing”. Sobre a Enterprise, Roddenberry pediu que Jefferies apenas atualizasse a nave, e não a mudasse complemente, como Ralph McQuarrie propôs.

Uma das diferenças entre a série original e a Fase II estava na melhoria das condições de trabalho. Para se ter uma idéia, a Enterprise da Série Clássica foi construída com uma variedade de materiais (madeira, alumínio), e a nova nave seria construída apenas com fibra de vidro, seria maior, mais detalhada e muito mais fácil de se trabalhar.

Enquanto isso Gene corria atrás de pessoal para produção e dos atores. Com a certeza de que haveria além do piloto pelo menos 13 episódios confirmados, que ator diria não a oportunidade de voltar ao cenário da TV? Bem, Leonard Nimoy (Spock) o fez, já que seu relacionamento com Roddenberry nunca foi dos melhores. Gene chegou a propor que Nimoy trabalhasse apenas no episódio-piloto e em onze episódio dos treze já confirmados, com dois episódios de folga. Nimoy não aceitou. Trabalhar em Jornada não fazia mais partes dos planos. Jornada nas Estrelas retornaria, mas sem seu principal personagem.

Para suprir a ausência de Spock, Gene criou um personagem: Xon (pronuncia-se “Zahn”), um jovem Vulcano oficial de ciências. Roddenberry aproveitou o embalo e resolveu introduzir mais um personagem, desta vez graças a William Shatner. O salário de Shatner para o episódio-piloto e para os treze episódios seguintes era muito alto, e, dependendo da receptividade financeira que a Fase II tivesse, talvez Kirk fosse relegado a aparecer apenas em alguns episódio como convidado especial, ou quem sabe, se as coisas ficassem difíceis, até poderia ser morto. Para substituí-lo se fosse necessário, foi criado o comandante Willard Decker, que, por enquanto, seria o primeiro-oficial de Kirk.

Um mês após a conferência de imprensa onde a Paramount anunciou a Fase II de Jornada, a pré-produção da série começaria. William Ware Theiss, o criador dos uniformes da Série Clássica, já estava criando novos uniformes e a equipe de produção já tinha praticamente prontos novos feisers de alumínio, com o mesmo desenho das antigas armas da Série Clássica, porém mais bonitos e detalhados. A “bíblia” da série estava pronta, e as instruções para os roteiristas dos novos episódios eram as seguintes:

A Nave

Com suas modificações e atualizações, a USS Enterprise é a maior e mais moderna nave da Frota Estelar. Sua tripulação será de 430 pessoas, metade sendo do sexo feminino.

Armamento

O poder de fogo da Enterprise continua sendo os bancos de feisers, porém os novos feisers são mais poderosos do que na série original. Os disparos agora são emitidos através de uma estrutura principal na nave, e não na parte superior da seção disco.

Equipamentos

O comunicador pessoal foi atualizado e tem mais funções agora. Pode ser anexado ao tricorder para transmitir informações diretamente do planeta para os computadores da Enterprise. A tela principal na ponte de comando não tem mais o aspecto de uma enorme televisão, pois agora ela é oval e holográfica.

Outras mudanças

No geral, a atmosfera a bordo da Enterprise será mais confortável do que antes, afinal, a nave é o lar de 400 pessoas. Haverá mais plantas exóticas de outros planetas, e as vestimentas não serão restritas apenas aos uniformes de serviço.

Agora os esforços eram para criar o roteiro do episódio-piloto, que seria intitulado “In Thy Image”. Mas as coisas ainda mudariam muito para Gene & cia. nos próximos meses daquele ano de 1977.

Seguindo um conselho do produtor de Jornada nas Estrelas: Fase II, Robert Goodwin, de tentar escrever um roteiro para o episódio-piloto com um tema nunca explorado nas três temporadas de Série Clássica, Alan Dean Foster apresentou para Gene Roddenberry um roteiro que, se tinha semelhanças com o episódio “The Changeling”, contava com um tema quase inédito em Jornada nas Estrelas até então: ameaça ao planeta Terra.

Enquanto o roteiro ia passando de mão em mão entre os produtores da nova série, outra idéia foi surgindo: já que a Terra estava em perigo, isso seria um belo pretexto para trazer a Enterprise para o planeta desde o início do episódio. O motivo? Ela estaria em reformas!
Diversos roteiros também estavam na mesa de Roddenberry, mas “In Thy Image” de Alan Dean Foster acabou escolhido em uma reunião ocorrida em 3 de agosto de 1977 entre Gene e o pessoal da produção. Porém o roteiro original de Foster ainda sofreria muitas revisões.

