ENT 2×22: Cogenitor

Excelente drama mais uma vez explora o tema ‘Primeira Diretriz’

Sinopse

Data: Desconhecida

A Enterprise inicia o estudo de uma estrela hipergigante que deve se tornar supernova em 100 ou 200 anos — é a primeira vez que uma nave da Terra estuda um astro desses in loco. Enquanto Archer está maravilhado com a vista, Hoshi alerta para a presença de uma nave mais próxima à fotosfera da estrela. Archer contata os alienígenas e descobre que eles também são exploradores e que também estão estudando a estrela.

A convite do capitão, os vissianos vêm a bordo, onde rapidamente um bom relacionamento se estabelece entre os anfitriões e os convidados. Malcolm Reed parece se “entrosar” com a oficial tática vissiana e Trip Tucker tem a chance de aprender com o engenheiro-chefe da nave alienígena, que possui tecnologia largamente superior à da Enterprise.

Estrela hipergigante em Cogenitor

Durante a recepção no refeitório da Enterprise, Trip fica surpreso ao descobrir que os vissianos têm três sexos. Além de homens e mulheres, há os cogenitores, seres que são requeridos apenas para viabilizar a reprodução. Ao perceber que essas criaturas, em tudo similares aos demais vissianos, são tratadas como meros objetos, Trip fica crescentemente incomodado.

O engenheiro da Enterprise vai, então, ao encontro de Phlox, procurando mais informações sobre os vissianos e seus cogenitores. O médico não realizou estudos neurológicos dos alienígenas quando eles vieram a bordo, mas, com a ajuda de Trip, ele obteve as leituras necessárias para mostrar que, intelectualmente, cogenitores têm as mesmas capacidades que os membros dos outros dois sexos.

Trip e Phlox em Cogenitor

Isso faz com que Trip fique ainda mais motivado a contatar o cogenitor, que aos olhos dele parece “ela”, para estimular seu desenvolvimento social e intelectual. Em conversa com T’Pol, a vulcana deixa claro que o engenheiro não deveria interferir com os costumes da civilização alienígena, ainda mais tendo em vista o interesse do capitão em aprofundar os laços de amizade entre humanos e vissianos.

Enquanto isso, Archer tem a oportunidade de uma vida: ele é convidado para visitar, acompanhado pelo capitão vissiano, a fotosfera da estrela, numa cápsula especialmente resistente desenvolvida pelos alienígenas. Sem hesitação, o humano aceita e o entrosamento dos dois capitães é entusiasmante. Ambos realizam diversos estudos da atmosfera e da superfície solar, obtendo imagens espetaculares.

Archer com capitão Vissiano, interpretado por Andreas Katsulas

Na nave vissiana, Trip decide contrariar as recomendações de T’Pol e visitar o cogenitor, traindo a confiança do engenheiro-chefe alienígena e sua mulher. Aos poucos, Trip consegue convencer o cogenitor de que ele deve ter direitos e aspirações. Ensina-o a ler, o que não toma mais que um dia. Contrariando as ordens, o engenheiro o leva para um tour pela Enterprise.

Quando suas ações são descobertas, Trip é fortemente repreendido por T’Pol. O cogenitor, em compensação, é impedido de perseguir suas aspirações na nave vissiana, o que o leva a pedir asilo na Enterprise. Quando Archer retorna à nave, é informado da presente crise. A decisão é difícil, mas o capitão julga que a melhor coisa a fazer é negar o pedido e devolver o cogenitor à nave vissiana. As duas naves partem em seus caminhos.

Trip ensinando o Cogenitor a ler

Archer se sente culpado pelas atitudes de Trip, supostamente por não ter dado um bom exemplo e não ter sido suficientemente inflexível no que diz respeito à interferência com outras culturas no passado. Mesmo assim, ele repreende fortemente o engenheiro. E o clima só piora na Enterprise quando Archer recebe uma comunicação da nave vissiana. O cogenitor está morto. Suicídio.

