Onde você estava em 14 de fevereiro de 2003 ? Se você é um fã de Jornada nas Estrelas, certamente alguns momentos deste dia foram dedicados ao lançamento de Star Trek Nêmesis. Décimo filme da saga de  Jornada nas Estrelas que (quase) enterrou de vez a franquia.

Em fevereiro de 2003 se completava dois anos que Voyager havia chegado ao fim sem deixar muita saudade e Enterprise seguia claudicante em suas primeiras temporadas. Olhando em perspectiva foi um período ruim para jornada, e Nêmesis talvez tenha sido a expressão máxima destes tempos de incerteza, pois se o grande defeito de Voyager foi tentar repetir o desgastado modelo de A Nova Geração  e Enterprise nunca passou de uma idéia mal aproveitada, Nêmesis foi a expressão máxima do descaso com a franquia Jornada nas Estrelas.

Nêmesis já nasceu indefensável, com uma premissa totalmente torta e absolutamente inconsistente com o que havia  sido deixado como legado do universo de Jornada nas Estrelas, pelos filmes anteriores e por Deep Space 9 (como Voyager não se passa em espaço da Federação, suas influências poderiam ser mitigadas com alguma boa vontade, caso necessário) mas sempre que lhe era conveniente, coletando uma outra referencia das series de Jornada, de forma a tentar agradar o fã da forma mais incompetente possível .

O filme trouxe uma historia fraca descaradamente emulada de Jornada nas Estrelas 2 – A Ira de Khan, um roteiro mal resolvido, personagens principais descaracterizados e um vilão tão mal concebido como interpretado. Culpa talvez do ego e controle excessivo de Patrick Stewart que desde First Contact vinha tentando se converter em um herói de ação, ou de uma direção (?) torta de Stuart Baird que graças aos céus, deu adeus ali a sua breve carreira de diretor.

 Outro que viu sua carreira definhar após Nêmesis foi Tom Hardy, visto até então como uma jovem e talentosa promessa e que passou ao ostracismo, e que teve sua ascensão interrompida por problemas com drogas. Claro que não se pode ligar de forma simplista o fracasso de Nêmesis aos  problemas pessoais de Hardy, mas coincidentemente foi a partir daí que o  vicio do ator em  álcool e crack veio a publico. Hardy que havia conseguido algum destaque graças a sua participação em Band of brothers e Black Hawk Down, após Nemesis passou a lutar contra as drogas e profissionalmente a trabalhar em produções menores, como filmes independentes e participações em series de tv, voltando a ter algum destaque somente em Inception (A Origem- 2010) Warrior (Guerreiro – 2011) e com presença assegurada no próximo Batman como o vilão Bane.

 

Já Ron Perlman parece ter passado ileso pelo seu papel  como o viceroy Remano. Mesmo sem nunca ter sido uma estrela absoluta em Hollywood, Perlman sempre foi um ator com trabalhos regulares no cinema e tv, e assim permaneceu. Máscaras devem lhe dar sorte haja vista ter emplacado dois Hellboy em sua carreira entre muitas outras participações. Não deve ter nada a reclamar, acreditamos.

Dina Meyer,  a comandante Donatra, que já havia “cometido” um sofrível  Starship Troopers (Tropas Estelares, 1997) deixou de ser ré primária com sua participação em Nêmesis.  Pouco tempo depois ela se “envolveu” com a natimorta  Bird of Prey , onde fazia o papel da Barbara Gordon. Ao menos era ela bonita sem a maquiagem Romulana, mas toda beleza será castigada, se usada em vão, haja vista o ultimo trabalho da moça para cinema: Piranhas 3D. Esta tem talento para escolher mal, sem duvida alguma, mas ao menos a moça conseguiu alguns trabalhos regulares em produções para TV. Seu papel de maior destaque no cinema talvez tenha sido a detetive Allison Kerry , da franquia Jogos Mortais (Saw) e ela segue trabalhando com alguma regularidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas talvez um dos maiores erros de Nemesis atenda pelo nome de Stuart Baird. Reconhecido pelo seu bom trabalho como editor, Baird tem em seu currículo créditos em filmes como Superman (1978), Máquina Mortífera (1987 e 1989), e os recentes Cassino Royale (2006) e Lanterna Verde (2011)e entre vários outros. Entretanto, seus únicos dois trabalhos como diretor já mostravam que esta não era a praia dele. O primeiro foi o sofrível “Executive Decision” (Momento Crítico) de1996, o segundo foi “U.S. Marshals” (Os Federais) de 1998, não tão ruim, mas uma escandalosa repetição do “The Fugitive” (O Fugitivo) de 1993, mudando apenas o protagonista. A mistura de um diretor inexperiente com apenas dois fracos filmes no currículo, com uma vida profissional moldada em edição de filmes de ação e sem absolutamente nenhum conhecimento sobre o que  vinha a ser Jornada nas Estrelas só podia levar ao pior, e o pior aconteceu.

Poderíamos também  marretar o roteiro de John Logan, e não seria injusto, mas sendo Baird editor, parece fácil concluir que se Nêmesis já tinha potencial para ser um filme complicado, o crime definitivo foi cometido na mesa de edição.  Visualmente o filme não é ruim, e mesmo a sequência com a imagem saturada no planeta Kolarus III, a época muito criticada hoje parece não incomodar tanto, e pode-se dizer que o filme tem sim bons valores de produção, mas é só o que se aproveita do filme que deve ter agradado muito ao menos a Willian Shatner, pois graças a Nêmesis, Jornada nas Estrelas V deixou definitivamente o posto de pior filme da série.

É fato que não se pode atribuir a derrocada da franquia naquele momento apenas a Nemesis. Basta olhar para a arrecadação dos filmes anteriores para concluir que Jornada nas Estrelas nunca foi exatamente um Blockbuster e este filme foi apenas a cereja no bolo de uma sucessão de erros de avaliação e execução, a começar por Voyager, passando pela UPN e culminando com Enterprise, mas após Nêmesis a cotação da franquia desceu assustadoramente e muitos não acreditavam que esta pudesse voltar a ser lucrativa novamente.

Hoje não há muito o que comemorar quando pensamos nos anos passados desde a estréia de Nêmesis em terras tupiniquins. Foram necessários seis anos para que um novo filme pudesse ser produzido após o estrago produzido, mas se fica algo de bom, é de Jornada nas Estrelas parece ter  o poder de sempre ressurgir de suas cinzas mesmo quando não é tratada com o respeito e carinho que merece.

E se o Star Trek de J. J. Abrams  não é exatamente a quintessência da franquia, conseguiu pelo menos passar longe da total incompetência de seu antecessor e provou que o interesse sobre ela ainda esta vivo, e na verdade é preciso apenas um pouco de criatividade e trabalho sério para reanimá-la. Vejamos o que os anos vindouros nos reservam agora.

Vida longa e próspera!

Carlos Henrique B. Santos