A primeira versão de “In Thy Image” foi concluída em 31 de julho de 1977, e mostra claramente como a Fase II de Jornada estava totalmente indefinida. Como ainda ninguém sabia se Leonard Nimoy aceitaria retornar ao papel de Spock ou se um novo personagem Vulcano chamado Xon o substituiria, as falas do possível personagem Vulcano eram atribuídas simplesmente ao “tenente Vulcano”. A mesma coisa com o personagem Decker que, ainda em desenvolvimento, era chamado apenas de “comandante”. Não havia referências ao nome de Ilia no roteiro original. A Enterprise ainda não se encontrava na doca espacial em órbita da Terra, concluindo sua reforma. E James Kirk ainda continuava como capitão –isso se sua presença fosse confirmada a bordo do novo projeto.

Nos próximos meses, o roteiro seria insistentemente reescrito por outros, a mando de Roddenberry, a ponto de Alan Dean Foster resolver abandonar sua nova carreira como roteirista, deixar Los Angeles e se estabelecer como escritor de romances. Foster era professor de redação para roteiros na USC, e queria expandir seus créditos como autor de romances de Jornada para autor de roteiros de TV.
Em 12 de setembro, uma ótima notícia: William Shatner finalmente acertava seu contrato com a Paramount para voltar a viver o capitão James T. Kirk. Enquanto isso a equipe de construção do novo set trabalhava sem parar. Quatro dias antes do anúncio da volta de Shatner, no dia em que Jornada completava 11 anos, 8 de setembro de 1977, cerca de 40% da ponte de comando estava pronta. Enquanto as construções continuavam, a equipe de som trabalhava para reduzir um efeito de eco que estava ocorrendo em alguns dos novos cenários.

Na nova engenharia grande parte do serviço já estava concluído. O piso e as paredes estavam no lugar, assim como alguns arranjos internos. As plantas da sala de reuniões do comando da Enterprise estavam prontas, e a construção iria começar em breve. O novo design da sala de transportes, criado por Mike Minor, estava apenas aguardando a aprovação de Roddenberry para começar a ser construído.

Como o roteiro de Alan Dean Foster modificado por Gene e demais produtores pedia a presença da Enterprise em reforma na órbita da Terra, os designers Mike Minor e Joe Jennings trataram de criar uma doca seca orbital, que contaria com um escritório acoplado nela. Mais tarde o tal escritório foi retirado, e um casulo de transporte que traria Kirk para a nave foi criado.

Em 26 de setembro o David Gautreaux foi contratado para interpretar Xon, o substituto de Spock. Um mês depois, em 28 de outubro, foi a vez de Persis Khambatta, ex-Miss Índia, ser contratada para viver Ilia. Com Shatner a bordo, ficavam dúvidas se o personagem Willard Decker continuaria existindo. Ninguém ainda havia sido contratado para o papel. Em compensação, a contratação da dupla acabou com os rumores de que a Fase II seria engavetada.
E como esses rumores surgiram?

Bem, a Paramount era, e ainda é, um dos maiores estúdios de Hollywood. Todos por lá sabiam a importância de cumprir prazos, compromissos e datas de lançamento de filmes e agora, séries de televisão. Mas a Fase II havia estourado todas as datas, prazos e compromissos até então, e o mais interessante é que ninguém da produção estava sendo pressionado quanto a isso.
Era uma situação paradoxal. Embora os roteiristas tenham levado alguns meses para desenvolver o roteiro original de Alan Dean Foster, quando geralmente esse trabalho era feito no máximo em duas semanas, ninguém os pressionava. Os sets de filmagem estavam pela metade, o modelo da Enterprise e da doca espacial também estavam inacabados e, ao final de mês de outubro, com 28 de novembro já marcado para ser o primeiro dia das filmagens, o personagem Decker ainda não tinha intérprete. Qual a explicação para tudo isso?
Simples. Os executivos da Paramount não iriam pressionar a produção da Fase II para agilizar o serviço, pois havia a possibilidade de que a série nem fosse realizada, afinal ela seria o carro-chefe da nova emissora de televisão que a Paramount lançaria, e talvez nem isso acontecesse tão cedo. Hoje em dia sabemos que de fato a UPN (United Paramount Network), programada para estrear em 1978, só viria a ser lançada em 16 de janeiro de 1995, tendo Voyager como seu carro-chefe. Gene sabia que uma nova série do universo de Jornada estrearia a nova emissora do estúdio, mas não poderia jamais imaginar que demoraria pelo menos 17 anos e ele não estaria vivo para ver.

