A Graduação do Chefe O’Brien

Uma dúvida sempre comum entre o fandom de Jornada nas Estrelas é sobre a questão do nível hierárquico de Miles O’Brien, tanto pelos elementos internos do universo fictício como pela questão enquanto decisões criativas de produção de uma série de TV. Neste artigo, temos a intenção de comentar a respeito da questão, e também de aproveitar para falar a respeito do conceito de um corpo de praças para a Frota Estelar.

Officer? I’m not an officer! I work for a living!
R. Lee Ermey como Sergeant Major Bougus, Space: Above and Beyond

Postos e cargos, praças e oficiais

Por posto, devemos entender que se trata do nível hierárquico que a pessoa pode ter. Tenente, Tenente-Comandante, etc. Cargo é a função administrativa que a pessoa com dado posto exerce. Por exemplo, alguém com o posto de Comandante pode ter o cargo de Oficial Médico Chefe da USS Fontana; alguém com o posto de Capitão pode ter o cargo de Comandante do 47o. Esquadrão de Pesquisa Tecnobáblica. E assim por diante.

Um detalhe importante a considerar é que, por haver um posto com o termo específico de “Comandante”, ocorrem confusões em particular a isto. Mas são conceitos diferentes: o posto específico de “Comandante”, e o fato de alguém estar exercendo comando de uma certa unidade, ou seja, estar sendo o “comandante” dela, e assim ser referido como tal em diálogo. Da mesma forma, alguém pode estar como Capitão de algum veículo mas não ter este posto, ainda que a tripulação se dirija à pessoa pelo termo.

Um problema do sistema de postos que as equipes criativas da franquia deram para a Frota é a coisa de sugerir que a Frota teria apenas “oficiais”, pelo menos na absoluta maioria dos casos, e ter existido uma certa demora em estabelecer que a Frota tenha um Corpo de Oficiais Não-Comissionados (do termo em Inglês “non-commissioned officers”, ou NCO), o termo para as praças das forças dos EUA.

Segundo consta, a justificativa de Gene Roddenberry para apenas haver oficiais é que, no mundo “avançado” de Jornada, toda a população federada é composta apenas por pessoas inteligentes, sofisticadas e cultas a ponto de todo mundo ser oficial quando servindo na Frota. Afirmou ele:

A categoria de ‘praças’ [‘enlisted men’] não existe. Jornada nas Estrelas funciona com a premissa de que todo homem e mulher a bordo da USS Enterprise seja equivalente a um astronauta qualificado, portanto um oficial [officer].”

(WHITFIELD, Stephen E.; RODDENBERRY, Gene. The Making of Star Trek. New York: Ballantine, 1991. p. 209.)

Roddenberry baseia sua decisão no fato de que, até aquele momento, o programa espacial americano só contava com oficiais comissionados das forças dos EUA, e ele procurou extrapolar isso para a Frota Estelar. Contudo, manter uma interpretação demasiadamente rígida do que Roddenberry disse não é adequado para a riqueza criativa da franquia. Primeiro, seria amarrar uma necessidade da Frota no século 23 a uma necessidade da NASA em meados do século 20, o que não faz sentido.

E, se o problema é ser “oficial”, então não há realmente problema. Ambos são “oficiais”, já que o termo, na sua origem, tem a ver com o conceito de “exercício de ofício”. A diferença é que os oficiais possuem uma comissão, ou carta-patente, que lhes delega a autoridade daquela posição e para funções de comando. Assim, aqueles “oficiais” sem o comissionamento direto são o que o próprio termo sugere, “non-commissioned officers”.

Em segundo lugar, a coisa assume que ser ONC (oficiais não comissionados) seria algo inadequado e ingrato. Embora seja verdade que essas graduações podem não ter o glamour que se associa a oficiais, não existe nada de errado nisso — ONCs são uma peça absolutamente fundamental em qualquer organização militar, ainda que a Frota Estelar tenha tarefas adicionais às suas tarefas militares.

ONCs são o elo entre as posições mais básicas na tropa e o corpo de oficiais comissionados, e existe toda uma carreira ampla na qual progredir profissionalmente enquanto ONC. A pessoa pode se especializar em um sem-número de funções técnicas sofisticadas, como manutenção de veículos, equipamento, eletrônica, operação de radares e outros sensores, e diversas outras especialidades. Portanto, não há mal algum no conceito de ONC, e inclusive são fundamentais para apoiarem oficiais comissionados recém-formados, que têm conhecimento adquirido em Academias, mas ainda não possuem experiência de campo.

E, em terceiro lugar, uma organização como a Frota não conseguiria passar sem o conceito de ONC mesmo que desejasse. Considerando a quantidade de naves que a Frota Estelar possui, a Academia da Frota, sozinha, não conseguiria formar oficiais na quantidade necessária para tripular todas as naves e instalações adicionais, mesmo que o campus de São Francisco seja complementado por locais de ensino em outros mundos federados. Assim, um bom número de tripulantes pode ser preenchido por ONCs formados em centros de treinamento da Frota para tanto.

Para tripular uma unidade de uma hipotética classe Gene Coon, você precisaria de cerca de 500 pessoas. Normalmente, bastariam cerca de 70 oficiais e uns 430 ONCs, mas, no suposto universo onde a Federação só tem Rei da Gagh Preta, então teríamos 500 oficiais. Só que o serviço per se de ONCs não desaparece como num passe de mágica, só por você dizer que não existiriam ONCs; o serviço ainda está lá e precisa ser feito. Logo, sobraria para os “Alferes”. Se você estabelece que “todo mundo” é oficial comissionado, então ninguém é.