Comentários

É engraçado como às vezes os episódios de que menos se espera mais rendem. “Cogenitor” conseguiu fazer algo que Enterprise ainda não tinha sido capaz de realizar até agora: drama.

Não drama estereotipado, não obviedade, não amenidade. Drama real. Daqueles que incomodam a audiência, fazem ela pensar. De todos os episódios feitos até agora na série, esse foi o que mais teve sucesso em produzir esse tipo de impacto.

Title Card Enterprise Cogenitor

Para começar, ele procura não se estruturar no óbvio. Explico com um exemplo: quando Trip oferece um tour para o cogenitor a bordo da Enterprise, a audiência (eu incluído) tem a certeza de que ele vai ser pego. A cada cena, esperamos encontrar T’Pol ou um dos vissianos na próxima esquina da nave, fazendo um escândalo e chamando para o comercial. Essa seria a solução óbvia.

Os roteiristas (Brannon Braga e Rick Berman — vamos dar crédito quando eles merecem) sabem muito bem que o público está ciente de que esse é o próximo passo lógico. O que eles fazem? Evitam a fórmula e simplesmente saltam para T’Pol repreendendo Trip por ter traído a confiança dos alienígenas. Com isso, não só quebram a expectativa da audiência (embora mantenham o fluxo lógico da história), como evitam o tradicional clichê da cena “peguei no flagra”.

T'Pol dando bronca em Trip

Além disso, e mais importante, o episódio consegue capturar o impacto desastroso que a interferência em outras culturas pode trazer. Não em termos grandiosos, mas psicologicamente poderosos. A noção de que Trip fez com que o cogenitor cometesse suicídio ao tentar, na verdade, ajudá-lo a realizar seu potencial é dramaticamente mais forte do que qualquer outra bagunça que Archer tenha feito com outras civilizações e rivaliza com o início de “Shockwave, Part I”, com a diferença de que, aqui, a desgraça surge no final do episódio, deixando o telespectador ainda mais incomodado (e satisfeito).

Outros toques também são igualmente trabalhados, como a mudança gradual de perspectiva da tripulação da Enterprise frente ao espaço. Archer deixou a Terra no início da temporada com a ideia de realizar contatos pacíficos e de mútuo interesse com outras civilizações espalhadas pela galáxia. Conforme mais e mais combates foram adicionados à lista do capitão, ele passou a ser desconfiado de cada novo primeiro contato. Quando surge uma civilização genuinamente pacífica, ele demora a retornar à ingenuidade que o levou ao espaço em primeiro lugar. É interessante ver como seu contato com o capitão vissiano gradativamente traz de volta esse espírito de explorador e astronauta ao capitão da Enterprise.

Trip com o Cogenitor

As atuações são todas excelentes. Há cenas engraçadas que realmente funcionam (o que é raro num roteiro de Berman & Braga), como aquela em que a oficial vissiana passa uma cantada em Malcolm Reed, sugerindo que ele mostre a ela seu “conjunto tático”, ao que ele responde que só mostra o dele se ela mostrar o dela. Também é boa a breve cena em que Phlox parece animado por apresentar a Trip imagens de como o relacionamento sexual acontece entre os vissianos.

No lado dramático, as atuações são igualmente marcantes. Os atores convidados conseguem imprimir um grau de realismo à cultura vissiana, um tom de “real diferença”, em vez de simplesmente “tirania contra o cogenitor”, o que torna o episódio ainda mais interessante — definir claramente o que é certo e o que é errado aqui não é das tarefas mais simples, nem mesmo para a audiência.

Reed e Vissiana

O grande trio, Trip, T’Pol e Archer, desenvolve uma relação interessante aqui. O antagonismo entre a vulcana e o engenheiro atinge um novo patamar, que não envolve mais a picuinha entre alienígenas, mas sim a personalidade de cada um. Trata-se da impulsividade de Trip versus a lealdade de T’Pol, um conflito psicológico muito mais forte do que simplesmente a picuinha humano/vulcano.