Os cenários estavam sendo construídos, figurinos sendo costurados, atores sendo contratados, roteiros sendo escritos (e reescritos), Bill Shatner havia acertado para voltar ao seu papel de Kirk, Nimoy estava fora mas David Gautreaux e seu Xon iriam tentar suprir a ausência do Vulcano, uma ex-Miss estaria na série como uma nova personagem e o tal Decker era uma incógnita. Treze roteiros para a primeira temporada estavam sendo desenvolvidos.

Em janeiro de 1978, o que era esperado aconteceu. A Paramount não lançaria sua emissora, e isso queria dizer que a Fase II estava morta. Mas para não jogar no lixo meses de trabalho e muito dinheiro gasto na pré-produção da nova encarnação de Jornada, o estúdio anunciou que estava em negociações com Leonard Nimoy e com o diretor Robert Wise para o lançamento de “Jornada nas Estrelas: O Filme”. A missão de Gene agora era transformar o episódio-piloto “In Thy Image” em um filme de duas horas para o cinema…

Enquanto a Fase II existiu como uma pré-produção, vários roteiristas estavam trabalhando nas histórias dos primeiros episódios da nova série. Mal sabiam eles que as aventuras de Kirk, McCoy, Xon e Ilia existiriam apenas em suas mentes, já que, após sete meses de idas-e-vindas, a série acabaria sendo abortada.
Menos mal que se transformaria em um filme para o cinema. Logo, o episódio-piloto “In Thy Image”, de autoria de Alan Dean Foster (e extensamente revisado e modificado por Gene Roddenberry), sobreviveria como a base para a elaboração do roteiro do longa-metragem. O diretor até o presente momento era Robert Collins, originalmente contratado para ser o produtor da recém-falecida Fase II. Decker, último personagem a ter seu nome escolhido, estava confirmado no filme, assim como Ilia.

Em muitas revisões do roteiro já estava definido que ambos seriam absorvidos por V’Ger no decorrer da trama –os personagens que os roteiristas estavam construindo teriam vida bem curta, pois não estariam em futuros filmes de Jornada que porventura fossem produzidos após o primeiro.

Com o roteiro de Dean Foster reescrito pelo diretor Robert Collins (45 páginas já revisadas por Roddenberry…), já dava para ter uma idéia do orçamento do filme. O produtor Robert Goodwin, em um memorando para a Paramount, passou o valor já com o salário de Leonard Nimoy, que estava acertando sua volta ao franchise. E Goodwin frisou que Nimoy tinha de fazer parte do filme de qualquer maneira, pois era o que os trekkers queriam. A Paramount já sabia, claro.

O valor do orçamento ficou em US$ 18 milhões. Some-se a isso o que o estúdio já havia gasto desde 1975, quando Gene estava escrevendo “The God Thing”, passando pela pré-produção da Fase II, e chega-se ao impressionante valor de US$ 44 milhões. Porém o salário combinado de Shatner, Nimoy e De Kelley para participar do filme seria apenas um pequeno percentual dos novos US$ 18 milhões pedidos por Goodwin. E Robert Collins ainda levaria, além do salário de diretor, mais US$ 10 mil por ter reescrito o roteiro.

Só que o diretor não seria mais ele. Embora os executivos da Paramount tivessem assegurado a Collins o emprego, estavam em contato com o veterano diretor Robert Wise para levar em frente o projeto. Wise fechou com a Paramount em março de 1978 e Collins disse adeus ao sonho da direção.

Robert Wise era um dos mais conhecidos diretores de Hollywood, com filmes como “A Noviça Rebelde” e “O Dia em que a Terra Parou” no currículo. Embora Wise costumeiramente assumisse a posição de produtor nos filmes que dirigia, aceitou que Roddenberry continuasse como produtor dessa vez. Robert Goodwin levaria o crédito de co-produtor, mas desistiu para abrir sua própria companhia cinematográfica com Mark Tanz. Um dos motivos que o fez largar o projeto do filme de Jornada foi que, se a Paramount de fato lançasse uma rede de TV, ele seria o encarregado de supervisionar a produção dos telefilmes da emissora. Como a rede não existiria mesmo, Goodwin caiu fora.