O que chefia o Chefe O’Brien

Durante os primeiros anos de TNG, pouca atenção era dada ao passado de O’Brien, e referências a seu nível hierárquico variavam entre terminologia de ONC e de oficial comissionado, embora os pins de Tenente ou de Alferes fossem utilizados em seu uniforme. A partir de Family (TNG 4T), ele é definitivamente considerado como um ONC pela equipe criativa, com Ronald Moore o estabelecendo como Chief Petty Officer (um termo emprestado do sistema hierárquico de ONC da Marinha dos EUA) apesar de ainda não ter sido aplicada a essa graduação uma insígnia em particular.

Já em DS9 e no cargo de chefe de operações da estação, ainda existe uma falta de uniformidade em referências ao seu nível hierárquico, ainda que o consenso seja de que se trata de alguma graduação de ONC. A partir de Hippocratic Oath (DS9 4T), O’Brien passa a ter uma insígnia diferenciada, a qual é referida em tela por um Jem’Hadar como sendo especificamente de oficial não comissionado da Frota Estelar.

Além de O’Brien, Jornada sempre teve diversos outros indícios de que a Frota tem um um amplo corpo de praças. O cargo de Yeoman, com responsabilidades administrativas e auxiliares a oficiais, geralmente é visto em tela como sendo preenchido por pessoal não-comissionado, como Janice Rand. Enterprise desenvolveu mais claramente graduações de oficiais não comissionados quando da introdução das equipes MACO a bordo da Enterprise, ainda que fosse estabelecido que os MACO pertenciam a uma organização outra que não a própria Frota Estelar pré-Federação.

Toda a série de incoerências ao longo dos episódios foi explicitamente estabelecida por Ronald Moore como tendo sido descaso inicial e erros puros e simples pelas equipes criativas, e racionalizações retroativas sempre podem ser aplicadas à medida da necessidade. Mas, em linhas gerais, o desenvolvimento de Miles O’Brien estabeleceu de maneira mais clara a existência e o papel do Corpo de Oficiais Não Comissionados da Frota Estelar. Ira Behr sempre considerou O’Brien como sendo um “homem do povo”, e nada melhor do que o estabelecer como ONC para ajudar a compor esse ponto do personagem.

Fontes: Episódios de TNG e DS9; Memory Alpha; Star Trek Deep Space Nine Companion, por Terry Erdmann e Paula Block; The Making of Star Trek, por Stephen E. Whitfield e Gene Roddenberry; Versão brasileira: Chefe O’Brien, por João Paulo Cursino.

3 Comments on "A Graduação do Chefe O’Brien"

  1. Podemos então supor que a Federação e a Frota desse posição de comando a quem fosse qualificado, seje ele militar, oficial ou ONC. Ou seja, se O´Brien era apenas um bom engenheiro mas não o melhor em TNG ele teria hierarquia de comando superior aos outros engenheiro comuns, mas não superior ao LaForge. Porém ele se qualificou e se tornou bom o bastante para ser o melhor ao chegar em DS9, e por isso ele era o comandante des atribuições de engenharia, só devendo satisfação ao Sisko. Então dáparadizer que sendo comissionado ou não, bastava se esforçar para subir de posto na federação.

  2. “homem do povo” / pobre O’Brien

  3. César Augusto Hülsendeger | 29 de dezembro de 2010 at 4:33 pm |

    Caro Padofull:
    O sistema de patentes nas forças armadas dos EUA – a clara fonte do sistema de patentes do universo ST – tem pouca semelhança com os do Brasil. Por isso, qualquer tentativa de entender os postos americanos com base em conhecimento dos postos no Brasil vai dar com os burros n’água.
    Os NCO – em qualquer uma das cinco forças dos EUA (Exército, Marinha, Força Aérea, Fuzileiros e Guarda Costeira) – são militares consideradíssimos e preparadíssimos. Aliás, são quem treina os oficiais em início de carreira (Tenentes e Alferes) e quem tem os pés “no chão da fábrica”. Inclusive, há um posto NCO exclusivo em cada uma delas: o “Sargento” da força, que atua junto ao Chefe do EStado-Maior de cada uma. Ou seja, os NCO não precisam ser oficiais, muitas vezes dão de goleada neles.
    Outra coisa: qualquer praça (enlisted) nos EUA pode aspirar o oficialato, e não precisa fazer Academia. Pode ser encaminhado para a Escola de Oficiais ou mesmo ser promovido em campo (há milhares de casos na 2ª Guerra), fazer um curso de cerca de um ano e sai Oficial.
    Quanto a O’Brien, na Enterprise ele era o Chefe do Transporte e entendia tudo do seu trabalho. NA DS9, foi alçado a Chefe de Operações, mas só da parte realmente operacional da Estação, não das Operações de Combate e Defesa, que depois foi pra mão de Worf.
    Ou seja: o Chefe O’Brien realmente era o Engenheiro-Chefe da Estação, embora não fosse o Oficial de Engenharia (como LaForge, Tripp ou Scotty).
    Portanto, meu caro Rodrigo 286, O’Brien era, realmente – e sem qualquer preconceito ou demérito, muito pelo contrário – um “homem do povo”, no sentido de que fazia parte daquela turma que faz as máquinas militares andarem, apesar de seus oficiais.
    César Auguisto Hülsendeger, 1º Tenente de Infantaria da Reserva do Exército

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