Connor Trinneer continua imprimindo a simpatia e a honestidade de sempre ao engenheiro Trip. Blalock não tem desafios a enfrentar em suas cenas. O maior desafio do episódio talvez tenha recaído sobre Scott Bakula, que consegue imprimir grande emotividade ao capitão Archer. O ator tem talento suficiente para reunir todos os sentimentos conflitantes do capitão num personagem coerente.

Archer e Trip em Cogenitor

Há quem diga que ele está descaracterizado, por ter repreendido Trip em algo que ele mesmo poderia ter feito. Mas é justamente essa constatação que ele faz e que é tão devastadora: Trip agiu exatamente segundo o exemplo de seu capitão. Archer, agora, percebe o quão importantes são suas ações, não só no âmbito das civilizações alienígenas, mas também em meio a sua tripulação. Bakula consegue trazer à flor da pele as emoções do capitão, numa grande atuação.

Se alguma crítica for pertinente a este episódio, talvez seja no ritmo. As cenas de Archer com o capitão vissiano no interior da estrela são muitas, repetitivas e com pouco conteúdo. Embora seja um prazer ver uma atuação qualificada como a do ator Andreas Katsulas, o valor dessas cenas está na pós-produção. As tomadas externas da cápsula navegando pelas explosões solares são simplesmente espetaculares! Também são entusiasmantes, embora discretas, as tomadas na engenharia alienígena, com seu motor de dobra totalmente criado por computador. Os valores de produção continuam em alta na série.

Estrela hipergigante em Cogenitor

No fim das contas, em meio a uma temporada recheada de episódios medianos, “Cogenitor” é um que se destaca. Mas seria injusto justificá-lo apenas em razão de suas contrapartes de Enterprise. Trata-se de um segmento que poderia sobreviver entre os melhores em qualquer uma das séries de Jornada. Se mais roteiros fossem assim, haveria menos insatisfeitos com o reinado de Berman & Braga…

Avaliação

Citações

“It’ll be nice to have a first contact where nobody is thinking about charging weapons.”
(Será bom ter um primeiro contato em que ninguém está pensando em carregar armas.)
Tucker

“Keep an open mind, commander, you came on this mission to meet other species, no matter how many genders they may have.”
(Mantenha a mente aberta, comandante, você veio nessa missão para conhecer outras espécies, não importa quantos sexos ela tenha.)
Phlox

Trivia

  • Andreas Katsulas é conhecido como o romulano Tomalak, que apareceu em quatro episódios de A Nova Geração. Ele também interpretou o embaixador G’Kar, em Babylon 5.
  • F.J. Rio também já participou de Jornada antes, interpretando Muniz em três episódios de Deep Space Nine e Joleg em “Repentance” (Voyager). Laura Interval apareceu como a mãe de Seven of Nine, Erin Hansen, em “Dark Frontier” (Voyager), mas foi creditada como Laura Stepp.
  • As filmagens principais ocorreram de 18 a 26 de fevereiro de 2003.
  • É o terceiro episódio dirigido por LeVar Burton (Geordi La Forge) em Enterprise, depois de “Terra Nova” e “Fortunate Son”.
  • Rick Berman comentou: “[Este episódio] lida com uma espécie que tem três sexos necessários para a concepção. O episódio se concentra em Trip e eu acho que é um episódio muito provocativo que lida com as questões precursoras da Primeira Diretriz.”

Ficha Técnica

Escrito por Rick Berman & Brannon Braga
Dirigido por LeVar Burton

Exibido em 30 de abril de 2003

Títulos em português: “Cogenitor”

Elenco

Scott Bakula como Jonathan Archer
Jolene Blalock como T’Pol
John Billingsley como Phlox
Anthony Montgomery como Travis Mayweather
Connor Trinneer como Charlie ‘Trip’ Tucker III
Dominic Keating como Malcolm Reed
Linda Park como Hoshi Sato

Elenco convidado

Andreas Katsulas como capitão vissiano
F.J. Rio como engenheiro vissiano
Larissa Laskin como Calla
Becky Wahlstrom como cogenitor
Stacie Renna como Traistana
Laura Interval como Veylo

Enquete

Edição de Mariana Gamberger
Revisão de Nívea Doria

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