Enquanto isso Michael Eisner e Jeffrey Katzenberg, os chefões da Paramount naquela época, saíram de Los Angeles e foram até Nova York, para apresentar um polpudo cheque a Nimoy, que estava por lá estrelando uma peça na Broadway. O tal cheque fez com que Nimoy esquecesse todos os problemas que tinha com Roddenberry e o estúdio. Ele a partir de agora estava confirmado no filme de Jornada para o cinema, e ainda faria parte da equipe de elaboração do projeto.

E Xon, o Vulcano que substituiria Spock? Ficou definido que ele morreria em um acidente no teletransporte logo no início da história. Como sabemos, no roteiro final o Vulcano que morre nessas circunstâncias é o comandante Sonak. David Gautreaux, que interpretaria Xon, ficou com uma ponta como o oficial da Frota a bordo da estação espacial destruída por V’Ger no começo do filme.

Com Nimoy e Wise na produção, as pressões para que outro escritor se juntasse a Roddenberry na elaboração da versão final do roteiro cresciam. O tempo estava passando e Gene não dava conta. Em abril de 1978, Gene entrou em contato com Harold Livingston. Harold, que originalmente coordenaria os roteiristas da Fase II, conta como recebeu o pedido do criador de Jornada. “Logo que atendi o telefone percebi que Gene estava com problemas. No dia seguinte ele me enviou o roteiro e, eu juro, não sei dizer quantas vezes o haviam reescrito. Alguns dias depois encontrei Bob [Wise] e Gene e disse: ‘esse roteiro está terrível, não dá para usar de maneira alguma’. Eles concordaram e me chamaram de volta para colaborar.”

Livingston prossegue. “Eu sabia como era trabalhar com Gene, então coloquei algumas condições que ele não gostou, mas que me preservariam de suas interferências. Reescrevi as primeiras 50 páginas do roteiro e enviamos para Paris, que é onde Katzenberg e Eisner estavam. Eisner me ligou e disse ‘que coisa é essa?’. Eu não sabia do que ele estava falando até descobrir que Gene havia reescrito minhas 50 páginas antes do envio!”

Isso acabou ocorrendo com frequência, e por quatro vezes Livingston quis abandonar o barco, já que Gene sempre estava em seu caminho. Mas era sempre convencido a voltar. Na quinta e última vez ele não queria voltar de maneira alguma, mas Katzenberg se trancou em seu escritório com Livingston e somente o deixaria sair quando concordasse em, mais uma vez, reconsiderar a desistência. No final, Harold Livingston aceitou retornar, mas somente se, após o término do trabalho em Jornada, a Paramount o contratasse para escrever um roteiro sobre qualquer projeto que Livingston escolhesse. Katzenberg concordou. E após a estréia de “Jornada nas Estrelas – O Filme” Livingston nunca mais trabalhou ou falou com Gene Roddenberry.

Com o roteiro finalizado, Spock de volta, Stephen Collins no papel de Willard Decker e Robert Wise na direção, as coisas começaram a se arrumar. O processo de filmagem da primeira aventura de Jornada para o cinema seguiu em frente, com acertos e erros, tanto que somente nos dias de hoje Wise conseguiu lançar a versão definitiva do filme como ele queria.

Todo o trabalho da elaboração da Fase II foi, segundo o ex-produtor Robert Goodwin, “uma experiência terrível, mas dá para entender tudo e até aceitar”, ele explica, “pois é assim que as coisas funcionam em Hollywood. É assim que costuma ser…”

E com todos esses atropelos, a Fase II serviu de embrião para o lançamento de Jornada no cinema, que por sua vez iniciou a carreira cinematográfica do franchise.

Apesar de a Fase II de Jornada nas Estrelas não ter se transformado em uma série, alguns episódios chegaram a ser escritos, na forma de roteiros, enquanto o projeto ainda era apoiado pela Paramount.

Devido ao caráter obscuro dessa parte da história do franchise, o que não faltam são boatos. Há quem reporte mais de 13 histórias concluídas, mas a “bíblia” sobre a produção da Fase II, redigida por Judith e Garfield Reeves-Stevens (renomados escritores de livros de referência de Jornada nas Estrelas), aponta somente 13 histórias concluídas e roteirizadas sobre a segunda missão de cinco anos de James T. Kirk a bordo da Enterprise.

Antes desse livro, pouco se sabia dos bastidores da produção. Os fãs viviam à base de muitos rumores e bobagens sobre a série abortada, inclusive apontando até a existência de outros episódios –algumas vezes apenas argumentos não-aproveitados da Série Clássica, outras possíveis histórias da Fase II ainda em estudo (não-aprovadas para roteirização), e até o roteiro original de Roddenberry para um filme de Jornada nas Estrelas, “The God Thing”.

Entretanto, aprovados para Fase II são apenas 13 — justamente a encomenda feita inicialmente pela Paramount para a série (só se o programa fosse um sucesso o estúdio encomendaria a produção do resto da temporada). Desses, dois foram aproveitados em A Nova Geração.

Para a elaboração das três primeiras partes desse material sobre a Fase II, o Trek Brasilis utilizou como base o material escrito pelo casal Reeves-Stevens, autores do livro “Star Trek Phase II: The Lost Series”, e para a confecção do guia de episódios utilizamos o material escrito por Mark Altman e Edward Gross, dois dos mais respeitados experts em Jornada nas Estrelas nos Estados Unidos.

Episódios

01 – In Thy Image
02 – The Child
03 – The Savage Syndrome
04 – Practice in Walking
05 – To Attain the All
06 – The Prisoner
07 – Tomorrow and the Stars
08 – Devil’s Due
09 – Deadlock
10 – Lord Bobby’s Obsession
11 – Are Unheard Melodies Sweet?
12 – Kitumba, Part I
13 – Kitumba, Part II

Artigo originalmente publicado no conteúdo clássico do Trek Brasilis em 2002.

13 Comments on "Fase II: A série que nunca existiu"

  1. Legal a iniciativa do TB em “desenterrar” matérias antigas e bacanas, como esta sobre a “Fase II”. Com o novo filme vindo aí, é natural que os internautas comecem a procurar informações relacionadas a franquia. Então, por que não dar umas “dicas”?

    Sobre a matéria, não é pra menos que o primeiro filme é bem irregular, já que surgiu de um projeto que teve várias idas e vindas…

    Mas é interessante notar que o conceito básico de “The God Thing” (uma ameaça desconhecida que pode destruir a Terra) se manteve desde os esboços iniciais.

  2. Mas que coisinha mais horrível aquela nave do Ralph MacQuarrie. Ainda bem que tiveram o bom senso de não aprovar.

  3. Eu queria tanto um fanfilm com o Xon! ahuahu

    M’Y

  4. É uma pena que a série não deu certo, pois sou muito mais uma série onde você pode acompanhá-la semanalmente, enquanto filmes para o cinema apenas acontecem de dois ou três em três anos, se estouram na bilheteria! A série, pelo menos, se não for pra frente, você tem às mãos uma temporada inteira de episódios!

  5. Jorge Rodrigues | 14 de dezembro de 2008 at 5:14 pm |

    NÔMADE (ANTI-HOMEM)

    O roteiro final de “ST, the movie” é muito próximo de um episódio de TOS, no qual Kirk é confundido com o criador de uma sonda terrestre que: a) colidiu e se fundiu com uma sonda extra-terrestre dotada de inteligência artificial; b) tem capacidade de destruir um planeta inteiro; c) acha a humanidade uma infestação imperfeita que está impedindo seu criador de responder a seus chamados; d) está em rota para a Terra; e) sofre de solidão. Será que ninguém mais fez essa associação?

  6. Jorge Rodrigo, na verdade o episódio que vc se refere foi usado por que foi o que melhor apresentou um substituto (a sonda Nomad) de Deus, que “não passou no teste da Paramount”.
    E ainda bem que todas aquelas ideias de viagem no tempo também não foram para frente.

  7. Jorge
    Está na cara. eu percebi isso qdo assisti a estréia em 1979. Já houveram vários comentários aqui sobre isso, portanto, vc nao foi o único…

  8. EVOLUCIONISMO OU CRIACIONISMO????
    “Devemos questionar a lógica que afirma um Deus onipotente e onisciente, que criou um homem falível e o culpa por seus defeitos.”
    Gene Roddenberry

    “The God Thing” e “Planeta dos Titãs” são alusões diretas de Gene a sua cosmovisão bem como do universo de ST, apesar de vermos em vários episódios de TOS e em algumas outras séries, alusões a passagens bíblicas encontradas em livros como Genesis e Daniel.
    É fato que para Gene Deus nada mais era que um OBSERVADOR e representante de uma raça alienigena altamente desenvolvida.
    Pecou no quesito ao citar que Deus criara o homem falível, segundo as escrituras Deus o criou perfeito, a criação é quem se rebelou contra o seu criador declinando-se para um estado de imperfeição.
    Hoje, isto é, século 21, muitos cientistas já estão começando a reformular suas hipoteses migrando-se para o criacionismo de acordo com novas descobertas a respeito do Universo, uma vez que este tem demonstrado evidências de racionalidade, inteligência e ordem.
    De outro lado temos a seguinte questão.
    SERÁ QUE ESTAMOS SÓS?
    Bem não preciso dizer a posição de Gene.
    Particularmente a imensidão do universo corrobora para a existência de vida seja inteligente ou não, as probalidades são grandes, no entanto nosso “Primeiro Contato Oficial” ainda não ocorreu, e sendo assim a duvida ainda paira no ar.
    Estou ansioso para que este grande enigma seja desvendado pela NASA, ou ESA, ou outra agência espacial de qualquer outro país, no entanto não posso afirmar convictamente de que não estamos sós. Isso é fé, e fé se baseia na crença de algo que não vemos, se distinguindo totalmente de ciência. E também creio que talvez não estarei vivo até lá para testemunhar este fato, uma vez que sondas a serem lançadas à algumas luas de Jupiter e Saturno possuidoras de certa atmosfera e oceanos congelados com probabilidades de abrigar vida na forma bacteriológica, somente ocorrerão nas décadas de 20 em diante.
    Assim sendo até lá, cada um devera demonstrar sua fé em um dos tópicos que listei acima.
    E lembrem-se ser fã de ST não significa compartilhar da mesma cosmovisão de Gene, pois a ciência em si vai se reformulando a medida que novas descobertas vão surgindo.
    E aliás tudo não passa de mera ficção científica.

    C.Q.D.

  9. Gene não sabia como fazer o flime para o cinema, simplesmente atirou pra todos os lados até uma idéia acertar. Ele foi o criador de STAR TREK e suas linhas gerais, mas como escritor deixava a desejar. O merito de STAR TREK ter evoluido na série, já foi amplamente discutido aqui e todos sabem que DC FONTANA e GENE L COON, foram quem seguraram a bola. Fica clara nesta estupenda resenha a incapacidade do GENE em resolver os problemas da historia e da produção, tanto da série quanto do filme. Mas fica patente sua IMENSA FORÇA DE VONTADE e atuação (mesmo que errando em alguns pontos) em levar adiante STAR TREK. Sem ele este e outros filmes, bem como TNG, jamais teriam sido feito. Grande GENE, imperfeito como todos nós humanos, mas tentando MELHORAR SEMPRE.

  10. Jorge Rodrigues | 15 de dezembro de 2008 at 2:24 pm |

    Eu realmente não sabia que essa analogia entre ST, O filme, e o “Nomade” já havia sido feita aqui. Fico feliz com as respostas, pois diminui minha sensação de locura pessoal (rs). Obrigado a todos.

  11. pessoal reparem no desenho da ponte mostrado acima…parece q ja vi algo parecido em um trailer de um filme q vai estrear ano q vem…

  12. Já li essa matéria à EXAUSTÃO!
    É muuuuuuuuuuuuuuuuuuito boa!

    Star Trek phase II ia ser muito estranho, hein!
    Zhan, Zon, Zun…

    Kirk desaparecendo…

    Bom, a Enterprise também saiu beneficiada na “reforma”.

    E no cinema o Spock voltou e até Khan deu uma ajudada na série.

    A história mostrou que o destino de Star Trek tinha que ser o cinema!

  13. Alan Pires Ferreira | 3 de janeiro de 2009 at 7:21 pm |

    Observador,

    Só as mentes deformadas dos religiloucos vêem o criacionismo como o oposto da Evolução por Seleção Natural. (Como se estivéssemos falando de uma torneira de quente ou frio.) Ora, o criacionismo ou design inteligente é apenas MAIS UM dentre os MILHARES de mitos de criação elaborados pelo homem primitivo – no caso, é apenas o mito semita. Mesmo se a Evolução fosse um dia invalidada, o vácuo deixado teria de ser preenchido por OUTRA TEORIA CIENTÍFICA; jamais por este hoccus poccus, abracadabra, pirlinpinpim mágico.

    Para seu governo, 99,99% dos cientistas apóiam integralmente a Evolução, e até mesmo o Vaticano apóia integralmente a Evolução. Alguns patéticos cultos protestantes fundamentalistas é que resolveram transformar o criacionismo em um cavalo de batalha, uma queda de braço com a Ciência. E isso é um BOM SINAL! O desespero dos religionistas em conseguirem o aval da Ciência indica a prevalência desta e seu crescente poder sobre o mundo. É um claro indício de que, felizmente, essa estupidez chamada religião, que só mal trouxe à raça humana, aproxima-se de seu fim.

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